Oscar 2016 – Melhor Roteiro Original

Tempo médio de leitura: 11 minutos

Nota do editor: o texto pode conter spoilers sobre os concorrentes ao Oscar de Melhor Roteiro Original

No quesito Roteiro Original, há anos que não vejo uma qualidade tão surpreendente nas histórias, especialmente nas três últimas (as mais propensas a ganhar).

Fascinantes, geniais e polêmicas (pelo menos as duas últimas), as histórias te prendem do início ao fim; te deixam alegres e tristes (Divertida mente), preocupados com o futuro que nos aguarda (Ex-machina) e de boca aberta com as verdades que nunca quisemos enfrentar (Spotlight).

Quem tem chances de ganhar, quem não tem chances? Nesse texto abordarei quem deve/não deve ganhar e por que motivo está concorrendo. Vou escrever em ordem crescente de probabilidade de vencer.

Straight Outta Compton – Andrea Berloff, Jonathan Herman

Straight Outta Compton
Antes de iniciar a análise, vale salientar a ironia: é uma história de como jovens negros deram origem a um grupo de hip-hop, onde mostravam a realidade dura nos guetos norte-americanos.

Ou seja, é uma história inteiramente sobre negros…

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p style=”margin:0;text-align:center;color:#333333;line-height:18pt;font-family:Baskerville;font-size:14pt;”>… escrita por brancos(?).

Além disso, o cartaz diz “o grupo mais perigoso do mundo”. Por quê? Porque são negros que foram contra a hostilidade e opressão dos brancos?

A história

O roteiro conta a história real e surpreendente de cinco jovens que fundaram, em 1987, o N.W.A (Niggaz Wit Attitudes – Negros com Atitude) e o estilo musical chamado de “gangsta rap”, e como eles revolucionaram a música e a cultura pop, usando experiências pessoais na produção de músicas honestas e rebeldes, totalmente contra o sistema.

O grupo causou controvérsia por suas letras explícitas sobre drogas, a vida no crime e uma forte oposição à polícia e o abuso de autoridade, mas é considerado um dos grupos mais representativos da juventude negra que crescia em meio à violência de um subúrbio dos Estados Unidos.

Se você, assim como eu, nunca ouviu falar da N.W.A., provavelmente já ouviu falar de pelo menos um de seus dois fundadores: Ice Cube e Dr. Dre.

Por que está concorrendo?

É uma história de tensões clássicas: esforço e triunfo, divisão e conquista, coletivo e individual. Uma história que retrata a truculência policial contra as minorias negras; uma história de como jovens negros venceram todas as adversidades e chegaram ao topo, tornando-se símbolos a tantos outros negros.

Por que deve/não deve ganhar?

Não deve ganhar.

Filmes biográficos, especialmente os musicais, não fazem muito sucesso em Hollywood, com exceção de Ray. Este é exceção porque teve atores famosos e um veterano diretor de Hollywood (que também escreveu o roteiro), Taylor Hackford (de filmes como Advogado do Diabo e A Força do Destino).

Há também o fato de que a história não esconde a dura realidade em que os jovens negros cresceram: a violência, as letras fortes e o estilo de vida que levavam. Isso é difícil de vender em um universo como o de Hollywood.

No entanto, agora com essa polêmica falta de diversidade racial no Oscar, as coisas talvez possam mudar. Duvido, pelo menos aqui, mas há essa possibilidade.

Ponte dos Espiões – Matt Charman e Irmãos Coen

Ponte dos Espiões

A história

Em plena Guerra Fria, o advogado especializado em seguros, James Donovan (Tom Hanks), aceita uma tarefa muito diferente do seu trabalho habitual: defender um espião soviético capturado pelos americanos. Mesmo sem ter experiência como advogado de defesa, Donovan torna-se uma peça central das negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética ao ser enviado a Berlim para negociar a troca de Abel por um prisioneiro americano, capturado pelos inimigos.

Os roteiristas Matt Charman e os irmãos Ethan e Joel Coen, transformaram essa experiência de Donovan em uma história inspirada em eventos reais, que captura a essência de um homem que arriscou tudo nessa jornada.

O título faz referência a uma ponte que ligava a antiga Berlim Ocidental com o centro da cidade de Potsdam, anteriormente sob o controle da Alemanha Oriental. Foi apelidada de “Ponte dos Espiões” nos anos 60 por conta de agências de inteligência americana e soviética, que realizavam trocas de prisioneiros em sua extensão.

Por que está concorrendo?

Em um mundo em constante guerra contra o terror e hoje incentivando a xenofobia islâmica, os Estados Unidos vivem, mais uma vez, em um estado de “nós contra eles”, mesmo estado que viveram durante a Guerra Fria contra a União Soviética.

A história lida, primeiramente, com dois lados: de um, o protagonista, lutando por justiça e por um julgamento justo do espião soviético; do outro, várias pessoas (o juiz julgando o caso, seus sócios na firma de advogados, a esmagadora maioria das pessoas ao seu redor) clamando pela morte do mesmo espião, sem sequer desejar saber se suas acusações são verdadeiras ou não; essas pessoas clamam pelo patriotismo, porque é assim que as coisas são.

Ou seja, o filme trata de um duelo entre justiça e patriotismo, onde, no final, entendemos que um não existe sem o outro, e que justiça é exatamente o chão onde os Estados Unidos se erguem.

Por que deve/não deve ganhar?

Não deve ganhar.

Apesar de seu tema, a história não é tão grandiosa quanto poderia (ou deveria) ser. Seus elementos (tema, personagens, trama, desenvolvimento, etc.) não são muito bem desenvolvidos e acabamos “sendo levados” pela história, ao invés de realmente entrarmos nela.

Divertida Mente – Pete Docter

Divertida mente

A história

Todas as pessoas são guiadas por suas emoções: alegria, medo, raiva, “nojinho” e tristeza.

Com Riley, não seria diferente.

A história se passa em sua cabeça, uma jovem e meiga garota, que tem sua vida transformada num inferno quando, por causa do emprego do pai, é obrigada a se mudar para São Francisco.

Surpresos pela mudança, suas emoções começam a entrar em conflito entre si, com a alegria (Joy) tentando controlar todos os sentimentos, tentando manter Riley a meiga e alegre garota que sempre fora.

Joy vai falhando pouco a pouco, até que, em um conflito com a Tristeza, ambas são jogadas para fora do Quartel-General (de onde as emoções controlam Riley), deixando Riley apenas com medo, raiva e nojo – ou seja, uma adolescente na puberdade.

Por que está concorrendo?

Primeiro, porque lida com nossas emoções e confitos internos de uma forma simples e direta, no mesmo estilo da Pixar: contando a história de tal forma que tanto crianças como adultos podem assistir, e qualquer um pode entender.

Segundo, porque segue o padrão Pixar: uma história extremamente bem contada. Personagens bem construídos, diálogos inteligentes, sem muitas explicações desnecessárias.

Terceiro, porque explica, da forma mais bonita possível, que tristeza e alegria não são emoções contrárias; na verdade, são complementares. Alguém só pode ser feliz se já sentiu antes a tristeza.

Por que deve/não deve ganhar?

Não deve ganhar.

Mesmo sendo uma ideia mais do que brilhante, continua sendo uma animação. Animações nunca são fortes quando se trata de Oscar (exceto em suas categorias particulares). Veja os exemplos dos últimos concorrentes de animação (os grifados foram escritos também por Pete Docter): Toy Story, Wall-E, UP, Ratatouille, Os Incríveis, Procurando Nemo.

Nenhum ganhou, mesmo sendo boas histórias (nem de longe tão boas como esta, mas é só um detalhe). Ou seja, animações não têm força nesse quesito.

Mas, quem sabe, talvez tenhamos uma surpresa esse ano, embora eu ache altamente improvável.

Ex-Machina: Instinto Artificial – Alex Garland

Ex Machina

A história

Caleb, um jovem programador em uma das maiores companhias do mundo (semelhante à Google), vence uma competição e, como prêmio, irá passar uma semana na propriedade privada de Nathan, o recluso e genial CEO da empresa.

Chegando lá, em uma localização remota nas montanhas, ele descobre que irá, na verdade, participar de um estranho e fascinante experimento: interagir com Ava, a primeira robô humanoide da história a ter uma verdadeira inteligência artificial.

Nathan dá a Caleb um contrato de confidencialidade e dá início ao experimento. Sua função será avaliar as reações e emoções da robô em um inesperado e nada convencional Teste de Turing. Mas as coisas ficam complicadas quando a robô diz que Caleb não deve confiar em Nathan; mais tarde, este diz que Ava está manipulando Caleb para poder fugir.

Quem estará dizendo a verdade? Só o tempo dirá.

Por que está concorrendo?

Porque é uma ideia extremamente original.

Além disso, traz questionamentos (embora superficiais) sobre assuntos recorrentes hoje em dia:

Privacidade

Ao explicar como descobriu os algoritmos para fazer com que Ava, o robô, imitasse as expressões humanas e, mais importante, as identificasse e interpretasse, Nathan (CEO da empresa) diz que todo celular tem uma câmera, microfone e meios de transmitir dados. Ou seja, ele apenas hackeou todos os celulares do mundo, para estudar essas informações. Pior: fez isso com a concordância de todas as empresas de telefonia.

O robô humanoide, então, é o resultado de uma singularidade (toda a memória humana reduzida a bits de informação) produzida pelas redes sociais, celulares e dos algoritmos de busca.

Inteligência Artificial

Questionamento se teremos verdadeiramente uma inteligência artificial. Afinal, as emoções serão verdadeiras ou serão emuladas, para satisfazer as necessidades de seus criadores?

Sexualidade

Caleb, ao perceber que a sexualidade do robô talvez seja um meio de fazê-lo fazer passar no teste, questiona por qual motivo um robô deveria ter sexualidade. Nathan questiona: “você consegue pensar em um exemplo de um ser consciente, humano ou animal, que exista sem uma dimensão sexual?”

Ou seja, somos o que somos porque temos essa dimensão sexual, que está ligada diretamente à procriação, mas não apenas a isso.

Mas o questionamento mais importante é sobre a programação da sexualidade. Nathan diz que programou o robô para ser heterossexual. Mas ninguém é programado para ser ou não ser heterossexual, Caleb questiona. A verdade é que ninguém escolhe ser homossexual. É uma programação, realmente, feita pela natureza ou pela criação.

Por que deve/não deve ganhar?

Não deve ganhar (embora seja muito possível).

Primeiro, porque é ficção científica. Você pode argumentar que Her ganhou em 2014. Sim, mas são filmes completamente diferentes, com abordagens completamente diferentes. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças também ganhou. De novo, uma abordagem completamente diferente.

Segundo, porque não é uma história bem contada, embora seja muito original. É um filme bom? Bastante, especialmente na parte final. Mas é recheado de diálogos expositivos (que explicam através de palavras, ao invés de explicar através de ações), personagens subdesenvolvidos e redundâncias estruturais. O escritor repetidamente expõe coisas que já expusera antes, e que não tem necessidade de serem expostas de novo.

Você pode argumentar também: mas é uma história cheia de conceitos novos, como não usar diálogos para apresentar esses conceitos? Sei que é difícil. Muito difícil, na verdade. Mas não impossível. Veja Her. O escritor não fica explicando as coisas. Ele dramatiza, que é muito mais importante, incluindo os conceitos na história, ao invés de incluir a história nos conceitos.

Outro exemplo é o Divertida Mente, logo acima. Na verdade, é um exemplo ainda melhor do que Her.

Terceiro, de todos os exemplos que eu dei acima, do porquê a história deveria estar concorrendo, nenhum foi abordado da forma como deveria. Todos os questionamentos foram apenas levantados, não tratados; o que deu ao filme um ar de superficialidade.

Spotlight – Josh Singer, Thomas McCarthy

Spotlight

A história.

Spotlight é uma história verdadeira, de um jornal local que revelou como a Igreja Católica acobertou vários casos de abusos sexuais de padres a crianças, dentro de suas próprias paróquias.

Tudo começa quando o Boston Globe (“Spotlight” é uma divisão investigativa dentro do jornal), recebe seu novo editor-chefe, Martin Baron. Sua primeira atitude é pedir a todos que deixem em espera suas atuais histórias para dar atenção a uma colunista do Globe, Eileen McNamara, que escreveu uma matéria sobre as alegações de um suposto abuso sexual contra um menor, que parece estar sendo encoberto pelo Cardeal Bernard Law.

Todos os jornalistas ficam hesitantes no começo. Afinal, Boston é uma cidade de maioria católica, e todos os seus moradores compreendem a importância da Igreja dentro do contexto local. Além disso, Marty é um forasteiro vindo da Flórida e um judeu; portanto, não entende o que é realmente importante e o que não é para as pessoas de Boston.

A partir dessa investigação, eles descobrem que o problema não está focado em um padre e uma vítima. Na verdade, o problema vai se mostrando cada vez mais sistêmico, com não apenas o Cardeal envolvido nos acobertamentos, como muitos outros padres, inclusive o Vaticano.

Por que está concorrendo?

A própria história já é um grande indício de que é um poderoso concorrente ao Oscar. O abuso sexual de padres é um assunto recorrente na Igreja, como você pode ver nas notícias abaixo:

Em dois anos, Vaticano afasta 400 padres por abuso sexual.
Justiça da Espanha acusa 10 padres de abuso sexual.
Padre detido no México acusado de abuso.
Papa Francisco se reúne com vítimas de abusos.
E a lista segue…
Além disso, a história é bem feita, com personagens bem caracterizados. Mas algo é ainda mais importante do que isso: quem são seus personagens principais.

Ora, não seriam os jornalistas? Talvez o chefe da divisão Spotlight? Marty Baron, o novo editor-chefe?

Nem um, nem outro. O personagem principal é a própria Spotlight, um ente abstrato, que toma decisões e sofre consequências. Seu adversário é a própria instituição católica, seja a Arquidiocese, seja o próprio Vaticano (embora eu ache ser o primeiro).

Você está brincando…

Se você já viu o filme, pode perceber que os personagens não tomam decisões por si próprios, mas sempre na “pessoa” do jornal. Por isso que não há conflitos entre os personagens (nenhum jornalista briga com o outro; não há questões familiares, histórias de amor, etc.).

Por que deve/não deve ganhar?

Deve ganhar.

Porque, neste século, nunca houve uma história como essa, levantando uma questão tão polêmica, de uma forma simples e direta, com bons personagens, bom diálogos, num ritmo tão envolvente.

Nota do Autor: meu cerébro diz que “Spotlight” ganhará, mas meu coração grita por “Ex-Machina”. Ambos são altamente prováveis.


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Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.

  • Patricia

    Nicholas, fiquei curiosa:
    Por que vc acha que Bridges of spies não tem os elementos bem desenvolvidos e somos levados pela história?

    • Pati, antes de mais nada, vale lembrar que é só a minha opinião. Não sou nenhum expert hahaha
      Respondendo à sua pergunta te dou um exemplo: quando Donovan (Tom Hanks) vai à casa do juiz, eles conversam sobre o caso e Donovan dá uma lição no juiz, falando sobre o direito a um julgamento justo, etc. Logo depois, ocorre o julgamento (da apelação, se não me engano). O juiz muda de opinião sem mostrar uma mudança verdadeira em suas crenças (na minha opinião).
      Outro exemplo é a mudança (brusca, na minha opinião) entre a temática de julgamento para temática de guerra (troca dos prisioneiros). Foi isso que me fez desistir de ver o filme (algo raríssimo, ainda mais sendo uma obra tão cotada).
      No geral, não acho que seja uma obra ruim; só acho que não dá para comparar com as outras.