Por que não curto a tragédia que você compartilha

Odeio o ódio.

Não para fazer um trocadilho cool, ou parecer mais nobre. “Uau, ele odeia o ódio. Se for pra odiar algo, nada mais justo do que odiar o ódio”.

Não, o ódio simplesmente me faz mal.

Os sentimentos são como fluidos – contam com a intangibilidade do ar, as cores da água do mar ou de um mar de lava –, e fluidos são contagiosos.

Da mesma forma que um fluido ocupa todos os espaços possíveis, os sentimentos fazem o mesmo. Quem segura um sorriso ao ver a gargalhada inocente de um bebê? Quem retém a indignação ao saber de mais um político corrupto solto?

Contudo, apesar de se espalharem, os fluidos são delimitados por, basicamente, dois fatores: a forma do recipiente e a gravidade.

Não se engane, nós somos recipientes. Todos os dias, absorvemos, ignoramos, esquecemos e processamos informações – cada vez mais informações. E temos nosso próprio campo gravitacional: a personalidade.

Recebemos a informação de que amanhã vai chover (recipiente), e ela altera nosso estado emocional de acordo com nossa personalidade (gravidade). Alguns ficam felizes, cariocas ficam tristes – cariocas que se sentem excluídos pelo comentário anterior ficam com raiva – e alguns ficam até mesmo indiferentes. Os sentimentos que captamos têm os mesmos efeitos, geram novos sentimentos.

Pausa para o Momento Ciências. Imagine que há uma tampa de caneta BIC no fundo de uma garrafa PET, e foi desafiado a recuperar a tampa sem encostar na garrafa. Alguma ideia?

Tempo contando…

Basta encher a garrafa com água. A tampa da caneta é menos densa que a água, portanto flutuará até transbordar (ou ficar presa na boca da garrafa, se você tiver azar).

Ok, mas por que paramos para esse experimento?

Um sentimento substitui o outro em nós, da mesma forma que a água toma o lugar do ar na garrafa. Contudo, antes de fechar as cortinas do laboratório, que tal tentar o contrário? Esquecendo a tampa, como substituir a água da garrafa por ar, sem encostar nela?

Aposto que as possíveis soluções são mais complexas, lentas e/ou causarão uma grande bagunça.

O ódio, no caso, é como a água. Pode pensar em petróleo, se preferir. É um sentimento pesado, mais pesado que o ar, portanto, mais difícil de substituir. É por isso que o repudio. A vida toda o absorvi, e acredite, você também, por vezes involuntariamente, em atos simples como assistir a um programa jornalístico ou a um reality show que ensina pessoas a brigar por dinheiro… ou lendo tragédias compartilhadas no Facebook.

Meme urso rebeldia

Não me entenda mal, não estou defendendo a alienação, mas existem cenas que simplesmente não quero ter que enxergar. Um novo rosto desfigurado pela violência ou a 500ª criança morta pelos pais no mês ou o novo bilhão desviado de obras não representam mais novidade na minha vida; no entanto, ainda geram ódio. Se eu não ajo em alguma dessas causas, essa raiva é tudo que terei. Absorver esse conteúdo, processar esse sentimento, me torna uma pessoa pior. Me livrar desse ódio é um processo de desintoxicação, o qual tenho trilhado há algum tempo. A recaída, infelizmente, é extremamente fácil, especialmente com a complacência de continuar em ambientes como o Facebook. Cada post com tragédia é uma nova chance de me preencher de ódio.

Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar, e, se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é mais natural no coração humano do que o seu oposto. – Nelson Mandela

Ainda que, por vezes, caia na armadilha, posso fazer escolhas. Eu escolho não propagar o ódio, mesmo quando não conseguir evitar consumi-lo. Não vou curtir a sua nova velha revolta com a mais nova velha tragédia. Vou propagar o que puder substituir esse ódio em nossas garrafas. Em nossos corações.


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