Ser homem não é o mesmo que ser hétero

Tempo médio de leitura: 3 minutos

No dia 21 de julho de 2016, uma página do Facebook, chamada “Parada Hétero Brasil”, publicou uma foto que gerou uma polêmica com respostas um pouco inusitadas / brilhantes de vários homossexuais. Veja aqui.

Nossas associações de masculinidade, impregnadas naquilo que Carl Jung denominou de inconsciente coletivo, tornaram-se tão óbvias à maioria das pessoas, que é quase impensável questioná-las. As pessoas não percebem que os preceitos que as guiam são semelhantes (senão iguais) aos que guiavam a sociedade medieval, séculos e séculos atrás.

Isso se explica com facilidade, embora esteja também tão impregnado em nós, que não pensamos muito a respeito. Infelizmente. A explicação é que vivemos numa sociedade patriarcal, que é centrada no homem desde, basicamente, os primórdios da civilização.

Por ser centrada no homem (em sua conotação menos ampla, que diz respeito apenas ao sexo masculino), estes são doutrinados a construir identidades pré-programadas (portanto, pré-julgadas e pré-aceitas pela sociedade) que têm como base o medo e a negação ao feminino, por um lado; por outro, comportamentos que, por si só, são fortes indicadores de sua masculinidade (e, por isso, mantém seu status alpha, ou o levam até ele):

  • sexo (quanto mais mulheres, seja por quantidade ou “qualidade”, melhor);
  • falar alto (os argumentos que recebem mais atenção são os mais fortes);
  • arrotar (por que se importariam com etiqueta? Isso é tão feminino);
  • virar o rosto quando uma mulher passa (afinal, somos homens; homens não precisam se preocupar em esconder seus desejos e instintos);
  • agir de modo agressivo (porque homens têm testosterona), abusivo (porque homens têm que ser respeitados, não respeitar), impulsivo, muitas vezes dominador.

Como disse antes, somos doutrinados, desde a infância, a construirmos uma fachada que evoque características que indiquem masculinidade: força, respeito, admiração, equilíbrio, etc.

O problema da fachada é que ela muitas vezes cai. E quando cai, o que resta?

Os homens sempre se consideraram o sexo forte, mas se pararmos para pensar a respeito, o sexo “forte” tem um ego frágil como casca de ovo (você pode chegar à conclusão que dentro da casca de ovo há um pintinho, mas isso fica a seu critério).

A questão é essa: porque os ditos homens, que escondem o seu verdadeiro “eu” por trás de uma fachada, devido a doutrinamentos pré-formados da sociedade, seriam mais Homens que os homossexuais, que quebraram essa fachada (ou que possam vir a quebrá-la) e acabaram por deixar transparecer o que realmente são, ignorando os preceitos da sociedade (e geralmente sofrendo por causa deles)?

A resposta nunca vai ser: homossexuais são melhores do que héteros; tampouco héteros são melhores que homossexuais. A resposta é (ou uma delas, pelo menos): ser homem não indica sexualidade; você não precisa ser hétero para ser homem.

Por: Laerte
Por: Laerte

Para ser homem, você precisa, antes de tudo, ser um ser humano decente, que está intimamente ligado à ética, ao bom senso, ao respeito, e por aí vai. E os homens héteros estão falhando muito em suas atitudes (mas não só eles, lógico). Engraçado perceber que falham justamente por quererem mostrar que são “homens”, por meio de atitudes doutrinadas por pré-programações da sociedade, que os levam a ser menos homens.


Gostou do texto?

Você pode receber as atualizações do Além do Roteiro inserindo o seu email abaixo e clicando em “Seguir”.

Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.