Entenda o Alzheimer

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Dois anos atrás, eu comecei a trabalhar, com meu pai, em uma empresa de Cuidadores de Idosos, que presta serviços a idosos cuja saúde varia entre apenas a idade avançada, passando por doenças motoras, dificuldades de locomoção, pós-cirúrgico, chegando a doenças mais complexas. A mais comum, e possivelmente uma das mais tristes, é a Doença de Alzheimer.

Ainda me lembro do dia em que um idoso (por volta dos 80) chegou na empresa, pedindo uma cuidadora para sua esposa. Geralmente as pessoas ligam ou enviam e-mail. Ele foi pessoalmente à empresa, amparado por sua bengala.

Conversamos bastante, ele, meu pai e eu. Em determinado momento, o senhor disse algo que parecia retirado do filme “O Diário de uma Paixão”:

“Uns dois anos atrás, ela acordou e perguntou quem eu era. 56 anos de casados, e ela não sabia mais quem eu era, nem quem eu havia sido. No dia seguinte, ela se lembrou, e parecia que tudo ia ficar bem. Meses depois, ela nunca mais se lembrou de mim. Hoje, têm dias que ela não sabe quem ela é.”

Não sou de chorar. Mas creio que outra pessoa certamente choraria.

Estima-se que, no Brasil, mais de 1 milhão de pessoas apresentem a doença; 35 milhões no mundo todo. Muitas vezes, nos encontramos com uma pessoa com a doença. em outras vezes, essa pessoa é de nossa própria família. Por isso, é essencial que se saiba sobre a doença, seus sintomas e complicações, e como lidar com uma pessoa com a doença.

Still Alice
Alice e o marido, em Para Sempre Alice.

Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, progressiva e irreversível, que lentamente destrói as células cerebrais, causando alterações no Sistema Nervoso, que incluem distúrbios na memória, na capacidade de aprendizado, no pensamento, na orientação, na compreensão, na linguagem, nas emoções, no comportamento e na habilidade visuoespacial.

Em 1907, Dr. Alois Alzheimer, médico alemão, tratou de uma paciente de 51 anos que apresentava declínio da memória, acompanhado de vários déficits cognitivos e distúrbios de comportamento. O médico, na autópsia do cérebro, detectou placas anormais (agora chamadas placas de beta-amiloide) e emaranhados de fibras (agora chamados de emaranhados neurofibrilares) que eram (e ainda são) as duas principais causas da doença.

Embora a Ciência ainda desconheça como o processo de degeneração se inicia, conhece as causas que levam à deterioração dos sintomas, falados acima.

O processo cerebral é complexo e envolve sofisticadas reações químicas e circuitos interligados de neurônios e células. Quando as células cerebrais estão saudáveis, elas se comunicam através de inúmeras ligações; e a cada memória nova ou aprendizado, uma nova ligação é feita. O Alzheimer compromete justamente essas ligações, tanto as antigas como as novas, que estão para ser formadas.

Isso se deve por dois motivos: i) acumulação de uma proteína, chamada beta-amiloide, entre as células cerebrais; ii) deformação de outro tipo de proteína, a proteína tau, dentro das células cerebrais.

A proteína beta-amiloide é encontrada normalmente no cérebro, de forma solúvel, fora das células cerebrais, embora sua utilidade prática seja pouco conhecida. Quando se inicia o processo degenerativo, essa proteína se agrega com outras, formando um agregado de placas, dessa vez insolúveis. A formação dessas placas, chamadas de placas senis, desencadeia um processo bioquímico que prejudica a comunicação entre os neurônios (chamada de sinapse).

Mas a proteína beta-amiloide pode se acumular sem, necessariamente, causar o Alzheimer. O verdadeiro vilão está em outra proteína. A proteína tau tem utilidades práticas conhecidas, sendo responsável pela formação e manutenção dos microtúbulos, que transportam nutrientes e impulsos elétricos pelos neurônios. Quando ocorre uma alteração química, a proteína desestabiliza os microtúbulos, levando ao colapso desse sistema de transporte (emaranhados neurofibrilares) e à consequente morte de neurônios.

Comparação neurônios
Comparação de neurônio saudável e neurônio afetado pelo Alzheimer Fonte: National Institute on Aging (NIA)

No fim das contas, o cérebro se degenera como um todo, pois vai morrendo pouquinho a pouquinho, até que não reste mais coisa alguma. O esquecimento é apenas um dos sintomas (geralmente o primeiro, mas não único) de uma doença degenerativa que, por definição, altera o funcionamento das células responsáveis pelo complexo funcionamento de nosso cérebro.

O Alzheimer é uma doença muito complicada, pois não envolve apenas o paciente, mas toda sua família. Com a progressão da doença, as mais simples tarefas se tornam muito difíceis, o paciente torna-se progressivamente incapaz de desempenhar atividades da vida diária como trabalho, lazer, vida social e de cuidar de si mesmo. Para lidar com um paciente, que apresenta tais sintomas, é necessária muita paciência e compreensão, incentivando-o sempre a manter sua independência.


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Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.