Olhos que dizem adeus

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Você observava o céu noturno na área de embarque. A lua estava cheia, e era uma noite perfeita de verão.

Havia algo de delicado na forma em que você se perdia em seus próprios pensamentos, na forma em que contorcia o rosto ao lembrar de alguma coisa. Nada mais importava, e a única coisa que te ligava ao mundo real era a insistente mania de colocar o cabelo atrás da orelha.

Eu estava atrás de você, exausto, implorando por um minuto de descanso. Você não sabe, mas eu não havia dormido na noite anterior. Depois de todas as palavras e promessas, de tudo aquilo sobre como voltaria depois de um mês, você adormeceu, mas eu não. Eu a observei dormir. Não porque eu sou um maníaco, mas porque adorava como suas pálpebras se mexiam quando você sonhava; adorava quando você sussurrava qualquer coisa que eu não era capaz de entender; adorava simplesmente ver você em paz. É, talvez eu seja um maníaco.

Mas, principalmente, a observei porque sabia que seria a última vez. Não importava o que você tinha dito, todas as promessas, havia algo em você, algo no que me dizia, em como dizia, que me deixou convencido de que não voltaria. Era assim que as coisas seriam, e eu precisava me conformar.

Ali estava você, banhada pela luz da lua. Queria fotografar aquele momento, guardá-lo em minha memória; durante um segundo cogitei fazer exatamente isso. Mas depois pensei direito. Não havia motivo para me torturar.

Uma voz soou dos alto-falantes. Era o seu vôo; era a hora de partir. Você deixou o transe e olhou para trás. Nossos olhos se encontraram. Durante um longo instante, algo dentro de mim pareceu queimar. Não era nada além do meu coração sofrendo por antecedência. Pensei comigo mesmo que devia ser proibido ter olhos tão bonitos como os seus. Ou, pelo menos, deveria ser proibido sofrer por eles.

Você pegou a mala das minhas mãos e me deu um beijo nos lábios. Um beijo doce, intenso e apaixonante; tão bom que eu não quis te largar. Por um momento, pensei que era isso que faria. E, por outro, pensei que você quisesse o mesmo. Me equivoquei. Você se afastou, não sem antes piscar os olhos para mim. Parecia que você estava dizendo que iria voltar. Na verdade, estava dizendo adeus.

Eu lembro até hoje de como são seus olhos. Olhos verdes, tão bonitos que eram capazes de partir o coração de um homem. Certamente que partiram o meu.


A imagem de capa é de autoria de Ryan Polei, postada na plataforma OGQ Backgrounds HD. Não foram feitas alterações. A licença pode ser vista aqui.


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Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.