Desconstruindo o machismo dentro de casa

Tempo médio de leitura: 5 minutos

O feminismo ganhou bastante destaque em 2015, com campanhas virais na Internet, marchas contra projetos de lei de tipos como Eduardo Cunha, e outras medidas de empoderamento das mulheres. Da minha cadeira, curti, compartilhei, argumentei, tentei aumentar minha consciência e a de outros em apoio à causa.

Então levantei, fui à cozinha, e vi a cena:

Louça suja
não está tão suja pois não quero chocar…

Desconstruindo o meu machismo

Foram muitas mudanças desde a saída da casa dos pais, para morar junto com minha, agora, noiva. Um dos primeiros impactos, e permanentes, se encontra no argumento de que o machismo é algo a ser desconstruído dia após dia. A frase é fácil de replicar, entender, mas vivê-la é outro papo. Cada sujeira, bagunça, item a decorar, decisão de compras a fazer, fila a encarar, são lembretes regulares de que, ei, tenho que levantar minha bunda do sofá e cuidar da casa.

É impressionante tomar consciência de que, mesmo me vendo esclarecido, estava programado a chegar em casa e desejar montar meu prato – pois o jantar já estaria pronto -, sentar e jogar videogame. A sensação era involuntária, e forte.

Frango e pasta de atum
Melhor receita do mestre Yann até o momento, iscas de frango + pasta de atum.

Desconstruindo o machismo com ela

A sensação involuntária era rapidamente substituída pelo processo de conscientização, seguido da combinação: o que cada um fará durante a noite, em prol do apartamento; o que ficará para o dia seguinte – afinal, não podíamos perder o episódio diário de Jessica Jones.

Em algumas noites, chegava (e chego) estressado e desejoso de seguir um semi script do “macho”: relaxar no sofá, agarrar um controle e divagar, sem me sentir capaz de nada além de mergulhar em uma fuga das obrigações, tentando recuperar a energia para os dias seguintes. O problema? Até aí, nenhum. Nada disso deve ser proibido; basta que seja igualmente aceitável para mim e para ela.

Como dizem que objetos inanimados ainda não aprenderam a se mover sozinhos, postergo essas necessidades com o orgulho de alguém pronto para gritar que é dono do próprio destino. Então um vulto passa apressado em direção à cozinha.

– Amor, falei que vou varrer a casa, pode deixar.
– Mas quando você vai fazer? A casa está suja.
– Preciso relaxar primeiro, quando terminar essas partidas eu vou.
– Está demorando, pode deixar que eu faço.
– Não, você já cozinhou hoje, é injusto. Por que você não aproveita seu tempo agora? Mesmo que demore, eu que devo fazer minha parte.
– Mas se você não faz, eu me sinto responsável por fazer.

Ouch.

Nesses momentos, saber que a louça está cheia ou que lavar roupa está pendente não me afeta em absoluto. A paz é reinante. Essa paz não tem, todavia, o mesmo valor se não for compartilhada, e começamos a perceber, logo de início, que raramente o é. Foram algumas ocasiões quando aquilo que combinamos que eu faria – e que eu não deixaria mesmo de fazer, mas levaria meu próprio tempo – era iniciado por ela, enquanto o filhote de joão de barro que escreve estava distraído. Lá ia eu, envolto no orgulho ferido de paladino das causas contra machismo, batalhar para que ela não cumprisse minhas tarefas por mim.

Negociações ocorrem sim, e são incontáveis às vezes em que cedemos, ou fazemos um extra pelo bem do outro. O fato aqui está na naturalidade como não encaramos, homens, as obrigações de casa como nossas. Vê-las assim exige certa disciplina, criação de hábito. Para as mulheres, a naturalidade é ter essas obrigações como suas responsabilidades. Se eu não fizer, ela fará. Se ela não fizer, eu “cago e ando”. Como achamos lindo esse meu privilégio de não me sentir obrigado a fazer as atividades imediatamente, é esse privilégio que decidimos tornar regra para ambos.

Roupa para passar
Chega pra lá privilégio, hoje tem roupa pra passar.

A diferença de experiência

Patricia saiu da casa dos pais sete meses antes de meu movimento. Ela não frequentou o curso padrão “Como se Tornar a Mulher que Seu Marido Deseja até a Festa de 15 Anos”, portanto não é uma perita em tudo aquilo que é cobrada como a ordem natural das coisas femininas. Ainda assim, esses sete meses deram a ela mais experiência no choque de se virar sozinha, em comparação comigo.

Se sete meses criam diferença, imagine, caro leitor, o tamanho dessa distância para as mulheres que frequentaram o curso? A frase é intencionalmente direcionada para você, pois a leitora já entendeu essa distância muito antes de eu pensar em escrevê-la aqui.

Muitas tarefas serão tão mais fáceis para elas, que não basta pensar em “vamos dividir as tarefas de acordo com nossas especialidades” para se sentir um casal século XXI. A balança continuará pesando bastante no lado feminino. É necessária uma disciplina do “querer aprender”. A lógica que aplicamos é: de início, todos devem saber tudo. Nós cozinhamos, nós fazemos faxina, nós lavamos e passamos, etc. Talvez, um dia, façamos divisão fixa de tarefas. Nesse dia, a balança terá maiores chances de equilíbrio, pois a formação de especialistas terá sido nivelada.

Desconstruindo o machismo dos outros

Por mais mudanças que eu crie em mim, que ela reproduza, que nós consigamos equilibrar, o mundo continuará esperando as mesmas definições de cada um. Afirmar, reafirmar, re-re-re-reafirmar nossas posições é intrínseco a contarmos sobre “como está a vida nova”, pois só temos essa alternativa ao silêncio.

Mais de uma vez, cheguei em casa e encontrei o grupo de um trabalho de mestrado de minha noiva, discutindo animadamente um modelo de negócios inovador. Sem titubear, lavei à louça, arrumei itens da casa, em uma das ocasiões fiz a pasta de atum que seria elogiada, ou cozinhei o que seria o lanche/jantar pós-trabalho.

Todas as visitantes eram mulheres. Ainda assim, mostraram a surpresa por, em todos os dias, eu assumir naturalmente os afazeres domésticos, enquanto minha parceira estava ocupada em outra função. “É um rapaz prendado”. Poderia ser só um elogio à alguma demonstração de aptidões inesperadas. Por que inesperadas, no entanto? São comentários assim, ou perguntas sobre se “ajudo em casa” ou as dezenas de perguntas direcionadas a ela que demonstram as responsabilidades que tem comigo (como manter minhas blusas sociais passadas ou garantir que estou comendo “direito”), que atestam que além da luta diária de não reproduzirmos o machismo corrente em nosso sangue, uma segunda luta é somada, de demonstrar que essa escolha é um caminho viável, candidato a natural, que deve e merece ser natural.

limpar a casa
Você não precisa ficar tão feliz. Nem ela.

O que eu respondo quando perguntam se ajudo em casa? “Claro que não!”. Meu papel não é ajudar. Sou igualmente responsável, daí o desafio, mas principalmente a beleza, do feminismo dentro de casa.

P.S. esse texto ganhou uma continuação em 13/07/2016. Você pode acessá-la abaixo:

Desconstruindo o machismo dentro de casa #2


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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.

  • Marcelo Moraes

    Cara :’)

  • Artur Arruda

    Engraçado imaginar que a raiz é tão grande que o machismo nasce com o homem e com mulher.
    Achei muito interessante sua visão levando em conta o posicionamento que o homem tem em dizer que “ajuda nas tarefas”. Talvez seja a frase mais usual do machista futurista.
    Parabéns pela análise.

    • Obrigado Artur! De fato, precisamos ter um cuidado tremendo com essa ideia de “ajuda”. Muitos de nós homens estamos absorvendo essa ideia de “ajudar”, e a responsabilidade continua não sendo abraçada.

      Seguimos na tentativa de reconhecer essas questões, abraço.