Preciso te contar sobre meu armário

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Há algum tempo, eu venho evitando falar sobre algo que é muito importante para mim. Não é nada fácil admitir isso… Talvez algumas pessoas já tenham notado, mas a maioria provavelmente sequer imagina. Eu poderia continuar guardando isso dentro de mim, mas eu acredito que chega um momento na vida em que precisamos assumir e gritar aquilo que realmente somos… Contar para os nossos amigos, família e colegas de trabalho. Sair do armário, sabe?

Então, lá vai: Eu sou gorda. Gorda mesmo. Não gordinha, cheinha, fofinha ou avantajada. Gorda.

Eu sei que a ideia de precisar assumir algo que todos podem ver quando olham para você parece extremamente absurda, mas eu posso provar que é realmente necessário. Vou contar uma história breve, que acontece com muito mais frequência do que eu gostaria:

Eu estava na porta de uma dessas festinhas alternativas – que, na verdade, são totalmente dentro do padrão, mas isso é outra história – rock’n’roll do Rio de Janeiro quando um amigo apontou sutilmente para uma garota e comentou: “Nossa, gente gorda deveria saber que não pode usar certas roupas, né?”. Ao que eu respondi – sem tentar disfarçar minha indignação: “Como não? Você acha que eu, por exemplo, não poderia usar aquele cropped?”. E, então, para a minha surpresa, ele retrucou: “Claro que pode. Mas você não é gorda!”. Fiquei alguns segundos em silêncio, fazendo mentalmente a checklist da balança: Mais de 90kg? Check. Manequim acima de 46? Check. Ter que comprar roupas na seção plus size das lojas? Check. Não tenho dúvidas de que sou gorda, mas ele foi tão impositivo na afirmação que eu precisei parar e conferir. E, então, depois de alguns segundos em silêncio, eu finalmente entendi: ele queria me poupar. Muito provavelmente, ele não me acha mesmo gorda – embora eu claramente seja – porque, se eu fosse gorda, eu seria inferior. Eu seria menos. E, sendo sua amiga, eu preciso ser ótima. E magra, claro. Se eu fosse gorda, ele não poderia comentar sobre o senso de ridículo das pessoas gordas comigo. Se eu fosse gorda, ele não poderia reproduzir as inúmeras piadinhas que ele tanto gosta de fazer sobre uma menina não pegar ninguém porque é gorda. Ser gorda incomoda. Eu o incomodaria se eu fosse, então, ele prefere não me ver dessa forma. Com ele, eu ganho o “privilégio” de me passar por uma pessoa magra. Só que eu não sou magra e eu não quero ser magra.

Quando as pessoas me chamam de gordinha ou dizem a famosa frase “mas você nem está tão gorda assim”, elas não estão me poupando ou me proporcionando qualquer benefício. Muito pelo contrário, elas estão me dizendo indiretamente que a minha estética não é compatível com algo que elas queiram aceitar. E isso é ofensivo. Tão ofensivo quanto um negro ser chamado de “marrom bombom” ou um gay ouvir que “nem parece gay”. Qual é o problema de ser negro, gay ou gorda? Quando você tenta mascarar a realidade de uma minoria, você reforça que ela não é boa o bastante. Você reforça, pela milésima vez no dia daquela pessoa, que ela não pertence ao padrão e isso é um incômodo. Mas sabe de uma coisa? O problema é seu.

Se o meu corpo te incomoda, o problema é seu. Veja bem, não foi nada fácil amar o meu corpo. Graças ao padrão social imposto por pessoas que não me conheciam e me repudiavam pela minha estética ou por pessoas que me amavam e, por isso, queriam me poupar, eu demorei muito tempo para entender que ser gorda não é feio, não é vergonhoso e, muito menos, doente. É difícil se amar quando você vai comprar roupa e nenhuma calça jeans, blusa ou vestido nas lojas consideradas “padrão” foram pensadas para você. É difícil se amar quando você se sente isolada e à margem das pessoas que aparecem nas propagandas, nas novelas e nos filmes. É difícil, sim, mas se você olhar para o lado, você vai encontrar toda a representatividade que não vê na TV. O mundo está cheio de pessoas gordas, negras, gays e fora do padrão. E todas elas são lindas.

Eu aprendi a me olhar no espelho e a me amar quando eu descobri que, não importa a pressão social e o julgamento, o amor vem de dentro. De dentro da gente. Até que a construção social mude drasticamente – e eu espero muito mesmo que mude logo – o preconceito, a hostilidade e a falta de empatia sempre vão tentar te diminuir. Mas existe uma barreira fantástica contra tudo isso que é o nosso amor próprio. Ninguém, além de você, determina quem você é e o que você pode ter.

Eu nem sempre tive esses mais de 90kg maravilhosos. Durante um bom tempo, há uns três anos, quando eu tinha 49kg, eu me olhava no espelho e só conseguia encontrar defeitos. Via celulites, estrias e gorduras onde não tinha nada. Perdi as contas de quantas vezes inventei desculpas esfarrapadas para não colocar um biquíni na frente de amigos ou ir à praia com alguém que acabei de conhecer. Eu me privei de viver porque a sociedade me dizia que eu não era boa o bastante. Mesmo magra, eu ainda não me sentia parte do grupo seleto de pessoas que não incomoda.

O que eu quero dizer é que não importa o seu tamanho, só você é capaz de se aceitar e amar. Se você se permitir ser boa o bastante, não vai importar se a balança marca 49kg ou 90kg. Hoje, eu busco comprar roupas que foram pensadas e feitas pra mim e pro meu corpo em vez de tentar me espremer dentro de uma peça de alguma loja padrão que só veste até o 44 – com sorte. Hoje, eu compro biquínis lindos, também pensados para um corpo como o meu, e desfilo pela praia sem medo de ser feliz. Eu não reparo mais se alguém está julgando meus pratos no restaurante e não me envergonho mais por querer repetir a comida no jantarzinho com os amigos. No cinema, eu não finjo mais que não faço questão de comprar a pipoca grande. Eu me aceitei como eu sou e comecei a respeitar as minhas vontades. E sabe de uma coisa? Eu nunca me diverti tanto.


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Jessica Leite Moreira

Lésbica, femininja, vegetariana, esquerdista, abortista e obviamente banida dos almoços da família. Acredita fielmente que a revolução começa no bar. Aliás, desce mais uma gelada?