Pantera Negra capa

A Jornada do Herói e Pantera Negra – Conceitos #8

Tempo médio de leitura: 37 minutos

Nota: o Além do Roteiro tem um grupo no Facebook! Acessa o link, pede para participar e chama as amizades. Vamos conversar sobre essa e muitas outras análises de filmes e séries na internet por lá.

Pantera Negra é um filme fantástico. Independente de rankings de filmes da Marvel ou de heróis, a obra é mais do que a maioria dos filmes pode ser. Torna-se um marco, com valor que ultrapassa barreiras de linguagem cinematográfica ou bilheteria. É fantástico no sentido mais puro da palavra, por sua relevância, por seus efeitos, pela quebra que representa, por ser inimaginável até pouco tempo atrás.

O que pode passar despercebido acaba sendo a técnica que transcreve a história. É um filme, afinal. O bom uso da técnica nessa história valoriza ainda mais a relevância dos elementos que existem fora das qualidades fílmicas, diminuindo a quantidade de pessoas que podem bradar “o filme só fez sucesso porque _____!”.

Assisti a Pantera Negra na fase em que terminava a leitura de “O Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell, e começava a leitura de “A Jornada do Escritor”, de Cristopher Vogler. Basicamente, uma imersão na lendária Jornada do Herói. Foi sob o viés da famosa estrutura narrativa que três personagens tomaram conta da minha mente. T’Challa (Chadwick Boseman), naturalmente, por ser o protagonista. Erik Killmonger (Michael B. Jordan), o antagonista, que tem uma ligação fortíssima com a Jornada. Por fim, a própria Wakanda, uma espécie de personagem escondida sob as vestes de reino africano.

A Jornada do Herói é uma das mais relevantes estruturas narrativas, talvez perdendo em importância e alcance apenas para os três atos de Aristóteles. É mais famosa que quaisquer técnicas divulgadas por Syd Field, Robert McKee, John Truby ou qualquer outro guru dos roteiristas e sequer foi teorizada por um guru.

Para entender a conexão desse paradigma com Pantera Negra, vamos falar pela primeira vez aqui no AdR sobre a Jornada. Então senta que lá vem história.

Esse texto é especialmente dividido em duas partes: um olhar sobre a teoria da Jornada e outro olhar sobre o filme a partir dela. O sumário abaixo servirá para facilitar a navegação nesse trabalho pessoal pseudoacadêmico. Seja para você pular o que já manja e seguir para o que te interessa ou voltar mais tarde de onde parou.

INDÍCE

PARTE UM
1. Jornada do Herói – Que Diabos é isso?
2. A Virada da Jornada
3. O Conceito da Jornada
4. Os 12 Passos e Campbell
5. O Menu
5.1 Mundo Comum
5.2 Chamado à Aventura
5.3 Recusa do Chamado
5.4 Encontro com o Mentor
5.5 Travessia do Primeiro Limiar
5.6 Provas, Aliados e Inimigos e o Ventre da Baleia
5.7 Aproximação da Caverna Oculta
5.8 Provação ou as várias provações de Campbell
5.9 Recompensa e Apoteose
5.10 O Caminho de Volta e a Descida
5.11 Ressurreição
5.12 Retorno com o Elixir ou Liberdade para Viver
PARTE DOIS
6. Pantera Negra
6.1 A jornada de T’Challa
6.2 A jornada de Erik Killmonger
6.3 A jornada de Wakanda
7. Conclusão


1. JORNADA DO HERÓI – QUE DIABOS É ISSO?

A Jornada do Herói é uma estrutura narrativa baseada no trabalho seminal de Joseph Campbell, o livro “O Herói de Mil Faces”.

Veja bem, eu falei baseada. Não falei criada por Campbell. Cunhada por Campbell. Nada do tipo.

Por que essa distinção é importante? Porque o trabalho de Campbell não visava criar um modelo de apoio a construção de histórias. Essa lógica de “manual de escrita de histórias” só entrou em vigor anos, décadas depois da publicação do livro.

O estudioso de mitologias visava escrever uma obra capaz de determinar sua própria atividade: como ler/entender mitos?

Campbell chegou a escrever ficção no início da década de 30, nada que tenha o deixado famoso. Era a época em que o negócio do pai ia mal pela crise de 29, e seus livros e contos não vendiam. Formado em Letras, tornou-se professor e se especializou em analisar mais do que em criar, a partir de seu fascínio pela mitologia das civilizações.

Seu viés analítico era tão forte que ele assumiu a tarefa heróica de coescrever, em 1944, o livro “Uma Chave Mestra para Finnegan’s Wake”. Finnegan’s Wake é um livro de James Joyce que funde diferentes línguas na criação de vocábulos com múltiplos significados. A tradução desse livro é um desafio acadêmico. Coisa de nerds literários.

Em 1949, “O Herói de Mil Faces” foi publicado seguindo uma carreira acadêmica de alcance pequeno, mas constante. É possível ver a expressão “jornada do herói” ou “aventura do herói” no livro, dependendo da tradução, mas o termo que o autor trouxe como definidor de sua tese é o “monomito” (um mito) – a palavra foi tomada emprestada do tal Finnegan’s Wake. Temos aqui um verdadeiro fã de Joyce.

O Herói de Mil Faces
Capa do livro “O Herói de Mil Faces”

As influências de Campbell não se limitaram ao autor inglês. O estudioso dos mitos também se baseia em expoentes da antropologia, psicologia e psicanálise nos séculos XIX e XX como Sigmund Freud e Carl Jung, dentre outros. É de Jung que Campbell toma emprestado o conceito de arquétipos: ideias ou figuras comuns à toda a humanidade, presentes no que Jung chamou de inconsciente coletivo. Campbell traz relatos de sonhos obtidos através da prática da psicanálise e os compara aos mitos de cada cultura e religião para identificar os arquétipos. Cada mito chega a ser apontado como um “sonho compartilhado” de seu grupo, em analogia entre o indivíduo e o inconsciente coletivo. Ler o início de “O Herói de Mil Faces” é ler uma série de relatos de sonhos individuais.

De Freud, Campbell utiliza as visões sobre a relação da criança com a paternidade e a maternidade. Algumas das etapas que Campbell descreve no monomito chegam a referências diretas como “Encontro com a Deusa” e “Sintonia com o Pai”.

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2. A VIRADA DA JORNADA

A mudança de status de uma tese acadêmica para uma estrutura narrativa famosa teve uma ajuda de peso praticamente trinta anos depois. George Lucas teve contato com o livro “O Herói de Mil Faces” em seus estudos. Ele se identificou fortemente com as ideias do monomito. A estrutura combinava com uma história que ele pretendia desenvolver. Aproveitou os estágios representados no livro como a aventura do herói e os desenvolveu com um nome mais atrativo.

Guerra nas Estrelas.

Não é à toa que quase toda obra de análise sobre a Jornada do Herói, seja texto ou vídeo, traz alguma capa ou forte menção à Luke Skywalker. O personagem foi inteiramente desenvolvido sob essa influência. Edições de “O Herói de MIl Faces” passaram a mostrá-lo na capa. A própria narrativa da saga mais famosa do cinema deriva da jornada.

A década de 80 foi a época da grande descoberta da Jornada. Capitaneada por Lucas e por ninguém menos que Steven Spielberg, a estrutura narrativa se espalhou por Hollywood. Captou o interesse de diversos setores do cinema, tornando famosa a figura de Campbell, um professor já aposentado.

Campbell passou a dar entrevistas como sábio, falando sobre a jornada da vida e os ensinamentos de várias culturas da história da humanidade. Um programa do canal PBS, “O Poder do Mito”, uma série de entrevistas com Campbell, estreou logo após sua morte. Muitas dessas entrevistas estão no YouTube.

No período entre a década de 80 e 90, um estudante teve contato especial com essas teorias, criando o “Guia Definitivo para a Jornada do Herói”. Esse era Christopher Vogler, futuro autor do livro “A Jornada do Escritor”.

A Jornada do Escritor
Capa do livro “A Jornada do Escritor”

Seu guia se espalhou em Hollywood, sedimentando a influência do monomito nas produções cinematográficas. Produtores passaram a se basear nas ideias de Campbell e no Guia para definir se uma história valeria a pena ou não. Vogler conquistou seu espaço no setor com esse feito, passando a avaliar roteiros e contribuir na criação de histórias em estúdios. Ele esteve diretamente envolvido em O Rei Leão, o grande exemplar de seus testes com o Guia Definitivo. O sucesso do Guia e da prática o estimulou a escrever “A Jornada do Escritor”, seu principal trabalho.

Campbell faleceu em 1987, com uma fundação em seu nome carregando seu legado. Vogler se tornou palestrante e consultor independente de narrativas, escrevendo novas edições de sua obra seminal para atualizar as aplicações da Jornada a novos tempos (e novas críticas).

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3. O CONCEITO DA JORNADA

Todo esse histórico serve para compreendermos de onde veio a Jornada do Herói e o que ela se tornou. Ela não nasceu uma estrutura narrativa de auxílio à escrita de histórias. Esse não era seu propósito inicial.

Ela foi criada para a análise dos grandes mitos: Jesus Cristo, Buda, Gilgamesh. As inúmeras versões de dilúvios, deuses indígenas da América do Sul, da América do Norte, aborígenes, deuses de tribos africanas como Exu, deuses nórdicos como Odin. Foi posteriormente apropriada para se encaixar no uso de guias de escritores, como feito por Vogler.

Esse caminho da Jornada enquanto conceito explica um pouco por que chovem críticas ao modelo, em contraposição ao seu sucesso. Para quem critica, a Jornada é formulaica: limita todas as histórias a um caminho, fazendo com que sejam ou soem iguais.

Dá pra entender um pouco dessa sensação em passagens em que Vogler diz:

Seremos guiados por uma ideia simples: TODAS AS HISTÓRIAS CONSISTEM EM POUCOS ELEMENTOS ESTRUTURAIS COMUNS, conhecidos coletivamente como a Jornada do Herói. – Christopher Vogler, “A Jornada do Escritor”.

Existem duas visões para contrapor essas críticas. A primeira é de que a Jornada é apenas uma ferramenta. Cabe às pessoas autoras usá-las bem ou mal. O bom uso faria a estrutura capacitar e amplificar os aspectos emocionais da história, que movem o público. O mal uso colaria o aspecto de fórmula ao longo de todo um filme, peça ou livro. Essa é a visão de defesa que o próprio Vogler usa em suas edições mais recentes do livro “A Jornada do Escritor”.

A segunda visão, que considero ainda mais importante, é a do entendimento histórico. Como estrutura de análise, a Jornada do Herói prevê a simplificação e universalização. Ela parte do pressuposto de que há elementos comuns nos grandes mitos, aqueles sobre a origem da vida ou do universo, e conclui que esses elementos comuns compõem um formato: o monomito. A Jornada do Herói é a tentativa de descrever uma tradição humana. É a transformação de culturas orais e escritas da história humana em elementos objetivos bem descritos.

A humanidade é capaz de diferentes estruturas narrativas. Ao menos para alguns perfis de histórias, essa foi a estrutura naturalmente desenvolvida, ao longo de milênios, de forma subjetiva e intangível. Perfis de histórias de origem da vida ou do universo – algo que Campbell chamou de Ciclo Cosmogônico em “O Herói de Mil Faces”. Apenas não havia o título da jornada.

Esse entendimento não apaga as críticas. Criar histórias fracas e com aspecto de fórmula já era possível antes da descrição de Campbell e transcrição de Vogler. Continua possível depois. Talvez a diferença seja a capacidade aumentada de reproduzir esses aspectos em massa.

Rogerinho Choque de Cultura
O cinema hoje é uma indústria. – Rogerinho, Choque de Cultura.

Cada teoria narrativa que consegue algum nível de aceitação é apropriada por executivos e donos de estúdio em busca de lucro garantido. Cinema é um negócio de risco envolvendo milhões. Se uma ferramenta parecer ajudá-los a aumentar a chance de lucro, diminuir o risco, eles usarão e abusarão. Esse contexto reforça a crença de Vogler de que:

Em seu estudo dos mitos mundiais do herói, Campbell descobriu que eles basicamente são a mesma história, recontada ad infinitum em variações ilimitadas. – Christopher Vogler, “A Jornada do Escritor”.

Mas esse ensaio precisa de limite, então chega de contextualizar. Vamos olhar as famosas 12 etapas da Jornada do Herói.

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4. OS 12 PASSOS E CAMPBELL

A melhor forma de entender os 12 passos é lendo o livro de Vogler. Nosso interesse é aplicar (Pantera Negra está esperando!). Portanto, a ideia aqui é relacionar a Jornada descrita por Vogler com a imaginada por Campbell, para entendermos melhor como ela pode ser utilizada.

O primeiro ponto importante é a estrutura como um todo. Enquanto Vogler descreveu 12 passos, Campbell pensou em 17 etapas. Só que essas 17 etapas de Campbell não são tão lineares assim. Se parecem mais com um jogo de Amarelinha.

A Jornada do Escritor O Herói de Mil Faces
Primeiro Ato Partida, Separação
Mundo Comum Mundo Cotidiano
Chamado à Aventura Chamado à Aventura
Recusa do Chamado Recusa do Chamado
Encontro com o Mentor O Auxílio Sobrenatural
Travessia do Primeiro Limiar A Passagem do Primeiro Limiar
O Ventre da Baleia
Segundo Ato Descida, Iniciação, Penetração
Provas, Aliados e Inimigos O Caminho de Provas
Aproximação da Caverna Oculta
Provação O Encontro com a Deusa / A Mulher como Tentação / Sintonia com o Pai
A Apoteose
Recompensa A Bênção Última
Terceiro Ato Retorno
O Caminho de Volta A Recusa do Retorno / A Fuga Mágica / O Resgate com Auxílio Externo / A Passagem pelo Limiar do Retorno
Ressurreição Senhor dos Dois Mundos
Retorno com o Elixir Liberdade para Viver

Enquanto estudava os mitos, Campbell percebeu variações em alguns estágios e as incorporou a seu estudo. Uma história dificilmente apresenta “Encontro com a Deusa” e “Sintonia com o Pai” em sequência. O mais comum é que essas etapas estejam em paralelo como opções e a história decida seguir por uma delas. Suas funções são similares no caminho espiritual do herói.

Portanto, o trabalho de Vogler é uma simplificação de Campbell, igualando algumas etapas e generalizando outras que estariam em paralelo. Essa comparação é um belo exemplo do risco com o qual qualquer modelagem convive. Seja abrangente demais, e dirão que a estrutura não diz nada, é subjetiva – um problema que a Jornada do Herói enfrenta em especial no meio, em etapas como “Provas, Aliados e Inimigos” ou “Recompensa”. Seja específico demais e dirão que a estrutura é rígida ou uma fórmula, que limita a liberdade de quem cria histórias. Tente cobrir tudo e veja seu modelo virar uma colcha de retalhos de tantas exceções.

É por isso que o próprio Vogler (e qualquer pessoa que propõe uma estrutura ou modelo) busca defender a teoria com o argumento da flexibilidade.

A Jornada do Herói é infinitamente flexível e possibilita uma variação infinda, sem sacrificar sua magia, e vai sobreviver a todos nós – Christopher Vogler, “A Jornada do Escritor”.

“Infinitamente flexível” e “variação infinda” são adjetivos que quebram o esqueleto de qualquer coisa que tente se colocar como “guia” ou “modelo”. Apesar de soar como escape, é essa flexibilidade que me atrai ao olhar qualquer estrutura. Para a análise de uma história ou mesmo a escrita de uma, qual ferramenta melhor se aplica ao problema que temos pela frente? Extrai ou insere mais significados?

Por isso, olho para a Jornada do Herói muito mais como um cardápio do que como uma linha de produção. Claro que a estrutura se encaixará como uma luva em muitas histórias. Em outras, partes farão sentido, partes nem tanto.

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5. O MENU

5.1. MUNDO COMUM

O primeiro dos 12 passos é curioso por não ser um passo. Na escrita de Campbell fica mais claro que, na verdade, se trata de um estado zero, inicial. É o Mundo Comum.

É o mundo dos vivos em Viva – A Vida é uma Festa (Coco), o Condado em O Senhor dos Anéis. Em muitas histórias se confunde com o Primeiro Ato, sendo ambiente para toda a Apresentação.

Tudo na Jornada do Herói, no entanto, é metafórico (assim como tudo em mitologias milenares tende a ser). O Mundo Comum não precisa ser fisicamente separado. Basta ser um estágio anterior. Em Mad Max – Estrada da Fúria, Max (Tom Hardy) está sempre fugindo, sendo capturado ou sobrevivendo. Essa situação é seu Mundo Comum. Quando Furiosa (Charlize Theron) vira à esquerda no incidente incitante da história, Max começa uma transição (ainda que forçada) para um Mundo Especial, bem representada pela super tempestade de areia e tornados.

O Mundo Comum contém tudo que ocorre até que uma travessia para um outro mundo, esse chamado de Especial, ocorra.

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5.2. CHAMADO À AVENTURA

Nenhum herói percorrerá uma jornada sem motivos. O Chamado à Aventura é o que permite a existência dessa jornada. Um evento similar ao incidente incitante, que sempre tratamos aqui.

O nome “chamado” é usado pela existência de inúmeras figuras de Arauto nas mitologias antigas. Arautos são entidades ou seres que chegam até heróis para avisar sobre jornadas que batem à porta (o anjo Gabriel para Maria ou Gandalf para Frodo). Pela metáfora, o chamado também é usado para descrever situações em que o herói escolhe entrar em uma aventura.

É por isso que cada autor de uma estrutura acaba criando um nome diferente para o mesmo evento. “Incidente incitante” permite que protagonistas não dependam de um chamado propriamente dito, evitando que a palavra seja “esticada” para que muitos significados caibam nela. Se você lê McKee, Truby, Field, Weiland e Vogler, por exemplo, lerá pelo menos quatro formas diferentes de chamar eventos e conceitos muito parecidos, algumas especificidades que cada um dos cinco contém – mas menos do que se imagina – e algumas referências de um a outro.

Aproveitando o Mad Max recente, há um exercício interessante em comparar Max e Furiosa. O Chamado à Aventura dela não está exatamente presente na história. Ela já decidiu fazer algo. Mas o incidente incitante está, quando ela age conforme decidiu, mudando o rumo do caminhão. O incidente reflete um chamado já ocorrido.

Já o personagem de Tom Hardy vive uma mini história própria até o encontro com Furiosa. Ele é capturado, marcado como doador universal. Depois, é usado como bolsa de sangue de Nux (Nicholas Hoult), um capanga de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne).

Duas interpretações são possíveis para o caso dele. A primeira é de que o Chamado à Aventura é forçado a ele em sua captura.

A segunda é de que seu Chamado ocorre quando ele se liberta de Nux, só após atravessar a tempestade. Ali começa sua Jornada espiritual, ao ter que sobreviver apesar da presença de Furiosa e das outras mulheres. Até ali, a história dele é um bloco independente, de sobrevivência. É possível até mesmo entender os dois momentos como diferentes chamados, algo que Vogler trabalha em seu livro. Cada trama ou subtrama que o herói vive pode ter seu próprio chamado.

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5.3. RECUSA DO CHAMADO

O terceiro passo é a reação imediata do herói ao chamado. É aqui que a lógica de cardápio começa a se aplicar. A recusa não é obrigatória, apesar de ser comum. Quando o incidente incitante é provocado pela protagonista, dificilmente ela viverá uma recusa para um movimento que ela própria começou.

A recusa é Neo (Keanu Reeves) reticente às primeiras revelações de Trinity (Carrie-Anne Moss) sobre a Matrix. Frodo (Elijah Wood) negando-se a sair do Condado. John McClane (Bruce Willis) repetindo erros e não se reaproximando da esposa no início de Duro de Matar. Harry Potter (Daniel Radcliffe) não acreditando em sua biografia de bruxo. Alice (Julianne Moore) reagindo a notícia de seu diagnóstico de Alzheimer em Para Sempre Alice.

Não é comum a ausência de alguma forma de recusa, mas A Chegada faz isso com Louise (Amy Adams). Ela se interessa pelo desafio assim que recebe a visita do coronel. Diz que deveria presenciar o evento e é o coronel quem nega.

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5.4. ENCONTRO COM O MENTOR

Campbell chama esse estágio de “O Auxílio Sobrenatural”. Uma vez que o herói recusou o chamado, algum tipo de ajuda ocorre para mostrá-lo que não adianta fugir de sua jornada espiritual. O herói precisa aceitá-la.

O “sobrenatural” vem do fato de poder ser uma visão, uma lembrança, uma pessoa, um acontecimento, que vai acordar a protagonista para sua jornada. Vogler escolheu a expressão “Encontro com o Mentor”, pois esse momento geralmente tem a influência de uma pessoa. Um Mestre dos Magos dizendo para os heróis de Caverna do Dragão terem esperança no retorno pra casa se seguirem aquela aventura. Morpheus (Laurence Fishburne) oferecendo as pílulas à Neo e sendo seu tutor.

Você pode escolher a abstração que preferir, mas não há muito mistério nessa etapa.

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5.5. TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR

Na mitologia grega, todos aqueles que desejavam entrar no mundo de Hades, nos mitos gregos, precisavam atravessar o rio Aqueronte, guardado pelo barqueiro Caronte.

O barqueiro, que exige uma moeda para atravessar o rio, é um Guardião do Limiar: um guarda de portão ou chefão de primeira fase. Passando pelo guardião, seja um capanga ou um obstáculo natural, o herói adentra o Mundo Especial. É lá que o herói caminhará sua jornada, seja para aprender uma lição ou trazer um tesouro que salvará o Mundo Comum.

“Viva – a Vida é uma Festa” (Coco) tem uma distinção clara entre os dois mundos. Um é o dos vivos, o outro o dos mortos, na cultura mexicana. Percy Fawcett (Charlie Hunnam) chegando na Amazônia em “A Cidade Perdida de Z” entra em um Mundo Especial. Lena (Natalie Portman) e o grupo de mulheres atravessando a fronteira do Brilho, em Aniquilação, faz o mesmo.

A travessia representa a aceitação da protagonista para a necessidade de percorrer a jornada. Uma vez aceita, ela segue para o ambiente propício, onde ocorrerão provas, surgirão aliados e inimigos – o que aliás é o nome da próxima etapa de Vogler.

O “Mundo Especial” não precisa ser um lugar mágico. Sequer precisa ser um lugar físico, apesar de ser a maioria dos casos nas histórias mitológicas. Uma mudança de estado de espírito pode trazer transformações a um lugar outrora comum.

Na 1ª temporada de American Crime Story: The People vs OJ Simpson, a promotora Marcia (Sarah Paulson) lida com o caso do jogador de futebol americano. Julgamentos e o tribunal são parte do mundo rotineiro da promotora. Mas esse julgamento é especial e mudará sua vida. Quando o mesmo começa, o Mundo Especial se faz presente na história.

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5.6. PROVAS, ALIADOS E INIMIGOS e o VENTRE DA BALEIA

A travessia se assemelha em outras estruturas ao fim do Ato Um, à virada para o segundo Ato da história. É a partir daqui que a descrição de Vogler se torna mais genérica – não que esteja errada. Esse fato ocorre com muitas estruturas narrativas que se sobrepõem ao modelo de três Atos.

O segundo Ato tem a responsabilidade de cobrir a maior parte da história, manter conflitos em um crescente enquanto equilibra a energia entregue para o público. Para quem escreve, é o momento mais fácil de errar.

É também aqui que Vogler começa a resumir o trabalho de Campbell.

A etapa de Provas, Aliados e Inimigos basicamente se refere a conflitos. Campbell faz um esforço em tentar mapear os tipos de conflitos que os mitos e rituais antigos apresentavam. Vogler preferiu uma abordagem generalista, separando não os tipos de conflitos, mas a cronologia deles.

Em “O Herói de Mil Faces”, Campbell mantém duas etapas separadas: o Ventre da Baleia, no fim do seu primeiro Ato, chamado de Partida ou Separação; e o Caminho de Provas, no início do seu segundo Ato, chamado de Descida ou Iniciação. O que essas diferenças provocam?

A barriga ou ventre da baleia significa uma crise. Uma situação que o herói enfrenta para aprender lições importantes sobre o Mundo Especial. Não necessariamente questões técnicas ou logísticas.

O primeiro Homem Aranha, de Sam Raimi, adentra o ventre da baleia na morte do tio Ben (Cliff Robertson). Ele recebeu a ajuda sobrenatural de seu tio como Mentor, participou de uma luta de ringue que significou a Travessia do Primeiro Limiar. Não fez nada sobre o assaltante da casa de lutas ao sair.

Quando seu tio é morto, Peter (Tobey Maguire) é obrigado a lidar imediatamente com novas emoções como ódio e desejo de vingança, arrependimento, culpa. É jogado em direção ao ensinamento de seu Mentor em uma primeira lição crítica. Sua jornada já havia começado, no entanto, ganha nova densidade graças à esse evento.

Em Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, um marco de travessia ocorre quando Frodo e Sam (Sean Astin) cruzam a fronteira do Condado. Eles encontram Aragorn (Viggo Mortensen) – um Aliado – e depois precisam fugir dos Nazgûl, servos leais de Sauron – os Inimigos. No Topo do Vento, Frodo é ferido pelo Rei Bruxo, o principal dos nove Nazgûl – a Prova. A partir dali, ele luta pela sobrevivência, resgatado por Arwen (Liv Tyler), para a chegada na terra élfica e protegida de Valfenda em mais uma Prova.

Toda essa fase é uma mistura desses dois momentos, de Provas, Aliados e Inimigos ou “Estrada de Provas” e o Ventre da Baleia. Essa última etapa está representada tanto na beira da morte de que Frodo se aproxima no Topo do Vento como na fase em Valfenda. Esse percurso de conflitos o fez entender e aceitar seu papel na Jornada. Seu período dentro do Ventre da Baleia só termina quando ele diz “Sim” para o Um Anel, para o fardo de carregá-lo até Mordor, e a Sociedade do Anel se forma.

Esses momentos estão relativamente misturados, com uma Estrada de Provas revelando Aliados e Inimigos antes do Ventre da Baleia. A flexibilidade das estruturas fica evidente, ou o motivo de tratá-las como “cardápio”. Suas etapas devem servir à história, jamais o contrário.

Um exemplo de Ventre da Baleia desconexo de outras etapas é Sicario. Kate (Emily Blunt) não enfrenta provas, não reconhece aliados ou enxerga inimigos, até o tiroteio na fronteira do México com os EUA, no retorno da missão. Tudo até ali é suspeito, incerto e assustadoramente quieto. A narrativa é montada para criar tensão, sem preocupações com etapas bem fixadas de aprendizado para a protagonista.

Quando o tiroteio acontece, a descarga de energia da tensão acumulada é tamanha que Kate, mesmo sem provas ou Mentor para guiá-la, confronta a morte. Em uma tacada ela começa a enxergar mais profundamente a Jornada onde se deixou entrar.

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5.7. APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA

Essa fase existe apenas para Vogler, uma vez que Campbell a mantém como Estrada de Provas. A Aproximação é uma especificação de Vogler dentro de suas provas e encontros com aliados e inimigos.

A caverna oculta é o lugar – físico ou metafórico – onde o herói enfrentará sua maior provação até o momento. Em muitas histórias, essa caverna oculta vai para baixo mesmo, como Minas Moria, em Sociedade do Anel. Em outras, para cima, como Neo e Trinity entrando no prédio onde Morpheus é mantido refém.

Mas esses eventos são posteriores. A Aproximação está nos momentos anteriores, onde heróis e aliados montam planos e enfrentam conflitos direcionados à preparação para a caverna. Em muitos casos, há um caminho propriamente dito, um corredor a ser seguido. As famosas cenas de planejamento de Missão Impossível, antes das manobras e infiltrações impossíveis, são boas representações desse estágio.

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5.8. PROVAÇÃO ou as várias provações de Campbell

A analogia da amarelinha sobre a Jornada do Herói quase cai por terra nessa fase, pois a Provação de Vogler não resume duas etapas de Campbell. Resume três.

O autor de “O Herói de Mil Faces” designa três momentos de conflito supremo vivido pela protagonista. São o Encontro com a Deusa, A Mulher como Tentação e Sintonia com o Pai.

Essa divisão resume as diferentes causas de provações a que os heróis são submetidos, pelos estudos de Campbell. A Deusa se refere a uma energia feminina materna, a Mulher como Tentação à energia feminina sexual, a Sintonia com o Pai à energia masculina paterna. Padrões repetidos na maioria dos mitos de uma maioria de sociedades patriarcais e interpretados dentro do mesmo paradigma. Seguindo esse paradigma, uma protagonista mulher teria a inversão desses papeis de energias masculinas e femininas. Maureen Murdock fez uma proposição diferente para narrativas centradas na natureza feminina já na década de 90. Sugiro que leia esse link para saber mais sobre a Jornada da Heroína.

Nesses encontros sobrenaturais, o herói enfrentaria seu abismo, alcançaria o fundo do poço. Uma situação de vida ou morte, onde enfrentaria deuses e deusas. É o confronto de Perseu com a Medusa. O resgate de Morpheus por Neo e Trinity, enfrentando os agentes. John McClane encontrando Hans Gruber (Alan Rickman) em Duro de Matar.

Vogler escapa dessas analogias para focar no ponto comum entre elas: o impacto do evento. Este precisa ser um encontro com a morte ou efeito semelhante dentro da história. Ter um teor sobrenatural, de revolução, de mudança humana. Em um filme de ação costuma envolver explosões. Em um drama, rachas ou perdas familiares.

Um caso interessante de Provação acontece em A Chegada. Louise precisa se comunicar com os alienígenas. Ela lida com uma série de provas menores de ordem científica, política e pessoal, com apoios e pressões de aliados e inimigos. Quanto mais perto ela chega de entender como se comunicar, mais ela se aproxima da caverna oculta. Essa aproximação é acelerada quando o vocábulo “arma” surge no contexto.

A cena em que ela e Ian (Jeremy Renner) entram no espaço alienígena para entender o sentido de “arma” chega a ser uma Aproximação visual. A caverna oculta está ali, em frente a eles. Porém, antes que consigam decifrar, inimigos (soldados) os impedem através de uma explosão que visava matar os extraterrestres.

A Provação chega quando Louise deixa os procedimentos para trás e vai a pé até próximo à nave, onde é recolhida por um módulo e levada. Ela tem, enfim, um encontro “cara a cara” com “Costello”, o alienígena que sobreviveu à explosão.

Louise “morre” ali, ainda que a situação não seja visualmente violenta. Ela mal entende como respira ou como consegue se comunicar. O fato é que consegue. Ela aprende sobre sua nova interpretação do tempo. Deixa de ser a humana de antes e se torna algo mais.

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5.9. Recompensa e Apoteose

A Provação está muito associada aos momentos mais críticos do segundo Ato em outras estruturas, que podem variar do “mid-point“, o ponto no meio do filme que costuma estabelecer uma forte virada na história, ou no próprio clímax que encerra o segundo Ato. Seja em que ponto for, a experiência da Provação costuma trazer uma Recompensa imediata.

Essa Recompensa pode ser de um objeto a um aprendizado, do concreto ao intangível. Em alguns casos, sobreviver já é uma recompensa, como em alguns filmes de terror. Essa recompensa é chamada, tanto por Vogler como por Campbell, de Elixir.

Campbell, no entanto, segue um caminho maior. A partir dos seus três tipos de Provação: Encontro com a Deusa, Mulher como Tentação e Sintonia com o Pai, ele segue para um estágio que Vogler pula. A Apoteose.

A heroína Louise, ao encontrar seus modelos de deidades, os alienígenas, se tornou capaz de se comunicar naturalmente com eles. De certa forma, ela se tornou uma deles. O herói que sobrevive a encontros com deuses deve ter algo de deus nele próprio.

Louise, de fato, sai com um Elixir daquela caverna, o domínio da linguagem alienígena. A Apoteose é anterior ao Elixir. É o estado que a protagonista alcança.

Campbell segue a Apoteose com “A Bênção Última” ou “A Grande Conquista”, essa sendo uma fase sinônima à Recompensa de Vogler. É a hora chave para itens mágicos como a Excalibur aparecerem.

Um interessante “elixir” que subverte o uso padrão da recompensa é a Taça do torneiro Tribruxo, em Harry Potter e o Cálice de Fogo. Ao invés de ser um troféu levado para casa, a taça leva Harry – e Cedrico (Robert Pattinson) – em um retorno inesperado. O retorno à presença de Lord Voldemort (Ralph Fiennes).

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5.10. O CAMINHO DE VOLTA e a DESCIDA

Nenhuma etapa de Vogler abrange tantas possibilidades para Campbell quanto o Caminho de Volta. Em “O Herói de Mil Faces”, após a Grande Conquista ou Benção Última, Campbell começa o “terceiro ato” do monomito, denominado Descida.

Os primeiros estágios da Descida não são sequenciais, são concorrentes. A Recusa do Retorno, a Fuga Mágica, o Resgate com Auxílio Externo. Depois, ocorre “A Passagem pelo Limiar do Retorno”. Essas quatro etapas são encaixadas no que Vogler chama de Caminho de Volta.

Esse caminho tem o sentido inverso da Travessia do Primeiro Limiar, do início da história. Lá, a protagonista cruza do Mundo Comum para o Mundo Especial. Aqui, trocamos. Com o Elixir em seu poder, a protagonista retorna para o Mundo Comum transformada e pronta para propagar essa transformação para o seu mundo.

A recusa se refere a heróis que não conseguem retornar, que desejam se manter no Mundo Especial. É comum que Mentores sejam heróis anteriores que, em alguma de suas próprias jornadas, por seus próprios motivos, recusaram o retorno. Essa experiência permite a Mentores serem guias para os novos heróis.

Talvez não haja melhor exemplo visual para a Fuga Mágica do que Indiana Jones (Harrison Ford) correndo da pedra rolante, ainda que ocorra no prólogo de Indiana Jones. Por ser um prólogo independente da trama principal, podemos perceber os mesmos elementos scontidos em menor escala. Já para o retorno com auxílio externo, podemos lembrar de Dumbledore (Michael Gambon)  guiando Harry Potter em uma espécie de “limbo” após este ser “morto” por Voldemort, em seu último filme.

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5.11. RESSURREIÇÃO

Os nomes usados pelos dois autores dão a entender que o herói sempre retornará fisicamente para o Mundo Comum antes da Ressurreição.

Algumas histórias não permitem isso fisicamente. O Mundo Comum pode não mais existir. Ou não combina mais com o herói, que precisa viver agora em um novo tipo de Mundo Comum (o caso de mudanças profissionais). O mais importante na volta é o aspecto subjetivo. É sobre o herói ter o conhecimento necessário para sair do Mundo Especial e ter contato com o restante do mundo, para vencer seu último desafio.

Esse último desafio é a Ressurreição.

É comum, por exemplo, que a Provação seja um encontro com o vilão, ao qual o herói sobrevive por um fio. É o caso em Homem Aranha: De Volta ao Lar. No primeiro confronto com o Abutre (Michael Keaton), Peter (Tom Holland) enfrenta a Provação e quase morre. No segundo confronto, ele já carrega uma nova resolução. É ali que ele vai passar por sua Ressurreição.

Essa é a fase em que a protagonista efetiva sua transformação com a posse do Elixir. É Louise usando seu novo conhecimento para impedir uma guerra global em A Chegada. Eva (Alicia Vikander) matando Nathan (Oscar Isaac), seu criador, e escapando para o mundo externo em Ex-Machina. Neo, após morrer aparentemente, é ressurreto como o Escolhido, derrota os agentes e implode Smith (Hugo Weaving) em Matrix. Ah, e nem preciso dizer qual evento essa etapa representa na Bíblia, na história de Jesus Cristo, não é mesmo?

Campbell chama esse estágio de “Senhor dos Dois Mundos”. A protagonista se torna capaz de transitar pelo Mundo Comum e pelo Mundo Especial, pois adquiriu sabedoria sobre essas duas realidades.

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5.12. RETORNO COM O ELIXIR ou LIBERDADE PARA VIVER

O herói tem o Elixir e derrotou a última força do antagonismo, seja um vilão ou um obstáculo abstrato. O último dos 12 passos da Jornada do Herói é o regresso com essa recompensa especial.

Campbell a chama de “Liberdade para Viver”. Como um senhor dos dois mundos, o herói pode escolher como equilibrar sua nova vida após viver a Jornada. É o caso de Louise, que mesmo sendo capaz de ver o futuro, permanece capaz de ter e amar sua filha, Hannah. Ela conhece seus mundos Comum e Especial e escolhe como viver essa ambiguidade.

Frodo prefere cruzar o mar para terras élficas no fim da trilogia Senhor dos Anéis. Neo, em Matrix, abraça o papel de Escolhido. No final da trilogia, abraça o sacrifício em nome da paz.

Muitas histórias fantásticas demonstram o regresso com o Elixir a partir de uma transformação visual do Mundo Comum. É o caso de contos da Disney como A Bela e a Fera ou Frozen, em que mundos escuros ou congelados têm um retorno das cores, da fauna e flora, ao fim das jornadas de suas heroínas.

Na resolução após o clímax, histórias revelam o que acontece após o último grande evento. O Regresso com o Elixir/Liberdade para Viver representa essa etapa, amarrando as últimas pontas da Jornada do Herói ou do monomito.

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6. PANTERA NEGRA

Conhecidos os 12 passos e as possibilidades de significado presentes pela comparação com Campbell, fica a pergunta: como tudo isso se encaixa com Pantera Negra?

Vamos começar por T’Challa.

6.1. A JORNADA DE T’CHALLA

Vou aproveitar o viés de quem já viu o filme para responder uma pergunta final. Qual é a transformação vivida por T’Challa?

Ele termina a história como rei. Começa a história como rei – ainda a ser oficializado. Seu mundo externo muda pouco. Sua transformação é interna e sugerida por dois eventos: os dois encontros com seu pai. Contudo, vamos ter que nos desapegar um pouco daquela Sintonia com o Pai de Campbell.

O que muda em T’Challa é o exercício de seu papel de rei. Como ele enxerga que deve agir, uma vez no cargo. No início, ele carrega o legado do pai. No final, ele transforma Wakanda, iniciando seu próprio legado.

Para essa transformação ser possível, o primeiro evento necessário é que ele se torne rei. Portanto, é esse seu Chamado à Aventura. Ele está presente parcialmente em outro filme: Capitão América – Guerra Civil. Após a morte do pai, T’Chaka (John Kani), ele herda o cargo, mas precisa oficializá-lo.

T’Challa cresceu em Wakanda, seu Mundo Comum, instruído e destinado aos papeis de rei e de Pantera Negra. Portanto, ele não chega a viver uma Recusa ao Chamado. Em sua mente, é seu destino.

Ele conta com a ajuda de diferentes Mentores, no entanto. Zuri (Forest Whitaker) o ajuda a viver o ritual de passagem para deixar de ser o Pantera Negra, para as lutas pelo trono. Depois da vitória, o auxilia a voltar a ser o Pantera Negra e ter seu primeiro encontro com o pai. Ramonda (Angela Basset), a mãe, o ajuda a “calçar os sapatos de rei”, a tomar para si o peso e responsabilidade do papel de rei e de sucessor de seu pai. Shuri (Letitia Wright), a irmã, é sua mentora tecnológica, ajudando a tornar tanto Pantera Negra quanto Wakanda em entidades mais avançadas e eficientes.

O ritual de luta com chefes das cinco tribos de Wakanda para legitimar o rei é uma prova, a primeira que T’Challa precisa superar. Essa prova acaba ocorrendo um pouco antes da Travessia do Primeiro Limiar. Uma vez vitorioso e legítimo dono do trono pelo ritual de Wakanda, T’Challa atravessa o limiar e adentra o ventre da baleia. Ele bebe o líquido das rosas violetas que o “mata” para permitir o encontro com os antigos Panteras Negras, já falecidos.

T'Challa no Mundo Especial
T’Challa no Mundo Especial

Ele conclui a travessia do primeiro limiar ao concluir seu encontro com o pai. A partir desse momento, ele é testado no papel de rei, o que significa o teste de suas próprias resoluções sobre seu cargo e o destino de Wakanda. Ele conta com um conselho e uma guarda real, e precisa tanto ordená-los como ser capaz de escutá-los. O contexto para as provas e aliados está posto. Existe certa pressão, prenunciando inimigos como W’Kabi (Daniel Kaluyaa).

O protagonista tenta capturar Ulysses Klaue (Andy Serkis), um inimigo, como primeira prova de seu valor como rei. Enfrenta desafios na captura como a presença da CIA pelo agente Everett Ross (Martin Freeman), por ora inimigo. A captura é bem sucedida, apesar de conflituosa, e aos poucos Ross se transforma em aliado.

Pantera Negra cena4
T’Challa e Okoye (Danai Gurira) observam o interrogatório de Klaue.

É quando Killmonger aparece e recupera Klaue das garras de T’Challa. Começa a Aproximação da Caverna Oculta. A derrota soa mal no reino de Wakanda, virando ânimos contra ele.

Killmonger então aparece em Wakanda com o corpo de Klaue como oferenda e exigindo o direito de batalhar pelo trono. Ele é um sobrinho esquecido de T’Chaka e tem esse direito legítimo.

O desafio funciona como um segundo Chamado à Aventura, que T’Challa resiste, inicialmente recusa. Por fim, ele aceita a luta por saber que o direito de Erik/N’Jadaka é legítimo. Sua Provação começa. O ritual pelo trono, a luta com Killmonger, é a caverna oculta. Não é só a vida de T’Challa que está em risco. É também sua visão sobre o papel de rei e de seu próprio reino. Como sua visão, seu ideal, estão em risco, é aqui que a “Sintonia com o Pai” metafórica de Campbell acontece, na forma de embate com o primo. A luta entre os dois é a luta entre os ideias de seus pais.

Pantera Negra cena2
T’Challa e Killmonger batalham no ritual pelo trono.

Sua visão perde. O herói “morre”, perde o trono, Killmonger ascende ao poder.

T’Challa não chega a sair da Provação com uma Recompensa comum. Após a ajuda das incríveis Ramonda, Nakia (Lupita Nyongo) e Shuri, e até de um Aliado inesperado como M’Baku (Winston Duke), T’Challa ganha uma nova chance à vida, graças ao líquido de Pantera Negra. Ele atravessa mais uma vez a fronteira para o mundo do pai, mas, dessa vez, para ser capaz de retornar à Wakanda, ao Mundo Comum.

O segundo encontro com o pai reflete a Apoteose para T’Challa. A Provação não só quebrou sua noção de continuidade, de legado. Escancarou algo que ele sentia no íntimo, mas de que duvidava. Algo que alguém como Nakia já havia percebido e que Erik pleiteava. Wakanda não podia fechar os olhos para o resto do mundo. Portanto, é nesse encontro mágico que ele confronta o próprio “deus de Wakanda”, Bast, e a união dos antigos Panteras, representados na figura de T’Chaka. Esse confronto que “despe” esse deus Wakanda, suplantando uma visão antiga por uma nova, é o momento em que T’Challa finalmente se iguala aos antigos, por formar sua própria visão.

O Pantera Negra então retorna, realiza o Caminho de Volta, um retorno com auxílio externo. Confronta Killmonger mais uma vez, com uma visão de mundo renovada. Uma visão que abraça as necessidades de Killmonger, mas que não se dobra à fúria vingativa do antagonista.

A Ressurreição é a própria luta com o primo. Quando os dois ideais se chocam, T’Challa prova ser agora um rei digno, capaz de projetar um caminho mais forte. Sua transformação está completa.

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T’Challa, de costas, retorna para um novo round na disputa pelo trono. À sua frente, Killmonger e a tribo que apoiou sua ascensão.

Vitorioso, o rei de Wakanda demonstra que seu ideal não se resume ao mundo abstrato. Regressando com o Elixir, ele lança Wakanda para o mundo, projetando uma nova forma de relação entre o reino e o resto do planeta. T’Challa se tornou um legítimo Senhor de Dois Mundos.

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6.2. A JORNADA DE ERIK KILLMONGER

É comum só entendermos as motivações de um vilão com um flashback. Não é diferente com Killmonger. Ainda criança, seu Mundo Comum, um gueto pobre da sociedade estadunidense, é abalado.

N’Jobu (Sterling K Brown), seu pai, incapaz de fechar os olhos para o sofrimento das pessoas pretas, da desigualdade formada no racismo, planeja usar o poder de Wakanda para virar a escala. T’Chaka, o rei, protetor de Wakanda, mantém o norte do isolacionismo que sempre guiou o reino. Na rebeldia de N’Jobu, que ataca Zuri, T’Chaka acaba matando o próprio irmão e abandonando o sobrinho. O Chamado à Aventura de Erik está posto.

A força de seu chamado também não suscita uma recusa. Erik se mostra sempre certo do que quer. Também não são mostrados Mentores claros, mas alusões são feitas a duas figuras: o pai, cujo legado Erik planeja concretizar; e o imperialismo de nações brancas, cujas táticas Erik internalizou, se tornando mestre para usá-las em sua vingança e resgate ao povo negro.

É difícil apontar uma travessia do primeiro limiar na vida do vilão. No filme, porém, pode-se dizer que o roubo ao museu, no início, representa essa etapa. É a partir dela que ele conclui as tarefas necessárias para buscar a entrada em Wakanda.

Sua etapa de Provas, Aliados e Inimigos é curta. É claro que ele tem uma namorada aliada e um aliado prestes a virar inimigo em Klaue. A primeira prova é o resgate do traficante de Vibranium. Em seguida, quando os dois se confrontam e Klaue usa a namorada de escudo, Killmonger mostra sua resolução, matando a namorada e caçando Klaue. Ela, mesmo mulher preta, não representava nada perto de seu ideal.

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Killmonger e Klaue, no ataque ao museu. Por ora aliados, até que a necessidade de Erik mude.

Erik se aproxima da caverna oculta ao se aproximar de Wakanda e do trono. Sua Provação é cruzada com a de T’Challa. O ritual de desafio para se tornar rei. Killmonger se preparou a vida toda para esse ritual, seu ideal é mais forte que o de T’Challa e ele vence. A Recompensa é a coroa.

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T’Challa e Erik no ritual. Killmonger se preparou a vida toda para sua Provação.

Uma vez conquistado o Mundo Especial de Wakanda, Erik planeja o Caminho de Volta, projetar Wakanda contra o mundo. Ele utiliza as forças e tecnologias de Wakanda para preparar um ataque coordenado em várias nações, ao Mundo Comum.

O retorno de T’Challa e o novo confronto trazem a fase de Ressurreição. É a hora de comprovar seu ideal. Porém, ele já não batalha mais com a visão isolacionista de Wakanda. Dessa vez, ele perde. Sua Ressurreição falha, pois ele não foi capaz de evoluir seu ideal frente a outro mais forte e corrigido.

Ao invés de um Regresso com o Elixir, o nome “Liberdade para Viver” se adequa mais ao fim de Erik Killmonger. Ele escolhe a morte, uma saída mais honrada do que a prisão, a atual forma de manutenção do preto como subjugado. Ele morre contemplando o pôr do sol em Wakanda, a Recompensa prometida por seu pai.

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6.3. A JORNADA DE WAKANDA

Herói e vilão, protagonista e antagonista, vivem fortes jornadas no filme. Suas jornadas estão intrinsecamente ligadas à Wakanda. Ao posicionamento desse reino frente ao resto do mundo. Ao ideal defendido por esse povo.

Somado aos aspectos cinematográfico, é esse embate que faz de Wakanda uma personagem com uma jornada poderosa.

Apesar de o povo propriamente dito não ser explorado, a diversidade de visões em Wakanda é mostrada através das diferentes personalidades ao redor do rei. Nakia como espiã, Okoye como Guarda Real, Shuri como cientista, W’Kabi e M’Baku como líderes das cinco tribos formadoras do reino.

O início da trama até a captura de Klaue é o Mundo Comum de Wakanda. A sucessão de reis, a execução do ritual, as reuniões do conselho, são parte das oscilações naturais de um reino. Pode haver pressão política interna para T’Challa provar seu valor rapidamente, mas uma personagem abstrata como Wakanda precisa de tempo para se estabelecer.

O Chamado à Aventura para o reino é tardio: a chegada de Killmonger com o cadáver de Klaue como oferenda. Ocorre a Recusa ao Chamado na divisão do conselho sobre atender à exigência ao trono de Killmonger. Aquelas são as vozes que representam o reino. Nesse momento, o próprio T’Challa, mesmo resistindo, se torna uma espécie de Mentor, desatando o nó da Recusa com sua responsabilidade de rei.

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Erik é apresentado por W’Kabi na sala do trono. Confronta T’Challa pelo direito à posição de rei. Várias etapas convergem nessa cena.

O ritual é a Travessia do Primeiro Limiar, com o embate entre Killmonger e T’Challa revelando uma luta de ideias que Wakanda mantinha latentes internamente. Com a vitória de Erik, Wakanda joga fora seu antigo ideal soberano, que reinou por anos, e entra em um Mundo Especial.

A queima das flores que nutrem o poder do Pantera Negra demonstra o Ventre da Baleia, a desconexão e apagamento do ideal derrotado.

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Killmonger na sala das flores com a essência do poder de Pantera Negra.

Como personagem abstrata, Wakanda não tem tempo para viver tudo que seria típico de um segundo Ato. A transformação do reino passa pela definição de Ross e da tribo Jabari como Aliados de T’Challa. W’Kabi e sua tribo como Aliados para o novo ideal trazido por Erik. Quem chega perto de alguma prova é o grupo das mulheres que visam salvar Wakanda de Erik: Nakia, Shuri e Ramonda.

O próximo embate entre os dois pretendentes ao trono já deve ser o final, portanto a Provação deve ter outra forma e ocorrer antes. A partir desse momento, a jornada de Wakanda se confunde com a jornada de T’Challa, que leva o confronto de ideais em direção ao pai e aos antigos Panteras Negras. Vale lembrar que o isolacionismo de Wakanda não é um capricho de T’Chaka, é uma tradição seguida por todos os Panteras Negras. É no segundo encontro de T’Challa com o pai que o ideal antigo, derrotado inicialmente em batalha, enfrenta sua Provação contra a nova resolução do protagonista e efetivamente morre. Essa nova resolução de T’Challa é a nova proposta do reino. Portanto, se torna uma Recompensa para Wakanda.

O retorno de T’Challa com a nova resolução é o Caminho de Volta do próprio reino. Como um verdadeiro rei, ele carrega a Ressurreição de Wakanda em seu próprio coração. Wakanda precisou mudar para um ideal radical como o de Erik, mesmo que temporariamente, para conseguir transpor a tradição isolacionista que imperara por séculos e assumir uma nova forma perante o mundo. Ressurreição vivida no embate final entre protagonista e antagonista.

O Regresso com o Elixir é a própria abertura de Wakanda para o mundo, seja pela reunião da ONU no filme, seja pelo contato com a mesma comunidade negra nos EUA onde Erik cresceu.

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T’Challa discursando na ONU. A abertura de Wakanda, que agora navega entre dois mundos.

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Conclusão

Outros personagens apresentam seus próprios desenvolvimentos e, com isso, suas próprias minijornadas. Nakia veste a roupa de Guarda Real que sempre negara. Okoye entende que deve proteger não o trono, mas o reino em si, um conceito maior. Shuri aprende o valor das tradições e a não tratá-las como opostas à ciência.

Cada uma vive seus próprios Chamados, Provações e Ressurreições, assim como Wakanda, T’Challa e Killmonger. Não vejo nesse fato um “atestado do poder da Jornada do Herói”. Acredito que esse fato apenas descreve e nos permite estudar as histórias que sempre escrevemos, desde Gilgamesh à Harry Potter.

O que isso atesta é o poder dessa história específica. Sua capacidade de desenvolver tantos personagens e, com elementos tradicionais, milenares, contar uma história nova. Espero que esse texto traga essa sensação sobre a famosa Jornada do Herói e seja um exemplo interessante de aplicação da mesma.

Wakanda Forever.


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Apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva.