A Chegada vs Um Limite Entre Nós — A importância do arco do personagem

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O que é personagem? Não vou responder essa pergunta. Você sabe a resposta. Não importa se estamos assistindo “O Poderoso Chefão”, “Alien” ou “Loucademia de Polícia”, sempre sabemos distinguir os personagens. A pergunta que importa é: o que é um bom personagem?

Porque algumas personagens nos engajam, encantam, enquanto outras passam despercebidas, mergulhando no esquecimento? A chave reside no arco do personagem.

O VERDADEIRO PERSONAGEM é revelado nas escolhas que o ser humano faz sob pressão — quanto maior a pressão, maior a revelação e mais verdadeira a escolha para a natureza real do personagem — Story, Robert McKee

A primeira necessidade é entendermos que parâmetro demonstra se personagens funcionaram ou não. A frase de McKee revela que não existe bom personagem sem conflito. Porque bons personagens revelam sua natureza através de escolhas, e escolhas são respostas a conflitos.

No texto sobre A Qualquer Custo, definimos a importância da história:

Histórias são pequenas visões de mundo. Elas nos ajudam a tornar a vida inteligível; através de histórias, absorvemos perspectivas além das nossas.

Quando não temos acesso a escolhas de personagens, não temos acesso à sua natureza. Conhecemos apenas sua caracterização: cor de cabelo, profissão, hobby, etc. A caracterização pode ser humana, pode ser de outra espécie ou extra-terrestre, mas, sem acesso à natureza, não somos capazes de valorar aquele personagem em comparação com a nossa condição humana.

Assim como histórias tornam a vida inteligível, personagens tornam a condição humana inteligível.

Vamos esmiuçar os protagonistas de duas histórias nessa busca: Louise (Amy Adams) em “A Chegada” (Arrival), e Troy (Denzel Washington) em “Um Limite Entre Nós” (Fences). Se você não viu um dos filmes e não quer spoilers, essa é a hora de parar.

Apresentação

A Chegada

O longa começa já fora do senso-comum, ainda que não saibamos o porquê de cara. A primeira informação que temos de Louise: ela é mãe. Não sabemos ainda que, na verdade, ela não é mãe, mas será.

Em seguida, aprendemos que ela é uma professora universitária, especialista em linguagem.

Por ser um filme não-linear, “A Chegada” navega como um quebra-cabeça, cujas peças nos são dadas em ordem aparentemente aleatória; é nosso desafio montá-lo. Isso não muda o fato de que, uma vez montado, somos capazes de entender a jornada da protagonista.

Nosso interesse também é mantido pois a jornada inicia com um incidente incitante evidente: a chegada propriamente dita de objetos alienígenas em vários pontos da Terra. A expertise de Louise é requisitada na tentativa de comunicação com os seres extra-terrestres, sugando a protagonista para o enredo.

Nave A Chegada

O canal do Youtube “Lessons from the Screenplay” (LFTS) dissecou a adaptação do filme “A Chegada” a partir da história original, “Story of You” (História de Você, em tradução literal).

O autor alerta para três regras básicas na composição de roteiros, sendo a primeira justamente o engajamento do público na jornada de descoberta do protagonista.

Um Limite Entre Nós

Mudando o foco, Troy é apresentado em seu emprego recolhendo sacos de lixo na rua, destinados à caçamba do caminhão. Ele deseja dirigir o caminhão, função que é exercida apenas por pessoas brancas. Entendemos de cara que Troy é alguém que trabalha duro, almeja crescimento e que não se paraliza sob o racismo que impede esse crescimento.

Também aprendemos que Bono (Stephen Henderson), o melhor amigo do protagonista, desconfia que ele está se envolvendo com uma mulher fora do casamento. Troy nega.

A partir daí, temos sequências de diálogos e diálogos dentro da casa, principal cenário do filme, onde conhecemos cada novo personagem e as relações que circundam o papel de Denzel. A pergunta que faço é: qual é a jornada a ser percorrida pelo protagonista?

Mesmo em “A Chegada”, não sabemos de início qual é a jornada pela qual Louise passará. É ambicioso demais responder essa pergunta no início de qualquer história. Ainda assim, é perceptível que nos sentimos mais prontos para respondê-la falando do primeiro filme, em comparação com o segundo.

A grande diferença está no incidente incitante. Sabemos exatamente porque e como a jornada começa. Seja lá qual for o destino de Louise, já entendemos sua origem.

Qual é o incidente incitante de “Um Limite Entre Nós”?

Onde começa a jornada de Troy?

CONFLITO

Não estou falando em Ato Um, Dois ou Três, porque independente da quantidade de grandes blocos que estruturem uma história, ela necessitará de eventos de apresentação e eventos de conflito. Não deixa de ser intuitivo, no entanto, que as divisões de Atos e dos conceitos caminhem em paralelo.

Uma vez apresentada a história, navegamos pela fase onde obstáculos surgem um após o outro, em direção à resolução.

A Chegada

Louise tem um objetivo claro: se comunicar com os alienígenas.

Por que eles estão aqui? Quais os seus objetivos? São perigosos?

Cada pergunta move a protagonista a um novo conflito, que a apresenta uma nova escolha, que leva a um novo conflito. Como aponta Michael no vídeo do canal LFTS, Louise se baseia em paciência, confiança e comunicação.

A cada cena, ela enfrenta obstáculos diferentes que a apresentam pressa, desconfiança ou medo e silêncio.

Só podemos saber, no entanto, que Louise tem essas três características como pilares porque surgiram os conflitos necessários para que essa natureza se revelasse. Relembrando a definição de McKee, “O VERDADEIRO PERSONAGEM é revelado nas escolhas”.

Ela poderia ceder quando o Coronel Weber (Forest Whitaker) apresenta a situação crítica do tempo. Porém, sem o tempo necessário, ela jamais conseguiria realizar seu trabalho de linguagem, não alcançando seu objetivo de comunicação. A cada vez que o tempo é tomado como um problema, ela defende sua posição usando seu conhecimento.

Quando a desconfiança e o medo se apresentam no ambiente, Louise não só briga pela confiança dos colegas nela, de que a resposta será alcançada. Ela própria dá um salto de fé, confiando que o contato direto com os alienígenas não será danoso.

Na cena em que tira a roupa de proteção e vai até os ainda não nomeados Abott e Costello, Louise se vulnerabiliza para ganhar a confiança dos seres extraterrestres. Ao conseguir o primeiro pedaço de comunicação, ela ganha, em consequência, a confiança da equipe de trabalho de que o seu caminho é o correto.

A Chegada - Louise

Tempo e desconfiança, no entanto, não são desafios pontuais. Ambos os conflitos retornam com cada vez mais força, na forma de soldados amedrontados que decidem sabotar a missão e explodir a nave extraterrestre, ou de governos indispostos a buscar soluções pacíficas, preparando caças e porta-aviões para a guerra.

O que uma professora de Línguas pode ter como respostas para impedir mais do que uma Terceira Guerra Mundial, uma guerra com seres de outro planeta?

É visível que a segunda regra básica mencionada no vídeo do LFTS é obedecida: conflitos e tensão imediatos. Cada obstáculo aumenta não só as chances de fracasso da missão, como os riscos associados ao fracasso, até uma guerra de proporções globais.

Um Limite Entre Nós

No texto Fences — Troy Maxson e os homens que insistem em não se arrepender, trabalhamos cada relação do protagonista​ com as pessoas no seu entorno.

Rose (esposa, Viola Davis), Cory (filho mais novo, Jovan Adepo), Bono (melhor amigo), Lyons (filho mais velho, Russell Hornsby), Gabe (irmão, Mykelti Williamson), todos apresentam conflitos de diferentes formas. O irmão lembra Troy das responsabilidades de um homem com sua família. Troy se sente provedor, e Gabe, que precisa de seus cuidados, é também o lembrete de que a melhoria financeira não veio do seu esforço.

Elenco Fences
O elenco principal de Fences

Os filhos lembram Troy dos sonhos enterrados de seu passado, das paixões que ficaram na memória, dando lugar às responsabilidades. A cada tentativa de um dos garotos de seguir um caminho próprio, é o protagonista quem se torna um obstáculo.

Nesse ponto podemos diferenciar Louise de Troy em suas narrativas. As escolhas de Louise, como os contatos com os alienígenas, resolvem conflitos e movem a história para frente, rumo a novos conflitos.

No caso do personagem de Denzel, a falta de uma linha central na trama dificulta que a história se mova a partir da resolução de um conflito. No entanto, mais forte do que a falta dessa linha, é o fato de que é Troy o gerador de conflitos.

Duas escolhas deixam o fato evidente. Quando Lyons mostra mais maturidade financeira e oferece ao pai de assisti-lo tocando, este nega.

Quando Cory insiste na rota de colisão para ganhar a independência de sua vida, Troy insiste em ser um muro intransponível. A única solução para Cory é sair de casa.

As duas escolhas obedecem a revelação de personagem prevista por McKee. Revelam um ressentimento profundo na natureza de Troy, capaz de projetar esse ressentimento nos próprios filhos.

Escolhas e mudanças

Levando o princípio ainda mais longe: a ótima escrita não apenas revela o verdadeiro personagem, como cria um arco de mudança na natureza interna, para melhor ou para pior, ao longo da narração. — Story, Robert McKee

Existe grande valor em revelar a natureza de um personagem. Como já dissemos, personagens críveis tornam a condição humana inteligível. Compreendê-los nos ajuda a navegar pela vida.

Mas se a natureza de um personagem é a mesma do início ao fim, qual é o propósito de uma história? Por que dar zoom, ou mesmo destacar uma ou mais vidas, por duas horas (ou dez anos em algumas séries)?

Existem histórias cujo propósito pode ser exatamente esse: explorar a fixação, a letargia, que também pode fazer parte da vida.

Mas essa estática não é a base. É a mudança que mais nos faz refletir, considerar efeitos. E se a transformação que vemos em tela ocorresse na nossa vida?

A Chegada

Vimos escolhas de Louise que revelaram sua natureza. Mas grande parte delas é relacionada ao ambiente externo.

Ao longo de todo o filme, uma jornada interna está ocorrendo com a protagonista. A cada aparente memória, que de início entendemos como flashbacks, a personagem​ tem acesso à realidade de ter Hannah, sua filha.

Ela tem acesso à viver o amor de Ian (Jeremy Renner), o nascimento de Hannah, a descoberta de sua doença, o luto. Em especial, ela sente o que é amar a filha.

Quando compreendemos que cada uma das cenas não é o passado, mas o futuro, a transformação interna de Louise não só é revelada, como é poderosíssima.

A partir da hipótese de Sapir-Whorf, que sustenta a tese do roteiro, o contato com a forma de linguagem de Abott e Costello muda como seu cérebro funciona. Muda sua experiência da realidade.

Essa transformação não pode se manter apenas subjetiva, senão seria difícil percebê-la. Lembrando os valores de Louise: paciência, confiança, comunicação.

Como ela resolve o conflito final, descobrindo a fala necessária para mudar a mente do governante chinês?

Roubando um aparelho de comunicação, se isolando do grupo para conseguir fazer a ligação escondida, em estado de total tensão. A transformação exige que ela deixe seus próprios valores de lado, como uma larva começando a se desfazer de seu casulo.

O final da transformação está na última escolha de Louise. Sabendo todo o futuro que tem com a filha, ela tem a possibilidade de alterar esse futuro. Da mesma forma que os alienígenas procuraram a Terra para alterar o futuro que mostrava o fim de sua espécie.

Seria perfeitamente compreensível escolher não viver o luto. Não viver a separação. Não viver a angústia de acompanhar a doença da filha.

Contudo, quando se pergunta se deseja viver Hannah, a escolha de Louise é: Sim.

A terceira regra básica trazida no vídeo do LFTS sobre o filme é: impacto emocional através da escolha.

Scott Myers, roteirista e autor do excelente Go Into the Story, diz que talvez nunca a palavra “Sim” tenha tido tanto peso na história do cinema.

Impacto suficiente para você?

Um Limite Entre Nós

Você percebeu que duas relações ficaram de fora da seção anterior, ao falar de Troy. Bono e Rose.

O amigo desconfia desde o início sobre a traição, que se confirma. Bono é um admirador de Troy. O protagonista é seu exemplo, sua referência.

É o negro que conseguiu se tornar motorista do caminhão dizendo aos chefes justamente que só brancos dirigiam. Tem uma bela casa, linda relação com a esposa, filhos seguindo seus caminhos apesar dos desafios. Como não tê-lo como referência?
A confirmação da traição quebra essa admiração.

Todavia, o real conflito da história está em sua relação com Rose.

Monólogo de Rose - Fences
O momento em que o Oscar recebe Viola Davis

Troy faz uma escolha aqui. Contar ele mesmo que existe outra mulher.

Mas ele somente o faz quando Alberta está grávida. Ele será pai da criança de outra mulher. Existe algo de inevitável, que torna sua escolha não exatamente uma escolha, mas uma obrigação. O que isso diz sobre a natureza do protagonista?
Apesar do conflito que se segue, em que toda a posição de coadjuvante esperada de uma companheira é evidenciada por Rose, em que toda sua dedicação e devoção se notam, não há mudança.

Troy não muda.

Um homem deve fazer o que é certo para ele. Eu não me arrependo por nada que fiz. Pareceu certo em meu coração. – Troy, para a bebê Raynell (Saniyya Sidney).

Se não há mudança, não há arco de personagem. Ele ficou parado. Ou andou em círculos. Termina no mesmo lugar em que começou.

A história de August Wilson, a peça que deu origem ao filme, fala das cercas subjetivas da masculinidade, das cercas subjetivas que essa posição impõe a todas as outras posições. Fala das cercas do racismo, das familiares, até das objetivas. Ela tem o mérito de trazer à tela o mundano. Nem tudo é extraordinário como em um 007. O ordinário, a vida comum, merecem atenção, representação.

Mas será que não há algo de extraordinário no ordinário? Talvez, mesmo o mundano seja capaz de impressionar, encantar, nos fazer viajar.

“Um Limite Entre Nós” ficará marcado na história como o filme que permitiu ao Oscar completar seu currículo, com o nome de Viola Davis. Não pela história.

Porque não há um arco perceptível.

“A Chegada” já é lembrado, analisado, esmiuçado. Será um clássico da ficção científica, talvez comparável em impacto cultural na última década à “A Origem”.

A história é belíssima, e é totalmente baseada em Louise. Sem seus conflitos, suas escolhas, não haveria história. Sem o “Sim” para Hannah, não haveria um clímax tão significativo.

Essa é a importância do arco da personagem.


Você também pode ler outras análises de filmes e séries aqui.

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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.

  • Luciano

    Ola Equipe, legal o post, legal o site. Mas não posso discordar mais! No texto menciona, “qual o propósito de uma história”, se o personagem não sofrer mudanças (o arco referido)? Sim, existe e muitas. e não somente estórias de ´ser´ e fixação e letargia como mencionado também. Existem 3 arcos de personagens: positivo, negativo e flat. Positivo e Negativo é fácil entender e são os mais usados pela narrativa ocidental. Incluindo o supracitado Robert Mackee e seus conflitos. Mas o arco flat também existe e deve ser utilizado. pra não estender muito o arco flat, como se imagina, não provoca transformações no personagem. pode se imaginar um personagem que já atingiu a sua ‘verdade’ pra citar John Truby. Portanto ele não precisa de uma jornada pra achar o que? uma outra verdade?! Não. A sua luta, ou seja, aquele determiando enredo, é para transformar o seu entorno. Os personagem orbitam, pe quem devem passar por transofrmaçao. Em suma, ele se mantem inalterado e luta com tudo e todos para mudar o mundo ao seu redor. Pq ele enxerga a ‘verdade’ e os outros não. Você pode aplicar esse arco em distopias, onde um personagem sai de um dominio maior que os individuos que o habitam… 1984 e derivados. outro exemplo pode se aplicar nessas estorias de super-heroi, onde Thor (no segundo filme) não precisa mudar (como no primeiro), ele não precisa mais de um arco positivo. Ele luta agora por uma justiça no mundo. É claro q ele pode cair com um arco negativo… mas isso fica pra outra conversa. outro Dogma que é hiper-valorizado é a presença de conflito. Estamos tão entorpecidos com esse jargão que pensamos não haver outro meio de narrativa que não imbuir conflitos. Coisas do tipo “conflito é drama, sem ele não há estória”. SIM EXISTE. vc não vai ver nenhum autor ocidental (R.Mckee, John Truby) falando disso, por que é justamente da nossa cultura infligir algum tipo de conflito. mas existe! existe uma modalidade oriental chamada
    Kishōtenketsu e tem seus atos muito bem definidos. Mas isso fica, tb para uma outra conversa. Cheers pessoal!!

    • Olá Luciano, obrigado pelo comentário! Obrigado também pela paixão aparente, sempre bom dialogar com pessoas apaixonadas por histórias. São excelentes oportunidades para aprendermos daqui também 😀

      Minha sensação é de que você pode discordar mais sim, hahaha. Veja, sua discordância circulou na hipótese de que o propósito de uma história está nas mudanças sofridas pelo personagem, o tal arco. Em nenhum momento você evoluiu essa discordância para os dois filmes analisados no texto. Fico curioso pela sua visão sobre Um Limite Entre Nós, principalmente. A não-mudança de Troy é justificada para você?

      Dito isto, gostaria de pontuar que a pergunta sobre o propósito feita, além de mostrar logo depois a exceção como você bem citou, fala que a mudança é a “base”. Não explicitei que isso é a base na cultura ocidental, ok, mas não deixa de ser o caso, ao menos nos filmes que alcançam o grande público. A ideia do texto não é bater o martelo das regras, mas estudar o que funciona ou não. E nunca será possível cobrir todos os pontos em uma única análise.

      Concordo com você que existem os casos de histórias em que o protagonista não passa por uma mudança. Vejo essas histórias funcionarem muito bem quando são tragédias. A Rede Social é um belo exemplo de filme recente com essa característica. Zuckerberg não muda, ainda que até perceba as razões da perda da amizade de Eduardo. E justamente aí está a tragédia para a nossa reflexão. Um Limite Entre Nós poderia muito bem ser desenvolvido como uma tragédia de Troy, mas não é o que acontece. O que ocorre é a absolvição do personagem, a partir do perdão de coadjuvantes. Uma narrativa menos interessante a meu ver.

      No exemplo de Thor 2 que você deu, de fato o protagonista não tem um arco. Agora, não é um belo exemplo de um filme que não funciona? Não digo que dar um arco de mudança para Thor seria a única solução possível para o filme, que tem vários problemas. Mas seria sim uma possibilidade de solução.

      Sobre a presença de conflitos, concordo que isso pode ser tido como dogma. Eu só teria cuidado de assumir isso como apenas de cultura ocidental. Confesso que não conheço Kishōtenketsu, fico curioso por saber mais, se você puder passar alguma fonte. Ainda ficando no Japão, no entanto, o animes Shonen são grandes exemplos de histórias orientais que não existem sem os conflitos no seu DNA. No mundo ocidental histórias não baseadas em conflitos também existem através das chamadas Antitramas pelo próprio Mckee. Normalmente são histórias que também alcançam menos o grande público, criadas como contra-movimentos ou metalinguísticas da arte. Ou seja, nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

      Enfim, obrigado pela possibilidade dessa conversa, podemos segui-la com o maior prazer.

      Bons ventos!

      • Luciano

        Ola e obrigado pelo retorno. confesso que não assisti (sim, me crucifiquem!) “Um limite entre nós”. Sempre surge algo que eu coloco na frente. Talvez eu veja hoje e me sinta mais confortavel em discorrer sobre ele. Minha discordância se mantém porém, ao ve-lo, irei prestar a devida atenção ao personagem em questão. Você se referiu à uma adaptação de uma biografia como exemplo de ausência de mudança, isso é perigoso para uma nalise. Afinal, eu precisava me interar sobre a própria adaptação ao livro biográfico The Accidental Billionaires – de Ben Mezrich para saber quais elementos sofreram mudanças dialogicas e quais foram base para uma intertextualidade de fato. Ontem assisti a “Cidade Perdida Z” também adaptação e claramente consigo pontuar as passagens que sofreram mudanças semânticas e puras invenções fictícias para criar um tema que acompanhasse o personagem. E criar uma mítica sobre o desaparecimento e não-retorno do mesmo (que é factual e não poderia ser diferente na adaptação). Em suma, lidar com biografias é mais dificil pois não temos a totalidade da vida de alguém, que possa nos render um filme ou livro digno de ser lido (tal como um ensinamento ou qq que seja a sua tragédia)! Essa janela que limita a biografia impossibilita uma visão plena, numa narrativa épica. Acabei por assistir uma outra biografia do autor David F. Wallace e confesso, me decepcionou (o filme, não a vida do autor). Porque a janela narrativa era limitadissima. e não teria como ser diferente. No caso do filme “Um limite entre nós” se ocorre a absolvição dos coadjuvante em relação ao protagonista, então temos um problema: ele deveria sim, demonstrar uma mudança para o positivo, ou negativo. Uma consciencia, mesmo que negando, de que ele vive uma mentira (e acredita nela) – pra citar mais uma vez Truby e K Weiland em “arcos de personagens”. Caso não tenha essa consciencia aí concordo com o artigo: qual o propósito se não mudar? Concordo que, atribuir um arco para Thor não resolveria o problema do filme. Então, o exercicio de conserta-lo seria extenso e podemos fazer isso um dia. Kishōtenketsu é uma modalidade oriental (japonesa, mas de origem budista chinesa) e consiste em 4 partes: o Ki = equivale a exposição, quando a estória se estabelece; o Sho = a narrativa ganha corpo e se desenvolve. Um evento arraigado a ela, e não uma força externa (equivalente ao nosso Diablo-Ex-Machina); o Ten = é a ampliação de tal evento. Um loop de ações e consequencias intrínsecas que levam para outro Sho-Ten, e outro Sho-Ten… até que se conclui com o Ketsu = equivale ao momento de saturação, um pouco diferente da conclusão ocidental que tenta responder uma pergunta temática, uma verdade-universal. Há um artigo de doutorado muito bom do Glauco Aranha que trata dessas questões “Fazendo estórias –
        cap. 6.1.2”. ha também um artigo excelente em stilleatingoranges.tumblr.com Finalizando, gosto muito da ideia de personagem/trama como uma entidade tão entremeada que não se pode (ou não se deve) trata-lo de modo separado. Em contra-posiçao, uma analise estrutural sempre irá negar essa impossibilidade ideologica. Enfim, me desculpe pelos erros de digitacao; estou escrevendo relativamente rapido e nao me vejo corrigindo o tempo todo. Obrigado pelo papo.

  • Eisenberg

    Storytelling ainda é um pouco novo para mim, mas os posts de vocês (já li quase todos) estão sendo extremamente úteis. Fiquei feliz por ver a menção ao canal “Lessons from the screenplay”, que eu acompanho e que me ajuda bastante na busca por aprender mais sobre este assunto.
    Fica aqui minha gratidão pelo conteúdo feito por vocês e que me agrega muito.

    • Eisenberg, muito obrigado pelo comentário. Nosso caminho é exatamente esse, de buscar textos, aulas e livros que nos ajudem a entender mais sobre Storytelling, e a partir daí gerar textos dos nossos aprendizados, tanto para compartilhar como para “expor” nossas visões e aprender com a recepção. Somos alunos em conjunto.

      Bons ventos!