(500) dias com ela – como a narrativa molda o ponto de vista do público

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Garoto conhece garota. Garoto se apaixona. Garota não. Esse é o slogan de uma das histórias preferidas do público na internet. Em grupos e páginas de cinema, é frequente a lembrança e discussão da história de insucesso no amor entre Tom (Joseph Gordon-Levitt) e Summer (Zooey Deschanel).

São muitas as opiniões. Tom errou. Summer errou. Os dois erraram. Ninguém errou. Ele é um &_%¢. Ela é uma #$£¢#. Visões complicadas se misturam a belas conversas sobre paixão, equilíbrio emocional, desilusão, responsabilidade. O que raramente ocorre em qualquer discussão é o exercício de inverter o filme: tornar Summer à protagonista.

Como seria (500) dias com Ele?

O público navega até onde o ponto de vista do filme permite

Uma das decisões mais importantes para qualquer pessoa autora de uma história é o ponto de vista.

A obra tem uma protagonista, duas, mais? Cada personagem influencia a capacidade da história de entregar a visão de mundo de quem escreve.

Partindo para um exemplo distante dos filmes de amor. Quando analisamos os temas por trás do filme A Qualquer Custo, por exemplo, entendemos quão quebrado é o sistema financeiro, na visão do roteiro. Ele transforma a pobreza em uma doença hereditária, até o ponto em que, para uma pessoa ou família, o crime contra o sistema compensa. É uma saída válida, talvez a única. Ainda que só sirva para realimentar o ciclo do próprio sistema.

Essa visão de mundo só é passada porque o protagonista é Toby (Chris Pine). Alguém que se reprime pelos crimes cometidos, que tenta limitar suas ações por um código moral. Fosse o irmão Tanner (Ben Foster) o protagonista, alguém que cultuava o crime e a adrenalina consequente, não acompanharíamos o arco que permite a Toby chegar a essa visão.

Voltando para os filmes de amor, poderíamos comparar o casal Tom e Summer com um longa mais recente, La La Land. Mas não seria justo. Porque Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) são protagonistas igualmente, passando por seus arcos e compondo, juntos, a visão de mundo pro trás do filme.

Em (500) dias com Ela, estamos a todo tempo com Tom. Todo o tempo.

Summer nunca aparece em uma cena sem Tom. No máximo, enquadramentos a mostram, mas ela está com Tom no local, ou ele está sonhando acordado com ela – na cama, através dos olhos dele – ou o narrador está apresentando algo de Summer, para falar de seu efeito em Tom. Ou seja, mesmo quando só vemos Summer, a enxergamos como Tom permite, influenciados por seu ponto de vista.

500 dias com ela cena1
Descrição da imagem: Enxergamos Summer pelos olhos de Tom

Essa escolha no roteiro e na filmagem faz com que enxerguemos até mesmo os erros de Tom no limite do ponto de vista dele. “Tom não deu atenção quando Summer falou que não queria algo sério”. “Tom criou expectativas irreais”.

Quando olhamos para o arco do protagonista, seus eventos principais, cronologicamente, passam por:

Arco Tom

Descrição do arco de Tom #PraCegoVer
– se apaixonar (incidente incitante)
– descobrir que o sentimento não é recíproco (Summer não acredita em paixão romântica)
– envolver-se com a garota (fim do Ato Um)
– acreditar que ela está se apaixonando por ele
– frustrar-se por perceber a resistência dela ao avanço do relacionamento
– ficar perdido com o término do “namoro” (famoso ponto de virada no meio do Ato Dois, ou “mid-point“)
– tentar novos relacionamentos
– reencontrar Summer (esperança)
– descobrir que ela está noiva (fim do Ato Dois)
– entrar em desespero e pede demissão
– relembrar sinais de que Summer não era apaixonada por ele
– começa a reconstruir sua vida seguindo sua paixão profissional
– ter um fechamento com Summer (que descobre que a visão romântica de Tom era real ao casar)
– ir para entrevista no novo ramo e se apaixonar de novo

Tom começa o filme se apaixonando, termina o filme se apaixonando. O que ele não sabia no início do filme era que se apaixonar não é suficiente.

É impossível controlar se ou quando a outra pessoa se apaixonará por você. Seu arco é aceitar que Summer não era a mulher da sua vida só porque ele se apaixonou por ela.

Todo o ponto de vista do filme é apresentado para esse fim. Até mesmo a estrutura em episódios não cronológicos dos 500 dias serve para fortalecer essa visão de mundo. Para não cairmos na mesma ilusão de Tom e nos sentirmos “traídos” ao final do filme.

A troca de ponto de vista

Quando trocamos Summer para a posição de protagonista, não temos acesso a seus pensamentos. Todas as suas ações ou falas, o máximo que temos, são filtrados para os momentos em que ela está com Tom.

Com isso, não percebemos outros erros do rapaz, ou como ele pode ter quebrado suas expectativas. Não sabemos sequer que efeito seria causado nela caso Tom em algum momento tivesse a coragem de falar “Eu te amo”. Ou o efeito que causou nela nunca ouvir isso do rapaz.

Ainda assim, de algum modo, podemos inferir o arco da nova protagonista. Ela começa o filme não acreditando no amor romantizado, à primeira vista, como Tom.

Arco Summer

Descrição do arco de Summer #PraCegoVer
– entrar em um novo emprego, nova cidade
– conhecer um cara simpático
– divertir-se com Tom, decidir ficar com ele
– viver bons momentos, abrir intimidades raras para Tom
– sentir um peso na relação, o crescimento das expectativas
– perder o interesse na relação
– tentar manter a relação
– terminar o “namoro”
– sair do emprego, se mudar de cidade
– conhecer outro homem, se apaixonar à 1ª vista

O arco de Summer, contando apenas com o que é mostrado no filme, termina aqui. Após se apaixonar, ela segue o roteiro comum e casa. Todos os momentos posteriores com Tom só servem a ele, pois não mudam nada na vida dela.

O que você consegue absorver desse arco? Ela começa sem acreditar no amor e termina acreditando. Seu arco é o aprendizado sobre se apaixonar, primeiro observando quem se apaixonou por ela, depois passando ela própria pela experiência. Vou escolher uma das frases de descrição:

  • perder o interesse na relação
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Descrição da imagem: Summer explica para Tom por que seus namoros anteriores acabaram. “O que sempre acontece. A vida. “

No filme real, essa frase se relaciona com outra no arco de Tom:

  • frustrar-se por perceber a resistência dela ao avanço do relacionamento

É quando nos aproximamos do mid-point. Agora, vou expandir a frase do arco de Summer:

  • perder o interesse na relação, perceber que, mais uma vez, não está apaixonada

O salto que estou dando é uma extrapolação, pois o filme não mostra se Summer se ressente ou se decepciona por sua dificuldade em sentir os mesmos sentimentos de amor que Tom sente, ou que seus namorados anteriores sentiram. Mas em um filme dela, em que seu aprendizado seja sobre se apaixonar, faz sentido que esse fato seja fonte de decepção.

De repente, o universo de Summer cresce e podemos ter muitos novos insights sobre ela, apenas pela observação desse sentimento. Infelizmente, essa não é uma observação de fato, já que nunca temos o ponto de vista dela no filme.

Esse insight é limitado não só pela falta de pensamentos e momentos sem Tom, enquanto ela está pela cidade, vivendo o relacionamento com o protagonista. É limitado também porque boa parte do arco dela depende do que aconteceu após Tom. Como foi se apaixonar? As decisões e medos e desafios até casar?

Essas perguntas, porém, não ajudam a história a chegar à conclusão que o arco de Tom permite. O arco de Summer permite um estudo sobre como deve haver esperança de todos podemos nos apaixonar. Poderia ser invertido para um tom negativo, em que ela se casa por “obrigação”, por perder a esperança de que ser apaixonaria um dia. Nada disso, no entanto, é representado na visão de mundo da história que chegou aos cinemas. Por não fazer parte da visão de mundo da história, todo esse trecho (Summer se apaixonando até o casamento) é excluído do design da mesma.

Para nós, resta discutir o ponto de vista do rapaz até o fim dos tempos. Ou até Hollywood filmar um spin-off originado da fanfic:

(500) dias com Ele.


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A foto de capa é original do site Broke-Ass Stuart

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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.