Friendzone é misoginia

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O discurso preponderante do rejeitado que não consegue aceitar sua rejeição é culpar o outro, afirmando que este não sabe escolher o parceiro e que não enxerga os atributos que o rejeitado tem a oferecer. No entanto, o que costuma acontecer é justamente o contrário.

Não se sentir atraído por alguém é um processo completamente natural, além de ser puramente emocional. A friendzone é uma mera tentativa de racionalizar, de forma elaborada, esse fato. Busca-se a responsabilização do outro – no caso, a outra – e, como consequência, uma demonização de alguém que teve, como única falha, não retribuir os sentimentos e intenções da mesma forma que se gostaria.

É um exemplo claro de que, hoje em dia, as pessoas têm uma terrível dificuldade em se responsabilizarem pelas suas próprias vidas. Qualquer infortúnio, a culpa é sempre do outro.

Esse absurdo conceito de friendzone é mais uma das, dentre tantas outras, grandes provas do machismo. Nesse caso, as mulheres são involuntariamente lançadas e, depois, responsabilizadas, por algo que é culpa exclusiva do homem.

Um exemplo perfeito:

Imagine que Zezinho, o novo porteiro do seu prédio, barrigudo e simpático, te cumprimenta na segunda-feira com um bom dia. Na terça, ele abre a porta pra você e conta uma piada, que você, simpática como é, ri. Na quarta, ele segura o elevador, e você acaba comentando que o novo corte de cabelo dele é legal. No sábado, ele te ajuda com as compras. No domingo, vocês conversam sobre futebol – na verdade, você odeia futebol, mas ele é está tão empolgado com o assunto que você não consegue ignorar. No outro sábado, ele te ajuda a estacionar o carro. No domingo, ele te presenteia com sua cerveja favorita. E aí, numa sexta-feira boba, ele te cerca no elevador e fala que sempre te tratou bem e que “tá na hora de rolar um sexo”. Assustada, você diz que isso é um absurdo e ele fica nervoso, chateado, te chama de frígida e cria uma página no Facebook cujo o título é “os porteiros bonzinhos nunca se dão bem e os condôminos legais só querem os porteiros safados”.

É isso que ocorre, em maior ou menor grau, na maioria das vezes: a lógica – obviamente infundada – de que a simples prática cumulativa de atitudes agradáveis ou gentis torna obrigatório um tipo – normalmente fock-fock – de recompensa. Como se fosse uma moeda de troca mesmo. Ignora-se completamente o fato de ela ser humana, ter direito à escolha e que ela pode não querer nada com ele.

E se eu te dissesse que friendzone é uma mentira, porque as meninas não são máquinas onde você coloca moedas de gentileza até o sexo sair
E se eu te dissesse que friendzone é uma mentira, porque as meninas não são máquinas onde você coloca moedas de gentileza até o sexo sair

É o velho machismo dizendo que mulher não pode ter vontade própria, não gosta de transar, e, por isso, tem que fazer sexo com qualquer um. É uma tentativa de colocá-la no seu “lugar” de mulher: um ser inferior. Em nenhum momento ela é tratada como um indivíduo, que possui seus desejos. Não. A mulher deve dar em troca o que o cara quer, afinal, ele foi “bonzinho”. Ele merece.

A verdade é que os ditos bonzinhos não sabem, sequer intuem, que oferecer um tratamento reverencioso às mulheres pode ser tão objetificante quanto oferecer um tratamento… bem, o inverso, que é justamente o que os canalhas, o outro extremo, fazem. Eles, os bonzinhos, ainda veem as mulheres como seres de Vênus e que devem ser reverenciadas, tratadas como rainhas de outro mundo, não como seres pensantes e iguais.

Quando ela diz “não”, ou “não estou interessada”, ou “não gosto de você nesse sentido”, ela se transforma naquela vadia que fica escolhendo os parceiros. E isso é diferente de algum homem?

Friendzone nada mais é do que misoginia latente

Adão, quando posto na situação de encarar as consequências de seus atos, preferiu pôr a culpa em metade da população mundial, Eva.

Você não ficou com a mulher que desejava porque ela não quis, porque você é um babaca, ou não é atraente o suficiente, ou porque não tem assunto, ou porque lhe falta confiança, ou porque não tem nem duas moedinhas de dez centavos para esfregar uma contra a outra – e ela não seria interesseira por esse motivo. Existe uma miríade de motivos pela qual você está aí sozinho, bisbilhotando todas as fotos da menina no Facebook, enquanto ela já se decidiu por outro – um cara que, definitivamente, tomou uma atitude.

Dentre essa miríade de motivos, nunca houve uma força da natureza que o impediu de pegar a menina. A culpa é sua, e sempre foi.

A consequência direta de não assumir a culpa pelos próprios atos é o cara falar que “a garota da qual gosto só sai com idiotas. Ela só escolhe os caras errados”. Beijinho no ombro para o recalque passar longe. A verdade é que ela está sempre saindo com alguém e você está sempre chupando o dedo (e, se não mudar de atitude, será a única coisa que irá chupar).

E o resultado disto, que acabei de dizer, é o surgimento da verdadeira prova do machismo. “Ela é uma piranha, uma vadia, uma filha da puta”. Desculpe te informar, mas ela não é nada disso. Se aquela pessoa aprecia sua companhia, gosta do que você fala, pensa ou expõe, pode gostar apenas disso, e só. O mundo não é uma comunidade de simples trocas, onde aquele que oferece simpatia é recompensado com sexo. Não é também uma comunidade onde homens e mulheres só podem se relacionar se, em um momento ou outro, a relação terminar em sexo. A mulher não tem nenhuma obrigação de sentir algum desejo sexual por você, não importa o que você faça por ela, o que não faz dela uma sem coração.

Se você acha que uma mulher irá se sentir atraída por você sem dar motivos para que ela sinta isso, você é um babaca. Se você acha que, se fizer de tudo por ela, ela irá cair aos seus pés, perdidamente apaixonada, você é um babaca ainda maior. Aliás, se você só trata uma mulher bem com o intuito de comê-la, o filho da puta é você. No final, há tanta raiva embaixo do tapete que mal consegue esconder sua misoginia latente quando diz que “essas piranhas só querem saber dos canalhas”.

As pessoas possuem total direito de simplesmente não te querer. Não importa o quão bom você seja ou o quão forte e verdadeiro seja o seu sentimento. É sempre opção do outro não te querer. O problema disso é que raramente as coisas são tão claras assim.

Friendzone nada mais é do que falta de clareza

Um dos problemas mais recorrentes na vida humana é a imensa distorção entre a forma como percebemos subjetivamente os fatos e a forma como eles objetivamente se desenrolam.

Você acredita que ela sempre soube que você era apaixonado por ela, mas ela pensava que você fosse apenas alguém com quem ela pudesse contar; alguém que pudesse desabafar, contar os problemas do dia. E você, ingenuamente, pensou que isso faria com que ela se sentisse atraída por você. Pode acontecer, mas não é muito comum. Dificilmente uma mulher se sente atraída por alguém que faz absolutamente tudo por ela. É uma das pequenas ironias da vida.

E nisso vem uma frustração muito comum dos homens: a visão de que a pessoa em questão não percebeu o interesse de que era alvo, ou percebeu, e usou isso a seu favor, com a intenção de extrair favores, benefícios ou apenas não precisar nunca mais trocar uma lâmpada.

Nesses momentos, normalmente existem duas respostas óbvias: você não deixou suficientemente claro o seu interesse – não adianta dizer com sutileza ou ironicamente; você precisa dizer e pronto; a outra é que você deixou claro, ela percebeu e usou o fato como uma forma de te explorar, seja de qual forma for – nesse caso, você foi feito de otário e pronto; embora ela também tenha sua parcela de culpa.

Há uma terceira resposta óbvia, mas que nunca é encarada dessa maneira. A resposta da qual esse texto trata: você deixou suficientemente claro o seu interesse, mas percebeu que não era recíproco. Surgiu então a resposta tão temida pelos homens: vamos ser só amigos. Essa é a alternativa a ser otário, e não consigo vê-la como a pior.

A amizade é apenas uma desculpa para não ferir cruelmente o outro, e não há mal algum nisso. Não trará nenhum benefício à situação dizer para o outro verdades que só irão funcionar como uma forma de piorar ainda mais a rejeição, que é uma situação ruim por si só.

Ter uma amiga mulher é tão ruim assim?

Há um lado pouco abordado dessa questão: a visão da amizade feminina como uma punição. Não é. A amizade entre homem e mulher só não existe se eles não forem amigos. Uma amizade que tem um objetivo, e que não vale a pena se esse objetivo não é atingido, não é exatamente uma amizade. Isso é subestimar o valor desse tipo de afeto, transformando em instrumental algo que é importante por si só.

E ninguém nunca disse que inexiste a possibilidade de, a partir de uma amizade, nascer um relacionamento amoroso. Sexo não é o contrário de amizade, e quem pensa assim ainda precisa percorrer um longo caminho; e provavelmente encarará essa falsa friendzone por muito tempo.

É interessante notar também como esses homens-meninos, nessa necessidade de provar sua falsa bondade, fazendo de tudo pelas pseudo-amadas, não oferecem a simples honestidade de dizerem o que querem de verdade. Ele espera que a mulher adivinhe que as gentilezas dele são uma abertura romântica.

Atrair uma mulher não é tão simples assim…

Se o conceito de que você foi metaforicamente colocado de castigo num cantinho e impedido de namorar uma menina é algo que habita o seu vocabulário, você não merece pegar ninguém pelo resto da sua vida, seu desgraçado”.

Calma, calma, calma. Não precisamos ser tão drásticos.

A verdade é que atrair uma mulher é difícil para a esmagadora maioria dos homens. Acredite. O problema é que os homens mentem; e muito. A probabilidade de que, tendo dez amigos, sete tenham problemas em atrair mulheres, é muito grande. O problema é como você encara essa situação.

Mulheres se sentem atraídas por homens determinados – de acordo com o que é socialmente aceito; de nada vale um porteiro determinado, como o exemplo acima. Seu problema é confiança, pois você não tem coragem de falar o que sente; e, quando fala, não sabe como falar. Você sua, gagueja, treme.

Sério, isso não é atraente, dude.

… mas também não é tão difícil assim

Eu não escrevo isso porque sou o todo-poderoso, pegador, senhor comilão. Já passei pela friendzone uma dezena de vezes. E as minhas histórias são bem, mas bem patéticas.

Eu já falei para uma garota, da qual eu gostava, que eu estava apaixonado por ela via MSN. Eu não disse que queria ficar com ela ou a chamei para um encontro. Eu disse que estava apaixonado. Você deve imaginar qual foi a resposta. Eu tomei uma atitude, fui determinado, mas de nada adiantou; porque a atitude foi patética.

Eu já levei chocolate para a garota da qual gostava, na porta da faculdade. Para fazer surpresa, botei o chocolate no bolso. Quando ela apareceu, entreguei um chocolate totalmente derretido. É claro que, depois disso, nunca fiquei com ela. Patético, mesmo que agora seja engraçado de contar.

Eu já “briguei” com uma garota da qual gostava porque ela era idiota por não querer ficar comigo. Eu era tão legal com ela!!! A resposta dela foi o suficiente para eu nunca mais entrar na friendzone: você nunca me chamou para sair. E adivinhem o que eu fiz? Não a chamei pra sair. DE NOVO. Super Patético.

A questão aqui é: ligue o foda-se. Gosta dela? Chame-a pra sair. Cinema, bar, boate, casa de swing, ou qualquer outro programa. Tenha uma atitude. Seja honesto com ela e consigo mesmo. É isso que você quer? Então, faça por onde.

Vejo que a muitos falta o tão falado amor-próprio. O não da mulher parece que mudará a forma como você vê a si próprio. Isso não é verdade. A única pessoa que pode mudar isso é você mesmo.

A essas pessoas falta estabilidade emocional; precisam parar de buscar validação o tempo inteiro. Tenha uma identidade, saiba quem você é. Ninguém pode tirar isso de você. Crie confiança. Mesmo que ela seja da boca para fora (ou das atitudes para fora). Finja confiança se for preciso. Mas demonstre confiança. Pense, sempre que for chamar uma mulher para sair, que não é você que está perdendo por não tê-la em sua vida, mas o contrário. Você é a pessoa que mais importa no mundo, pois sem você nada mais existe. Encare-se dessa forma.

A casa de swing era brincadeira. Sério, por favor.

O friendzone funciona como mais uma prova do machismo inerente à sociedade cujos homens, por serem completamente inábeis em conseguir aquilo que querem, criaram essa ferramenta, que nada mais é do que uma forma deturpada de maquilar a rejeição. Ao invés de agirem com maturidade e encarar a rejeição, aceitando-a como parte da vida, demonstraram repetidamente níveis catastróficos de falta de amor próprio e o medo de se responsabilizar e seguir em frente.


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Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.

  • Vento

    Existe algo ainda pior do q pagar de babaca ao estar na friendzone. Quando a mulher deixa claro q não quer um relacionamento amoroso, n tenta tirar proveito disso, se incomoda por tanta ” gentileza” , tenta por diversas vezes se afastar mas o cara insiste em permanecer e com a desculpa de q tá OK, continuamos amigos. Ou seja uma escolha dele, q aliás sempre foi desde o início. No fim das contas, o canalha passa a manipular emocionalmente a mulher desejada, chega a ser um caso de assédio disfarçado de amizade. É uma rede tão complexa, com chantagens emocionais absurdas q muitas vezes nos sentimos acuadas, perdida sem saber como resolver. A decisão de se afastar nesse caso precisa partir da mulher, mas não se engane, n é fácil perceber e ao se afastar é q de fato percebemos todas as sutilezas desse relacionamento abusivo, londe de ser amizade, mais longe ainda de ser amor, alguns casos são obsessão e q podem geram profundas feridas na mulher. Repugnante todo machismo embutido. Vc pode ser um babaca, mas perceba isso a tempo e pule fora, n permaneça pois sendo assim vc se torna um cretino mal caráter.

    • Obrigado por complementar o texto com a visão da outra parte!