Westworld 1×05 Review – Contrapasso

Tempo médio de leitura: 9 minutos

ATO 01

Westworld é muito mais do que o despertar da consciência em uma inteligência artificial. É sobre o despertar de nossa própria consciência, sobre questionar nossa própria realidade.

Quem nunca ficou preso em um ciclo imutável? Acordando, tomando banho, indo trabalhar em um metrô lotado (ou preso em um trânsito caótico), trabalhando enquanto olha o relógio para ver quanto tempo falta até sair, voltar da mesma forma que veio, chegar em casa e mergulhar em alguma série e dormir. O dia seguinte é basicamente o mesmo, com espaço para algumas rápidas mudanças, que não alteram sua realidade rotineira.

A questão da série é: e se você se desse conta disso e quisesse fugir dessa realidade? Quisesse mudar sua realidade? E se você quisesse deixar de ser apenas um figurante e se tornar a peça principal?

Será que você quer achar o labirinto? E, se tiver disposto a achar, vai saber o que fazer com essa liberdade?

ATO 02

Abrimos o episódio com Ford. Vejam bem: abrir o episódio com Anthony Hopkins é um forte indício de que o episódio será fantástico.

Convenhamos, o início de Westworld é um forte indício de que o episódio será fantástico.

Ford faz uma parábola sobre um galgo (cujo único objetivo de vida era correr atrás de um coelho de tecido) que, de repente, é libertado e corre atrás de um gato. Como não sabe o que fazer com essa liberdade, acaba matando o gato.

“O cachorro passou sua vida toda tentando pegar aquela… coisa. Quando conseguiu, não sabia o que fazer.”

O que será que isso poderia querer dizer? Hmm…

Vamos para Dolores (com certeza a maior joia da série é a atuação de Evan Rachel Wood) em um cemitério. Alguém (talvez Arnold, talvez Bernard) fala “encontre-me”, e ela responde “mostre-me como”.

William, Logan e ela estão chegando a Pariah, uma cidade bem afastada de Sweetwater. Há algo sombrio e perigoso na cidade, que ainda vive em um período de Guerra Civil. Logo logo descobrimos que é muito pior do que parece.

Há duas informações importantes expostas por Logan: que sua empresa quer comprar Westworld (porque, desde a morte de Arnold, o parque vem queimando dinheiro); e que Arnold não apenas morreu, como se matou.

Por que está queimando dinheiro? Ninguém parecia muito preocupado com isso – muito menos Ford. Será que, unindo com a informação que logo descobriremos, há outro parque que concorre com Westworld?

MIB está com Teddy, à beira da morte. Comenta que uma “velha amiga” dizia uma frase: “há um caminho para cada um.” Se você lembrar bem, no primeiro episódio quem diz isso é Dolores.

Até esse episódio, não sabíamos o porquê de Lawrence ser tão importante. Por esse episódio (e estou avançando aqui), descobrimos que Lawrence é um líder criminoso muito perigoso; e que, como vemos na penúltima cena do episódio, sabe muito mais sobre o labirinto do que poderíamos ter suspeitado. Há uma inscrição do labirinto nos caixotes que ele está carregando nos trens.

Mas, de repente, ele perde sua importância ao MIB, mas só porque Teddy é mais importante. Ele usa o sangue de Lawrence para “reviver” Teddy.

MIB mente a Teddy, dizendo que Wyatt está com Dolores. MIB brinca que “Dolores” é a palavra-chave para Teddy.

Maeve está sendo tratada para “renascer”. Essa breve cena é importante, pois nos apresenta a Felix, que será crucial nesse episódio (e nos episódios futuros, possivelmente), e nos mostra Maeve pela primeira vez.

Em Pariah, William fala sobre o “mundo real”, e Dolores parece confusa com esse conceito. William diz: “pensei que não era para você notar coisas assim”. Se não era, ela está notando.

Dolores se enxerga no meio de um bloco de rua. Como veremos em seguida, ela é levada aos bastidores para ser confrontada por nada menos que o próprio Ford (na cena que vimos no teaser da série, antes de seu início). Mas, como mais tarde ela se enxerga de novo, tenho duas teorias:

  • isso foi usado como um embuste para afastá-la dos convidados;
  • ou ela realmente se viu (como vai se ver de novo mais tarde) e os bastidores aproveitaram isso para desligá-la;

“Tenha um sono profundo e sem sonhos”, é a frase usada para desligar os androides. Ela já foi importante, foi de novo e com certeza será mais à frente.

Qualquer que seja a resposta, vamos para a confrontação entre Ford e Dolores.

Arnold criou Dolores. Ela é o androide mais antigo do parque. Por que Ford a manteve?

Além do mais, quando ela pergunta “somos velhos amigos?”, Ford responde, com uma expressão ambígua, entre tristeza e desprezo, “eu não diria isso, não diria isso de forma alguma.” Isso quer dizer que, pelo contrário, são inimigos? Será que Dolores não pode ser desligada? Isso significa que Maeve também foi feita por Arnold? Será que os únicos androides que poderão chegar ao mesmo nível de ciência de sua situação são os criados por Arnold?

Sim, eu sei. Deixei você mais confuso(a). C’est la vie.

Ford diz que, por trás de todas as atualizações, Arnold ainda está lá.

“Arnold vem falando com você?” Sua resposta é tão dúbia quanto as respostas dadas a Bernard.

Nota importante: Arnold falou com Dolores pela última vez (de acordo com ela) há 34 anos, 42 dias e 7 horas, o dia em que Arnold morreu (de acordo com Ford). Mas o MIB fala que ele morreu há 35 anos. Claro, possivelmente não é uma data exata (pode ser mais dias, menos dias, mais meses, menos meses). De qualquer forma, nos faz imaginar quão importante Arnold era/é, e quão importante Dolores era/é.

“Qual foi a última coisa que Arnold te disse?”
“Que eu iria ajudá-lo a destruir esse parque.”

No fim, Dolores admite o que já antecipávamos: ela estava mentindo. E está sim falando com Arnold.

Resposta #1: a voz em sua cabeça é de Arnold.

Ainda nos bastidores, alguém cujo nome não é dito está tentando reprogramar um pássaro “morto”. Se ele conseguir, isso quer dizer que ele poderia ser capaz de fazer isso com outros anfitriões naquele grande depósito que vimos no primeiro episódio? Se sim, o que isso poderá significar?

No fim dessa cena, ele vê Maeve outra vez e se questiona: por que ela está ali outra vez? Há algo por trás disso. Será que ela queria estar ali? Teremos a resposta no fim do episódio.

Em Pariah, eles encontram El Lazo, o homem que Logan disse ser o passaporte para o jogo mais interessante dentro do parque: a guerra.

Só que El Lazo é Lawrence. Que MIB acabou de matar.

Será que isso é um indício de que há mesmo duas linhas do tempo – e que, talvez, William seja o MiB?

Mas na cena anterior, quando Dolores foi retirada, ela foi retirada no presente. Como isso se encaixaria na teoria de duas linhas do tempo?

Se essa teoria não faz sentido, como Lawrence já estava ali de novo?

Navalha de Occam: “Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor.”

A explicação mais simples é que não há duas linhas do tempo, e que Lawrence foi renascido, o que é perfeitamente aceitável pela diferença de tempo, embora pequena, satisfatória.

Na primeira cena com El Lazo, percebemos como eles estão em uma região muito mais perigosa, visto que os convidados são agredidos de forma quase gratuita; algo que não vimos em Sweetwater.

Dolores toma a dianteira, em uma cena que não faz sentido algum. É como se ela estivesse desistindo de ser a donzela e começando a se transformar na…

Heroína ou vilã?

Na missão dada por El Lazo, vemos William dar uma guinada em outra direção, no caminho do “chapéu preto”. E vemos outra vez como ali é mais violento, pois Logan quase é asfixiado até a morte.

Elsie foi atrás do corpo do anfitrião que quase a matou. Descobre que em seu braço havia um transmissor via satélite, e que alguém estava usando isso para roubar dados de dentro do parque.

Quem? Por quê? Isso reforça a ideia de uma espionagem corporativa, e que há um parque concorrente a Westworld.

Na cena seguinte, em uma orgia dionisíaca, algo que faria inveja aos produtores de Game of Thrones, é o início do fim para Logan e o fim do início para Dolores.

Em toda sua arrogância, Logan diz que William só é Vice-Presidente porque ele quis, e que fez isso porque ele não é uma ameaça a ninguém. Pobre coitado. Logan logo verá que é uma ameaça a ele.

Dolores encontra uma cartomante. Escolhe uma carta. É o labirinto. Então, a cartomante se transforma nela (com sua roupa comum). “Você deve seguir o labirinto.”

Por que ela está tendo visões de si mesma? Será que Arnold (se for ele mesmo) está fazendo isso para forçá-la a ir logo ao bendito labirinto?

Ela se pergunta o que há de errado com ela. Seu reflexo responde: “talvez você esteja se descobrindo”. Ela puxa uma “pelinha” solta e começa a se desfazer, numa analogia clara de desconstrução – que, como tratamos no texto anterior, é possivelmente o objetivo do labirinto.

Ela volta ao normal. Não há ninguém ali. Ela está normal. Foi um sonho ou uma miragem?

Ela sai correndo e acaba descobrindo o plano verdadeiro de El Lazo. Vai até William e conta a verdade, ao mesmo tempo em que os confederados descobrem também, e pegam Logan.

William parece tomar consciência de sua situação – que, naquele parque, ele pode descobrir quem ele verdadeiramente é. Isso mostra o que disse no início do texto – não são apenas os androides que tomam consciência de suas vidas limitadas.

Dolores então diz: “Há uma voz dentro de mim dizendo o que preciso fazer. E essa voz diz que preciso de você.”

Mente bicameral, alguém?

Se for mesmo Arnold, ele sabe que o único jeito de fazer Dolores chegar ao labirinto é com a companhia de um convidado, para que não levante suspeitas (ou mais suspeitas) dos bastidores.

E eles se beijam. Oh, que lindo.

William é pego pelos confederados. Mas, de repente, Dolores parece ser possuída e mata todos com uma eficiência assustadora (digna do MIB). Sua expressão fica assustadora, decidida.

“Eu imaginei uma história onde eu não precisava ser a donzela”, explicou Dolores sobre sua decisão de subverter sua programação e propósito.

Uma das cenas mais aguardadas: Ford e MIB.

Resposta #2: Arnold não é MIB.

No entanto, ele fala que Arnold morreu há 35 anos e quase levou esse parque junto. “Só não o fez graças a mim”.

O que ele quer dizer com isso?

No fim, o cara dos bastidores (Félix) consegue reviver o pássaro. Ao mesmo tempo, Maeve acorda e, dotada de completa consciência, diz que eles precisam conversar.

Uau. U. A. U.

Resta a nós imaginar se ela e Dolores vão se unir; embora estejam geograficamente separadas, parecem ter despertado ao mesmo tempo, e de uma forma igualmente importante.

ATO 03

Muitas coisas interessantes estão acontecendo, com vários elementos interligados. Aprendemos que o anfitrião que quase matou Elsie estava transmitindo informações para alguém de fora do parque. Logan revelando que o parque está “sangrando dinheiro”, e que sua companhia está considerando comprar o parque. Isto nos faz pensar se é a empresa de Logan que está espionando Westworld. Descobrimos que as duas anfitriãs, Dolores e Maeve, alcançaram um patamar de consciência absurdo, e que William deu seu primeiro passo na direção do “chapéu preto”.

A parábola de Ford sobre o galgo e o gato definiu o tema do episódio. Dolores pegou o que ela estava perseguindo há algum tempo. O que ela fará agora? Será que vai saber o que fazer?

E uma última questão, que me surgiu agora: como a morte de Arnold pode ser um fato conhecido por todos, inclusive por um forasteiro como Logan, menos para Bernard? Aliado a isso, por que a voz na cabeça de Dolores se parece tanto com a voz de Bernard?

Será que ele é um androide? Será que ele tem a consciência de Arnold? Por isso ambos têm um pensamento tão semelhante? Dessa forma, ele estaria presente na empresa, e Ford sequer desconfiaria. Afinal, se Bernard não sabia sobre a morte de Arnold (nem sobre sua existência), de que outra forma saberia sobre o labirinto, que é uma criação de Arnold?

Com esse cliffhanger, nos vemos na semana que vem.

Gosta da série? Você pode ler as reviews dos outros episódios de Westworld aqui.

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Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.

  • Muito bom, como sempre.Muito bom.

    Eu estava considerando a possibilidade de a empresa de Logan comprar apenas Pariah, mas sua interpretação faz mais sentido. Principalmente quando consideramos a presença de um concorrente (se a Disney tem concorrentes como o Busch Gardens ou o Six Flags, por que não Westworld)?). Penso que Felix (e cogito, muitos outros nos bastidores) é um anfitrião.

    Ah, e adorei o “toque de Midas” do Ford (ou teria sido o whisky de Midas? Ou as “palavras de Midas? Ou o “estalar de dedos de Midas”) que instantaneamente revigorou o Teddy. Como eu disse em minha resenha, Em Westworld, Ford é deus. (o que exatamente neste momento me lembra do hino de “Admirável Mundo Novo”, de Adous Huxley: “orgia, bugia, Ford e folia”).

    Bom, vamos em frente.Obrigado pelo excelente texto!