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Dilemas e Decisões em Batman — O Cavaleiro das Trevas – Conceitos #5

Tempo médio de leitura: 11 minutos

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Nescau ou Toddy? Biscoito ou bolacha? Qual série assistir na Netflix? Escolhas variam de situações cotidianos a enquetes de Facebook, por vezes intercalando uma ou outra decisão mais importante como qual faculdade fazer ou… bem, qual série assistir na Netflix. Afinal, quem nunca passou uma hora navegando pelo catálogo até desistir e ir dormir?

Nas histórias, nem toda escolha interessa. Pode ter um efeito cômico aprender que um personagem bota o arroz no prato por cima do feijão — sério, não dá, o feijão molha tudo — , mas esse tipo de escolha não revela um personagem. Não o suficiente.

Quando ansiamos por uma conexão com um protagonista, precisamos de situações impactantes para julgarmos se nos identificamos realmente com aquela figura. Precisamos de questões que nos forcem à empatia, nos levem a nos colocar no lugar do personagem. Escolhas tão difíceis que possam ser chamadas de dilemas.

A construção até um dilema

Podem existir situações de vida ou morte que podem gerar um dilema quase espontaneamente. A situação de “Escolha de Sofia”, por exemplo, que força a personagem de Meryl Streep a escolher entre suas duas filhas, tira qualquer pessoa do eixo automaticamente. Não é preciso uma construção até esse evento para mero impacto.

No entanto, qual seria o propósito de um dilema solto? Qual mensagem está por trás da decisão? É apenas pelo choque? Mesmo as situações mais bizarras precisam de uma construção para que um sentido seja definido junto à decisão da personagem.

Essa construção é ainda mais importante quando a decisão é específica. Quando seu impacto seria profundo naquela vida, daquela personagem apenas, naquela história apenas. Precisamos de um caminho construído para conseguirmos calçar seus sapatos enquanto público.

Conceitos como incidente incitante, objetos de desejo e conflitos, abordados nos outros textos da série, são algumas ferramentas que nos levam a esse caminho. Nutrir esses elementos na biografia dos personagens e ao longo da história pavimenta a estrada para uma decisão poderosa.

O que é um dilema?

Imagine escolher entre a vida e a morte. Simples assim, sem pegadinhas. Fácil, não?

Muitos momentos de tensão são criados em histórias com situações de vida ou morte, o que não é um problema. Por, essas situações nunca são dilemas, porque a escolha é óbvia. A dúvida é apenas “como”. Como o herói ou a heroína vencerá tal conflito?

Dilemas são escolhas aparentemente impossíveis, como a situação de Sofia. Como aponta McKee em Story, são questões onde as duas ou mais opções representam bens irreconciliáveis ou males inescapáveis.

Quando temos opções positivas, tentamos conciliá-las, ter todos os benefícios ao mesmo tempo. Quando temos situações negativas, tentamos eliminar todas. Nem sempre essa fuga é possível. Um personagem ou uma pessoa na vida real alcança uma encruzilhada. Hora de decidir.

A importância das decisões nas histórias

É nesse momento que a personagem escolhe o maior dos bens ou o menor dos males.

Porém, qual é o maior dos bens ou qual é o menor dos males em uma escolha impossível? Em escolhas impossíveis, cada pessoa encontrará sua própria resposta. Não existe uma resposta socialmente mais aceitável ou totalmente justificada.

Algumas pessoas congelarão, outras decidirão A, B, C, etc.

Por exemplo, você tem um relacionamento apaixonante e um sonho profissional de infância. A oportunidade profissional aparece, mas exige que você se mude de país. Já o seu parceiro não pode se mudar, devido ao sonho profissional dele.

Essa é a situação no fim de La La Land, o dilema vivido por Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). São bens irreconciliáveis. Eles se amam. Querem ficar juntos. Ela sonha ser atriz e tem uma chance de ouro na França. Ele sonha ter o próprio clube de jazz e está em turnê, fazendo caixa para cumprir seu objetivo.

Não existe cenário em que pelo menos um deles não abdicasse de algum sonho. O trabalho de Sebastian na banda atrapalhava o relacionamento, então Mia desistir sequer garantia que eles teriam um namoro duradouro. Se ele largasse a banda, poderia acompanhar Mia, mas teria que recomeçar do zero na música, em um país sem cultura de jazz. Seu sonho de abrir um clube do estilo iria por água abaixo.

Eles acabam escolhendo seus sonhos profissionais e o filme joga em nossa cara o que seria um final alternativo, com o relacionamento deles. Muita gente escolheria diferente no lugar de Sebastian ou no de Mia. Mas qualquer pessoa é capaz de entender por que os dois tomaram suas decisões.

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Sebastian e Mia conversam no momento de dilema e decisão em La la land.

A decisão resultante de um dilema é crucial para revelar a personalidade de um personagem. Podemos nos identificar ou perceber que somos completamente diferentes daquela figura na tela. Isso poderia ocorrer por trejeitos ou piadas, mas a profundidade da identificação seria menor. Um dilema é o ponto da história onde alcança-se o maior de todos os níveis de intimidade entre público e protagonista.

Esse é um dos motivos pelos quais “Batman — O Cavaleiro das Trevas” é tão bom. A atuação de Heath Ledger, a incrível construção de um vilão também no roteiro, os efeitos visuais práticos… são muitos os aspectos que tornam esse filme tão marcante, ocupando o posto imaginário de melhor filme de superherói da história. A capacidade do roteiro de criar dilemas e suas resultantes decisões é mais um dos aspectos surpreendentes do filme, sendo grande responsável pelo nível de dinamismo da história.

Estudo de caso

A história é capaz de apresentar muitos dilemas primeiramente graças ao vilão. O Coringa desse filme é imprevisível, sem um passado, sem amarras. Sua completa liberdade, perfeita para um agente do caos, o torna capaz de afetar todos. Ele atinge o Batman, principalmente, mas atinge Harvey, Gordon, Alfred, Rachel, Fox, o prefeito e muitos outros personagens através da trama.

Sua imprevisibilidade e liberdade fazem, inicialmente, com que Bruce o subestime. Ele deve ter algum motor como o dinheiro. Portanto, Bruce segue atacando a máfia, seu alvo principal desde Batman Begins, que ele enxerga como fonte daquele mal. Ele caça o chinês Lau, que tem conexões com a máfia, o que o Coringa usa como oportunidade para dobrá-los.

As ações de Bruce alimentam o plano do Coringa, por esse não conseguir enxergá-lo em sua natureza. Até que o Coringa revela a extensão de seu poder com os atentados e as ameaças de morte.

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O primeiro dilema

Sabemos que o desejo consciente de Bruce é combater o crime, mas a partir da construção do personagem feita em Batman Begins, conhecemos sua regra número um, seu código moral: não matar. As ameaças do Coringa tornam o Batman um assassino indireto. Cada dia em que ele não se revelasse resultava em mais uma pessoa morta.

Esse é o primeiro dilema concreto no filme. Acatar às ordens do Coringa ou não? É o típico cenário “menor dos males”. Não é possível combater o Coringa sem ser como Batman. Mas, para esse vigilante, não é possível continuar existindo se o preço dessa existência for a morte de inocentes.

O próprio Bruce diz a Alfred que descobriu o que o Batman não pode fazer. Não quebrar essa regra significava não ser capaz de enfrentar o Coringa. Ele decide se render.

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No entanto, na coletiva de imprensa em que o protagonista se revelaria, Harvey Dent tomou a frente. O promotor decidiu se declarar Batman e ser preso, na esperança de que o verdadeiro Batman apareceria sem se curvar ao Coringa. Esse momento é crucial no desenvolvimento do protagonista nesse segundo filme. Graças à Harvey, representando Gotham, Bruce começou a entender qual o papel que a cidade precisava que o Batman desempenhasse, mesmo que a cidade pedisse outro papel publicamente.

O segundo dilema

Na sequência de ação seguinte, em que o Coringa persegue Harvey, o Batman consegue chegar a tempo para salvar o promotor. Porém, um novo dilema se apresenta. O vigilante se encontra pela primeira vez com o vilão, tendo a chance de matá-lo. Mesmo sendo apenas o primeiro encontro, as ações do Coringa até ali foram suficientes para desequilibrar o Batman ao ponto deste considerar se render.

O novo dilema do herói se apresenta entre bens irreconciliáveis. Matar o Coringa e livrar Gotham dessa figura, ou manter intacto seu código moral? Nesse momento, matar o vilão seria altamente compreensível. Já estava claro que o Coringa não seria parado de outra forma. No entanto, a moral do herói acaba sendo mais forte e ele toma uma decisão ainda mais poderosa que a anterior, mesmo que retardada até o último instante.

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Depois desse embate, o Coringa desiste de matar o Batman como prometido à máfia. Ele tem sua própria agenda. Seu interesse maior é competir com o herói. Eles competem pela alma de Gotham, por provar qual é a visão de mundo correta, como esse vídeo do canal Lessons From The Screenplay explora brilhantemente.

O terceiro dilema

O personagem de Heath Ledger passa a agir em duas frentes: Harvey Dent e a cidade de Gotham. Na primeira frente, o Coringa aproveita o conhecimento adquirido sobre o Batman — de que Rachel é preciosa para ele — para forçar um novo dilema sobre o herói. Essa é a cena da sala de interrogatório, a segunda vez em que o vigilante fica impotente (a primeira foi a incapacidade de responder às mortes de civis).

Aqui há um ingrediente especial. Nas situações anteriores, as escolhas do Batman refletiam “sim” e “não”. Se render ou não? Matar o Coringa ou não?

Agora, o dilema forçado não é sobre uma negativa, mas sobre duas pessoas concretas. Quem o Batman salvaria, Rachel ou Harvey? Rachel era a chave para o coração do Batman. Harvey a chave para o coração de Gotham. Perder um dos dois representava um dilema de “menor dos males”. Aos poucos, podemos notar que esse é o caso mais comum.

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O Batman escolhe salvar Rachel. O Coringa previu isso, dando uma informação trocada. Em seu plano para quebrar os dois cavaleiros (Batman, o negro, Harvey, o branco), essa era a configuração necessária. Harvey acaba salvo, Rachel acaba morta.

Com esse resultado, o vilão consegue rebaixar Harvey de um promotor incorruptível ao nível de vigilantes e criminosos. Ele apresenta uma última escolha, de matá-lo ou não, para que Harvey complete sua transformação.

O quarto dilema

Na segunda frente para tentar ganhar a competição pela alma de Gotham, o Coringa força outra situação de dilema, adaptada de um cenário tão famoso que tem até um nome específico na teoria dos jogos — o Dilema dos Prisioneiros.

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As balsas saindo de Gotham

A vilania dessa situação é tão incrível porque ela torna o Batman verdadeiramente impotente. Mesmo convencendo Fox a apoiá-lo no combate, o que força Fox em um dilema moral semelhante aos vividos por Bruce ao longo da história, tudo que o Batman consegue é chegar até o Coringa.

Ele não pode fazer nada sobre as barcas.

Somos forçados, junto ao protagonista, a acompanhar o dilema sem qualquer chance de influenciá-lo, enquanto centenas de pessoas em duas embarcações lidam com uma escolha entre o menor dos males. Morrer ou ser responsável pela morte de centenas de pessoas. A configuração de cada barca aprofunda o “menor dos males” ao colocar não presidiários de um lado e presidiários de outro.

Essa situação também cria uma intimidade rara entre público e protagonista. O mais comum é que os dilemas pertençam ao personagem principal, o que nos força a tentar ficar na mesma posição dele. Em Cavaleiro das Trevas, nessa cena, nós de fato ficamos exatamente na mesma posição de impotência do Batman. O herói é um de nós, parte do público.

O quinto dilema

Mesmo após um momento tão forte, a história ainda reserva um último dilema. Graças ao plano paralelo do Coringa, Harvey caçou os responsáveis — diretos ou indiretos — pela morte de Rachel. Gordon e sua família foram seu último alvo. Até é feita uma referência à escolha de Sofia, quando Harvey pergunta sobre o filho favorito para usá-lo em seu jogo sádico de cara ou coroa. Batman consegue chegar a tempo e salvar a situação.

Mas salvar a família de Gordon não era suficiente. Ver Harvey quebrado seria o golpe mais duro na alma de Gotham. Ele era a imagem da esperança, uma imagem especialmente importante após a situação da barca. O espírito da cidade respirava por um triz.

O protagonista, então, enfrentou um novo dilema. Deixar que Gotham visse a realidade, o que Harvey se tornou graças ao Coringa? Ou carregar uma mentira que o tornaria o vilão, assumindo a culpa pela morte do promotor? Um último dilema de menor dos males, agora retomando o poder de decisão para o herói.

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Batman vira a face “boa” do Harvey morto para cima. A decisão que transforma o herói no Cavaleiro Negro.

Como indicado quando Harvey tomou a frente de Bruce, foi a vez do Batman tomar a frente de Harvey, concretizando seu papel de Cavaleiro das Trevas. Um papel construído no roteiro graças ao trabalho com dilemas e decisões.


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Roteirista, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva.