“Que Horas Ela Volta” para buscar meu copo d’água

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Quando eu era criança, meus pais trabalhavam e minha madrinha, sempre muito disponível e solícita, morava conosco parcialmente para ajudar em meus cuidados e criação. Eu a amava muito e era muito feliz em nossa rotina, afinal, ela era da família. Em algum momento, no entanto, Gegê, a madrinha, precisou ir embora para outro estado e eu, ainda muito criança, mas já iniciando meu longo processo educacional, passei a receber os cuidados de uma empregada doméstica muito bem recomendada, a minha própria Val. Val fazia minha comida, lavava e passava minhas roupas, brincava comigo nas horas vagas, arrumava meu quarto, me levava pra escola e buscava, sempre que eu solicitasse, um copo d’água na cozinha. Mesmo que ela estivesse ocupada, ela sempre buscava o meu copo d’água. Eu a amava muito e era muito grata por todos os seus cuidados, afinal, ela era praticamente da família.

O que eu não sabia, talvez por ser muito nova, talvez por ser muito privilegiada, é que Val não buscava o copo d’água pra mim porque isso a deixava feliz. Ela o fazia porque não tinha opção. Val é negra, pobre e retirante. No contrato de trabalho dela, há uma cláusula que ninguém menciona, mas que todos conhecem muito bem: a função dela é servir a nós, brancos, na casa grande, e depois retornar à sua própria versão da senzala. Nunca exigimos servidão incondicional, mas Val sabia o seu lugar. Val não usava o mesmo banheiro que eu, não comia meus iogurtes e não almoçava na mesa comigo. Val era praticamente da família, mas nunca foi aos meus aniversários, nunca participou dos almoços de domingo e não foi à minha formatura. Val é praticamente da família, desde que saiba o seu lugar e, este, é sempre inferior.

Apenas há alguns anos, eu descobri que, nesse roteiro, eu sou o Fabinho, a criança branca privilegiada que não serve a própria refeição no prato. Descobri que, ao não perceber e problematizar essa questão social, eu estava perpetuando a relação de abuso e discriminação existente no trabalho doméstico, uma vez que Val só é tão bem condicionada a servir devido ao nosso passado histórico escravocrata. Na escola, eu achava absurdo terem abusado e aprisionado pessoas negras para fins de trabalho escravo. Em casa, eu não buscava meu próprio copo d’água.

É muito fácil entender: nós só pagamos para alguém limpar nossa sujeira porque podemos, porque não queremos fazer o trabalho nojento e cansativo, que é lidar com a nossa própria bagunça, e despejamos naqueles que não tem opção, nos aproveitando da nossa posição social. Afinal, quantos brancos você conhece que limpam a privada para sobreviver? Quantos brancos você conhece que recolhem o lixo de outras pessoas?

Se trabalhar como gari ou empregada doméstica fosse realmente uma escolha, por que então nenhuma criança sonha em ter essas profissões?

É difícil perceber e aceitar nosso papel nesse contexto de segregação social e racial enquanto se cresce em uma redoma de privilégios. Afinal, todas as famílias ao seu redor possuem empregadas domésticas e até alguns outros serventes, como jardineiros e motoristas. Parece inocente, eu sei, ter alguém que arrume sua cama e lave a sua louça. Afinal, parece natural que algumas pessoas sirvam e outras sejam servidas. Parece natural até que você nota que a pessoa que serve também gostaria de ser servida, mas nunca terá essa oportunidade. Parece natural até você perceber que, se você fosse responsável pela sua própria bagunça no mundo, ninguém precisaria esfregar a sua privada por um salário mínimo. Parece natural até você perceber que algumas pessoas só sabem o seu lugar porque você disse a elas.

Saber que você precisa abrir mão dos seus privilégios e esfregar a sua própria sujeira, embora devesse ser trivial, pode ser muito difícil, mas é por amar a sua Val e considerá-la praticamente da família que você precisa aprender a buscar seu próprio copo d’água.


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Jessica Leite Moreira

Lésbica, femininja, vegetariana, esquerdista, abortista e obviamente banida dos almoços da família. Acredita fielmente que a revolução começa no bar. Aliás, desce mais uma gelada?