Humor não é desculpa, não é “só brincadeira”

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Em tempos de embate entre os politicamente corretos e incorretos, o espaço do humor é visto por estes como um discurso fora do mérito de análise, um campo sem regras ou com regras diferentes do resto da comunicação. Essa ideia baseia frases como “Relaxa, é só uma brincadeira”, que negam a capacidade de uma piada ofender ou machucar outra pessoa. Como se o emissor tivesse o direito e o poder de definir o que pode e o que não pode incomodar as receptoras.

Essa ideia se sustenta em partes porque nos falta entendimento sobre como funciona o humor.

Quebra de expectativa

A regra básica do humor é a quebra de expectativa. O riso não ocorre sem esta ou sem a lembrança desta. Quanto mais conhecemos uma piada ou estilo de piada, mais ineficiente ela se torna em nos fazer gargalhar.

No entanto, quebra de expectativa é uma capacidade genérica, não reclusa ao humor. Filmes de terror dão sustos a partir da mesma regra, tramas de suspense ou policiais resolvem charadas com o intuito da ruptura com o esperado, até formas de arte mais abstratas se valem do conceito.

Existem algumas teorias sobre como a quebra de expectativa gera a risada.

Teoria do Alívio

Concebida por Freud, pai da Psicanálise, a teoria do alívio defende que rimos como uma válvula de escape de tensão, um momento de extravasar. Essa necessidade viria das famosas conclusões de Freud sobre as tensões sexuais vividas por todos os humanos desde a infância, e o riso funciona para diminuir esse acúmulo.

Seja por uma tensão sexual ou não, é comum rirmos para liberar uma energia acumulada. Rimos de alívio quando quase caímos, mas nos seguramos. Uma lembrança sobre uma pessoa falecida em seu velório pode desencadear risadas de liberação da emoção pela partida. Liberamos a tensão de violência que é construída na cena de briga entre os Vingadores em seu primeiro filme, com uma boa gargalhada com a frase de Tony Stark para o Steve Rogers, ou no último ato quando Hulk isola Thor em meio a uma batalha contra um exército alienígena.

Você pode perceber que esse conceito de humor é parte crucial na fórmula da Marvel de tornar seus filmes de herói mais leves, se repetindo no recente Doutor Estranho.

Teoria da Incongruência

Lembra de Monty Python?

A Incongruência nos faz rir a partir de sua inexplicabilidade, sua quebra com o real. É o motor de vídeos como “Deus” ou “Sobre a mesa”, do Porta dos Fundos, que colocam situações que não apenas quebram expectativas, mas o próprio modelo mental que conhecemos e criamos para entender o mundo.

É a risada do absurdo, das piadas escatológicas, de ouvir Hip-Hop na trilha sonora de um faroeste como Django, de ver Zé Bonitinho sendo aclamado pela beleza na Escolinha do Professor Raimundo.

Já que usei a Marvel como exemplo, é boa parte do humor no entorno dos personagens Groot e Rocket, em Guardiões da Galáxia.

Além do alívio e da incongruência, existem muitas formas de humor, como a risada pela empatia/identificação, ou por reflexo dos neurônios-espelho, como no caso do bebê abaixo no vídeo do Itaú.

Teoria da Superioridade

Mas para entender como o humor vai além da brincadeira, precisamos pensar na teoria da Superioridade.

É a risada que surge do efeito psicológico de nos sentirmos superiores ao objeto da risada. Ela libera, comunica essa sensação, ainda que inconscientemente. É o que nos faz rir automaticamente quando alguém cai, ou quando acreditamos que conseguimos enganar alguém em uma pegadinha.

Superioridade é a definição do humor de Tony Stark, e está presente em sua discussão com Steve Rogers.

Quando falamos de conflito dentro de histórias, pontuamos três níveis: interno, pessoal e extrapessoal. Uma história ou cena se torna mais complexa quanto mais camadas de conflito compreende.

Piadas e cenas de comédia são pequenas histórias. Portanto, assim como ocorre com os conflitos, podem ser simples em suas funções de humor, contendo apenas uma camada de geração de risadas, ou ganhar complexidade embutindo várias camadas. Não é à toa que essa cena de Vingadores se tornou tão famosa, a ponto de virar meme base do marketing de Guerra Civil. Rapidamente vimos aqui como conseguimos enxergar duas camadas nela.

Mas agora é hora da pergunta.

Qual conceito é trabalhado em uma simples piada de loira burra?

Existe algum senso de quebra de expectativa na piada, porque não prevemos a resposta que será encontrada por sua protagonista. No entanto, o que nos faz rir é identificar nossa superioridade sobre a tal atitude burra tomada pela protagonista da piada.

Se a protagonista é sempre uma loira, um português ou portuguesa, absorvemos um estereótipo de pessoa burra para determinado grupo de pessoas. Trabalhamos esse estereótipo rindo a partir de um senso de superioridade.

Por vezes essa superioridade é defendida entre grupos nos quais nem pensamos sobre no cotidiano, como piadas que confrontam médicos e advogados – geralmente é uma classe profissional privilegiada querendo cantar que é superior a outra classe profissional privilegiada.

Só que o mecanismo é tão sutil que nem percebemos que é a base que alimenta muitas, inúmeras categorias de piada sobre grupos não privilegiados em algum contexto:

  • Com LGBTs;
  • Com estereótipos de ser homem versus ser mulher;
  • Com pessoas negras;
  • Com pobres;
  • Com pessoas gordas;
  • Com loiras;
  • Com origens portuguesa, asiática, judaica, dentre outras;
  • Com pessoas portadoras de deficiências;
  • etc;

A cada piada com o conceito do humor de superioridade, o efeito óbvio é o estabelecimento de uma escala de quem é melhor. É uma escala subjetiva, pontual (no tempo), que pode estar reclusa à piada e ao seu contexto. Todavia, quando ela é feita sobre grupos que já sofrem inferiorização da sociedade, o efeito da piada deixa de ser pontual e recluso. Ela reforça um significado que já existe no quadro geral, na percepção social. O efeito é mais ou menos assim (aperte o play):

Sim, a escala é arbitrária, subjetiva, mas o importante é o movimento do gráfico – espero que você tenha apertado play.

Sabemos o problema, e a solução?

A resposta fácil é determinar que essas piadas devem parar, devem ser eliminadas. É o momento em que o politicamente incorreto vai à loucura contra o politicamente correto, surgem os gritos contra censura e tudo o mais.

Não precisamos dessa repulsa, então ignore a ideia de parar com as piadas.

Feliz?

Agora inverte a piada.

Isso mesmo. As teorias de humor apresentadas aqui não são sobre técnica, são sobre os gatilhos psicológicos que nos fazem rir. A teoria da Superioridade identifica que essa percepção – de que somos superiores – gera risadas, até gargalhadas.

É ambicioso demais ir contra nossos gatilhos inconscientes. Vamos continuar rindo por nos sentirmos superiores. Contudo, sabendo que essa situação nos faz rir, podemos fazer uma engenharia reversa para termos o resultado desejado. Algo assim (play de novo):

Quando o teor de superioridade da piada vai no sentindo contrário do teor de superioridade estabelecido no contexto social, ela ajuda a quebrá-lo. É uma metalinguagem da superioridade, usando-a como arma contra ela mesma.

Essa metalinguagem não é nada de outro mundo. O humor autodepreciativo (que tem muito meu apreço) é justamente a metalinguagem da superioridade. Quando a pessoa que conta a piada está se colocando no papel de inferior, ela confere a você a possibilidade de se sentir no papel superior sobre ela própria, ao invés de sobre um terceiro, o que confere um tom de humildade/modéstia à piada. Ninguém gosta de se sentir superior a alguém que se posiciona de forma modesta, então você se identifica com o emissor da piada e ri em solidariedade.

O stand-up comedy é recheado de humor de superioridade, é verdade, mas também é recheado de humor autodepreciativo – a exemplo de figuras de grupos “zoados”, como o Leandro Hassum falando sobre ser gordo ou Gigante Leo falando sobre ser anão. O que isso quer dizer? Que o próprio campo do humor já domina a linguagem necessária para inverter a piada – e o público já domina a linguagem para entender a inversão.

Então repito, inverte a piada. Não é a salvação que vai fazer as relações igualitárias como no gráfico acima, é só uma fração de tudo que vivemos. Mas uma fração com sentido positivo é melhor do que uma com sentido negativo, melhor do que nada. Não é?

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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.