The Night Of 1x02 Subtle Beast cena 3

The Night Of 1×02 Review – Subtle Beast (Besta Sutil)

Tempo médio de leitura: 12 minutos

Antes de mergulhar nos detalhes do episódio, vamos posicionar os suspeitos de acordo com o que apareceu no piloto:

Naz: o protagonista é o principal suspeito de assassinar Andrea. Não há como negar que todas as evidências da investigação (as encontradas e as por encontrar) apontam para ele. A construção do personagem não condiz com o perfil de assassino, então temos três possibilidades para ele:

Inocente, em meio a um infortúnio inigualável. Seu perfil, o fato de estar aparentemente limpo de sangue após o acontecimento – pois o assassino ficaria coberto pelo mesmo e principalmente toda a surpresa e desespero de suas reações indicam sua inocência;

Culpado, cometendo o homicídio em uma situação de pura inconsciência devido às drogas. Os argumentos acima tanto sustentam uma possível inocência como essa hipótese de culpa durante um estado alterado. Ainda inconsciente ele poderia ter se limpado, e tamanho o choque, não se lembrar de nada depois. Talvez alguma briga tenha acontecido durante esse estado, ou outro tipo de instinto.

Culpado, sendo um psicopata enganando a todos nós.

O homem no posto de gasolina: esse é o menos provável. Ele poderia estar lá, jogando o cigarro na janela de Andrea, apenas pela diversão, uma escolha de roteiro e direção para ambientar-nos em uma Nova York que não conhecemos normalmente. Ou sua estranheza significa algo mais.

O homem que olhou Naz e Andrea entrando em casa: pode ser só um pedestre, mas aquele olhar… Vale lembrar que para ele e o homem acima, temos a exibição de Andrea tirando o gato da casa no primeiro episódio, evidenciando o portão de fundos que ficou destrancado. Lembremos que o gato voltou para dentro da casa, aparecendo quando Naz estava acordado.

Andrea Cornish: uma garota desconhecida entra em um táxi, convence o taxista de lugares e comportamentos, como se drogar. Fala que não pode ficar sozinha naquela noite. Mora naquela casa, com um Carcosa na porta (é só o que consigo pensar, sempre que vejo a cabeça do veado). Além de drogar Naz, se droga naquele nível. Nega dar seu nome e saber o do rapaz. Sente prazer com uma facada na mão e transa após isso.

Minha teoria mais estranha é a de que ela planejou uma forma de suicídio assistido, onde o protagonista acaba sendo a ferramenta que ela deixa inconsciente até o ponto de ser capaz de matá-la. Ela reforça ao menos três vezes como ele faz o que os outros mandam, para fazer com que dê mais um passo em direção ao abismo. O último passo poderia ser matá-la. Mas por que não se matar diretamente? Por que acabar com outra vida junto com a sua? Não sei.

Feitas as especulações, entramos em um episódio com a mesma assinatura do piloto. A fotografia, a trilha sonora – confesso que estou fascinado pela trilha – a forma como a cidade nunca é realmente mostrada, de modo que estamos em Nova York, mas poderíamos estar em qualquer lugar.

A sensação é de que a trama de um episódio de Law & Order foi escolhida ao acaso, e ao invés de assistirmos aos “melhores momentos” de um processo e julgamento, estamos assistindo ao todo, com lupas para as incoerências e dilemas do sistema. Tudo executado de forma bela.

Em “Subtle Beast”, além de Nasir, três personagens ganham grande destaque. O título do episódio retrata uma fala de Stone para Naz falando sobre o detetive Box. Há uma disputa entre ambos, que tentam ganhar o psicológico do protagonista, revelando suas suspeitas sobre a natureza do adversário para o garoto, de modo a favorecer seu papel no processo. Stone tem uma vantagem clara: uma vitória para ele com certeza significa uma vitória para Naz, enquanto uma vitória para Box… Por esse motivo, o episódio leva no título o apelido que o advogado dá ao detetive. Ao final do episódio, a vitória pela mente de Naz é de Stone.

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“Ele é um opressor talentoso… uma besta sutil.”

É sob esse viés que mergulhamos no método do detetive, entendemos mais de sua busca. A construção segue diretamente do episódio anterior, tendendo a confirmar as impressões iniciais. Box é pragmático, extremamente atento ao processo legal. Ele diz que quer ajudar Naz, pois não enxerga nele o perfil da pessoa capaz de cometer o ato contra Andrea, e seu discurso casa com a visão que Stone tem do mesmo. Algo cheira estranho, então Box segura o processo ao máximo.

Segurar o processo, no entanto, não significa apenas buscar uma luz que inocente Naz. Box é pragmático, eficiente, segue e usa o sistema. O garoto jamais é descartado como o criminoso em sua mente, então ele trabalha essa hipótese tanto quanto possível. Fala com Don Taylor, o padrasto de Andrea. Trata os pais do detido de forma empática, enquanto aproveita a oportunidade para ouvir a conversa da família. Usa o aparelho contra asma de Naz para ganhar simpatia – para conseguir uma pista, ou para conseguir uma confissão, o grande ás que falta em seu baralho.

Os movimentos da família e do aparelho de asma acabam convencendo Naz da narrativa de Stone sobre Box. Uma besta sutil, usando da simpatia e do processo para cumprir seu papel – resolver o caso de Andrea.

Por outro lado, todas as evidências obtidas apontam para Naz. Nenhuma evidência foi obtida apontando para qualquer outra pessoa. Pode haver evidências inconclusivas, mas jamais algo que aponte outro suspeito. O táxi surge como a mais pesada das novas pistas, levando Box a se sentir pronto a levar o caso à promotoria. Quando faz sua última tentativa com o garoto, ao mesmo tempo que, sem querer, o convence da narrativa de Stone, desiste de qualquer narrativa diferente para o caso ao ver a reação de Naz. Se ele não deseja colaborar, só lhe resta a alcunha do criminoso, com uma chuva pesada de acusações.

Com a promotora, essa decisão é retratada. O detetive vacila para convencê-la de que tem certeza, pois ele próprio não tem. Contudo, ele também não tem alternativa, plano B, outra suspeita. É como se dissesse, “sigamos o fluxo”.

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Aceita essa denúncia pois é só o que tenho para você aceitar.

Da mesma forma que Stone nos ajuda a construir Box, o contrário também ocorre. O detetive, em sua conversa com Naz, fala da necessidade do advogado, do valor que o caso pode ter para sua carreira. O garoto não tem valor, representa apenas oportunidade.

O episódio segue fortalecendo essa visão. Temos a cena do personagem de John Turturro em casa, com seu filho e encontrando a mãe do mesmo (provavelmente, sua ex). Interessante notar que ela e o jovem, Dwight, são negros. É raro ver casais inter-raciais no audiovisual, torço por uma construção interessante dessa relação. A primeira cena já impacta, quando a mãe de Dwight confirma a necessidade de Stone de que Box falava para Naz.

Outros policiais na delegacia e o próprio juiz do caso, que determina a ida de Naz para a prisão, confirmam essa necessidade de Stone. Tal construção abre uma perspectiva para a série: se o processo é uma oportunidade de ouro para o advogado, o que acontecerá com seu empenho no mesmo, e com Naz, caso o jogo se inverta e o processo se torne prejudicial à sua carreira?

O conflito deve ocorrer, pois a trama também revela valores do advogado, seu sendo de justiça. Seja na conversa com o filho, sobre o trabalho de faculdade que o mesmo faz, seja na rua, ajudando seu primeiro cliente que conhecemos e que ele soltou.

Uma pausa para a imagem dessa cena na rua. Ela está na capa do texto, mas vale a pena ver de novo. Que fotografia.

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Uma aula de fotografia

Repare como o tom rubro quebra o padrão das cores neutras a que estamos acostumados na série, da mesma forma que, por ser um vermelho tão escuro, mantém uma conexão. É como um susto que faz sentido, pois não muda a identidade da série. A força da parede com essa cor é a força que o caso tem para Stone, e o nível de obstáculos que ele enfrentará. Perceba que ele não está no centro da imagem, pois o foco não é ele. Ele está por baixo, tem menos poder. Podemos perceber que a parede é um pouco mais escura sobre sua cabeça, em oposição ao lado aberto do muro. Assim como o caso é uma oportunidade em sua carreira, as pessoas também insistem em lembrá-lo de que é um desafio acima de sua capacidade.

A genialidade, no entanto, está no fio. Ainda que interpretemos a posição de Stone conforme o parágrafo anterior, colocá-lo fora do centro é uma escolha arriscada. A parede, com esse tom forte, fica muito aberta, deixando nossos olhos perdidos. Poderíamos vagar o olhar pela cena sem dar a atenção necessária ao advogado. O fio resolve o problema, pois determina o caminho que a visão deve seguir ao olhar a imagem. Não deixamos de notar a parede, mas o fio nos carrega por ela, começando do ponto mais claro da parede (sendo o ponto de cor mais forte, o canto superior esquerdo atrai nosso olhar para lá de início), percorrendo-a até seu ponto mais baixo, a posição de John. Pronto, foco no personagem, sem nos sentirmos perdidos.

É tanta coisa para interpretar em uma única imagem que você deve achar que eu sou louco.

O outro destaque está na família de Naz, especialmente na mãe. Fiquei um pouco surpreso com o foco do episódio nela, visto que o piloto se encerrou com o pai descobrindo que o táxi não estava estacionado. A falta de qualquer menção do pai à reação da descoberta sobre o filho ter usado o táxi sem permissão foi o primeiro buraco que notei na construção da trama. Talvez esse detalhe seja abordado posteriormente.

No entanto, se o pai ainda não representa um campo de conflito familiar para Naz, é interessante ver a série construir na mãe esse potencial, fugindo do estereótipo do pai que rejeita e da mãe que acoberta/defende o filho até o fim. Ela seguiu o processo de “descoberta” sobre o filho, em uma das cenas mais ricas de “Subtle Beast”. A visão de Safar Khan acaba representando a possibilidade de Naz ser um assassino realmente. Um ponto de vista que dificilmente recai sobre a mãe – acompanhá-lo através dela é uma bela escolha do roteiro.

Poderia dizer que há mais um ponto de destaque em Don Taylor, o padrasto de Andrea. A entrada de seu personagem está reclusa ao Ato Um do episódio, a Apresentação. De fato, todas as suas cenas cumprem o papel de contextualizar, mas ainda não levam a trama para novas direções. Portanto, não as considero para destaque.

Falta falar de Nasir. A linha central do episódio é o andamento de seu processo. Ele está sob custódia como o principal suspeito do assassinato, por estar em posse da arma do crime, além de outras acusações menores. Porém, as acusações precisam ser formalizadas, levadas a um julgamento, para decidir se ele deve permanecer preso ou ser julgado em liberdade. É com esse contexto que Stone direciona Naz no início. O rapaz precisa aprender a se portar no processo, aprender sobre o custo de falar o que considera a verdade ao invés de falar apenas o estritamente necessário. Aqui o incidente incitante é pequeno, mas de consequências importantes. É justamente a ideia de que Box é uma besta sutil. Box aqui representa o sistema que Naz enfrentará.

O episódio avança apresentando o contexto da investigação, até sermos levados para a conversa com seus pais. É o clímax do Ato, o teste para vermos o caminho que Naz escolheria: toda a verdade que conhece, ou seguir os conselhos de Stone? Ele decide pelo último, percebendo a câmera na sala com seus pais. É interessante como, ao perceber a câmera, seu comportamento muda rapidamente. Após Box aparecer na porta, ele realmente entende o apelido que seu advogado usara. Não será mais manipulado pelo detetive.

No Ato Dois, da Confrontação, Naz novamente se vê dentro do embate de advogado e detetive. Ele está se convencendo de que Box merece o apelido, mas será que isso garante que Stone é confiável? Afinal, ele acredita na inocência do protagonista? Ainda que acreditar ou não no fato não seja o papel do advogado, é impossível para a pessoa suspeita não se fazer essa pergunta, dando margem a um possível conflito entre ambos.

Em seguida, a cena com Box. O detetive é extremamente inteligente, atacando justamente o possível ponto fraco da relação do garoto com seu advogado. Ele se humaniza ao falar sobre a incredulidade na culpa de Naz, sobre como os fatos não se encaixam, ainda que só apontem uma narrativa para o crime. Em uma cartada de mestre, ele devolve o aparelho contra asma que ficou perdido na cama de Andrea. Ele chegou perto de reverter a recente antipatia de Nasir.

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Você não tem cara de assassino, podemos ser amigos?

Então ele traz uma visão estereotipada sobre deus, tentando alcançar o lado muçulmano do garoto. Ali, Box o perde. Ironicamente, a reação de Naz faz com que o detetive desista de alternativas e escreva “homicídio” no quadro, sem enxergar que foi ele quem criou na frase mal colocada a distância com o suspeito. O sistema chega ao ponto de assumir a culpa de uma pessoa devido ao estereótipo do policial encarregado, ainda que não da forma tradicional.

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É, não vamos ser amigos.

No momento em que o detetive se decepciona, vemos como seu senso não é o estereótipo de agentes da lei bonzinhos que enxergam o que ninguém enxerga. Ele é humano, reage a incentivos. Leva o caso à promotora mesmo sem estar convencido, e, principalmente, dá uma camisa de Harvard para Naz ser levado à espera da audiência. Leio essa atitude de Box como uma tentativa de quebrar Nasir rumo à confissão. Como ela não veio de forma amistosa, o detetive, através da roupa, reforça o deslocamento do perfil de Naz com o ambiente para onde ele é levado. É esperado que ele tenha problemas lá, e na primeira revista um guarda já implicou com a blusa.

A confrontação acaba com Naz absorvendo cada vez mais o buraco em que sua vida adentrou, na cela conjunta à espera do julgamento. A partir daqui, passamos a receber aspectos do sistema prisional, aquelas verdades chocantes que sabemos ser a realidade, mas fingimos não lembrar.

Hora da resolução: Naz aguardará julgamento na cadeia ou em liberdade? A quantidade de acusações contra ele assusta – parte pela quantidade de decisões erradas que ele tomou em meio ao desespero do episódio piloto, parte pelos vieses do sistema. A promotoria usa o preconceito sistêmico contra o muçulmano e consegue que ele fique preso, mais um pedaço de crítica da série.

A filmagem de Naz sendo levado até a prisão é linda. A saída da van, acompanhado pelos guardas, filmada através do espelho d’água é uma escolha brilhante para fugir de cenas óbvias.

Para encerrar, uma cena da construção de John Stone merece destaque, pelo teor crítico que dá a The Night Of. Com outro cliente, negro, o juiz dá uma sentença pesada, desproporcional, logo após dar uma sentença de metade do tempo para um crime de colarinho branco de um judeu. O negro, justamente revoltado, grita com o juiz, com o sistema. A resposta do magistrado? “Quer uma sentença de judeu? Cometa um crime de judeu”. Em cima do juiz, a frase “LAW GOVERNS MAN. REASON THE LAW”, ou “A Lei Governa o Homem. A Razão Governa a Lei”.

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Isso é crítica.

Sem mais.

Gosta da série? Você pode ler as reviews dos outros episódios de The Night Of aqui.


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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.