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Olá, eu sou o Yann e esse é o sexto episódio do podcast do Além do Roteiro.

Introdução

Então galera, eu tô bem animado pra fazer esse episódio porque é o primeiro episódio com uma pessoa convidada aqui no podcast.

Esse episódio de hoje, como é um episódio com uma pessoa convidada, ele vai ser um pouco diferente, ele não é tão roteirizado quanto os meus outros. Ele vai ser mais um papo sobre o Piloto de THE MORNING SHOW. Acho que vai ser muito interessante essa dinâmica nova para o podcast, para a gente ter uma nova forma de estudar essas narrativas, um processo de conversa que se assemelha muito mais com uma sala de roteiro, uma coisa viva.

Então como último aviso, vai ter spoilers sobre a [primeira] temporada de THE MORNING SHOW para quem ainda não assistiu a série da Apple TV. Mas, aviso dado, vamos lá, eu espero que vocês gostem.

Bloco 1

Yann
Estamos aqui nesse episódio sobre THE MORNING SHOW, e é o primeiro episódio com uma pessoa convidada. Estou muito feliz de começar esse tipo de episódio de gravação aqui no podcast. E mais feliz ainda que a primeira pessoa convidada é uma pessoa muito querida minha, que vocês já vão conhecer. Jessica, qual que é sua página do IMDB? Como é que você descreveria? O que apareceria na sua página do IMDB quando a galera fosse acessar? Diz aí.

Jessica
Bom, primeiro deixa eu agradecer esse convite maravilhoso, que eu estou lisonjeada de participar de um episódio, de um podcast que eu gosto muito, que tem análises e estudos que eu aprendo muito, inclusive, de ouvir. Então, muito obrigada. E estou lisonjeada de ser a primeira convidada aqui do podcast, do Além do Roteiro.

Vamos lá. Eu sou roteirista e sou assistente de produção executiva da Total Filmes, uma produtora de cinema, TV e conteúdo digital. Uma produtora conhecida por alguns longa-metragens, como SE EU FOSSE VOCÊ, DIVÃ, ASSALTO AO BANCO CENTRAL, SEXO AMOR E TRAIÇÃO, uma produtora grande no mercado e trabalho muito com desenvolvimento de projetos, recebo muitos projetos de roteiristas querendo viabilizar, comercializar as suas histórias. Apresento, a gente faz uma curadora interna.

Então, grande parte do meu trabalho como roteirista é muito também com esse viés de produção, de comercialização do projeto, muito também de análise, talvez um pouco mais do outro lado também do processo criativo, apesar de, claro, eu gostar muito de desenvolver as minhas próprias histórias. É muito interessante, mas além de ser assistente de produção executiva na Total Filmes, eu também sou coordenadora da área de mercado do Festival do Rio de Cinema, do Rio Market. Faço a curadoria do mercado junto da minha diretora. Também recebo projetos, a gente faz uma curadoria, inclusive, de seleção de repasse para os players, para fomentar negócios. E é isso, a minha listinha do IMDB é mais ou menos essa daí.

Yann
E só para eu poder tirar uma onda, vamos complementar aqui que além de tudo isso você celebrou meu casamento. Tem até esse roteiro do seu currículo também, da sua cerimônia.

Jessica
É, nas horas vagas eu sou celebrante também. Não, isso aí foi uma loucura que essa pessoa aí maravilhosa junto com a sua querida esposa Patrícia… A gente pode falar da Patrícia aqui? Não sei se pode. Beijo Pati, te amo. É uma loucura que esses dois aí fizeram de me convidar para celebrar um casamento e nem sequer pré-aprovar o texto. Ninguém pré-aprovou, ninguém quis ler, era surpresa. Isso é uma loucura, uma insanidade. Não, uma insanidade completa. E apesar de ficar dois dias sem comer ou dormir, eu acho que eu fiz um bom trabalho, o roteiro ficou mais ou menos…

Yann
Não, digno de Oscar, pelo amor de Deus.

Jessica
Não, foi bonito, foi um momento lindo.

Yann
Sim. Até por isso eu fico muito feliz de ter você aqui. E como a gente falou também por fora, né, muito mais fácil, me sinto muito mais à vontade de falar qualquer besteira, errar aqui, não tô naquela pressão de estar com uma pessoa convidada que eu quero impressionar tanto assim. Pô, estamos entre amigos, né? Vamos lá.

Jessica
Ah, não, imagina que é isso, pelo amor de Deus. Eu me sinto aqui falando com o meu melhor amigo. Absolutamente não estou falando com mais ninguém além do meu melhor amigo.

Yann
Mas além disso, tem todo esse currículo aí por trás, então, eu acho muito legal também de ter você aqui, que a gente consegue falar com pontos de vista complementares também. Eu tenho muito esse viés de estudar roteiro, estudar narrativa e compartilhar esses estudos. Você tem toda uma experiência de mercado e toda uma visão, não só do próprio roteiro, como da produção, do desenvolvimento de projetos. Então, acho que isso pode ser muito interessante para conversa.

Jessica
Eu acho que até mais da minha experiência, na verdade, mora muito na produção, principalmente na parte da produção executiva, que talvez seja uma fase de desenvolvimento de projeto em que eu atuo muito junto à minha diretora Valkyria Barbosa na captação do projeto. Eu atuo muito mais como produtora na parte da produção executiva do que como roteirista.

Eu acabo como roteirista mesmo do lado criativo, tendo uma visão um pouco mais prática, talvez uma abordagem de produção, inclusive de mercado, de sentir o porquê de certas histórias serem contadas em determinadas épocas, que é uma coisa, inclusive, muito pertinente sobre essa série que a gente vai falar, que tem tudo a ver com o timing de mercado.

Yann
Com certeza. Então, vou aproveitar essa deixa e começar a falar de THE MORNING SHOW.

Eu já fiz um sobre THE NIGHT OFF fazendo uma análise um pouco mais específica do roteiro. E eu gostaria de fazer mais isso com pessoas para a gente poder trocar uma ideia. E para começar isso, gostaria de saber: a gente reviu agora o episódio com um olhar para estudar para o podcast, pensar algumas coisas, pesquisar. Mas isso é muito diferente da experiência de ver pela primeira vez também. A gente na primeira vez é muito público. E depois o nosso olhar vai mudando com toda a questão técnica do nosso trabalho. Então gostaria de saber de você o que você sentiu de diferença? O que pegou para você quando você assistiu pela primeira vez o Piloto de THE MORNING SHOW e como foi revisitar agora?

Jessica
Nossa, com certeza. É muito curiosa essa pergunta, porque realmente, por mais que a gente que trabalha com isso seja visto como aquela expressão perna longa de batom, por mais que a gente já assista reparando um pouquinho aqui, ali, algumas coisas, a gente na primeira vez é público, é audiência e é engajado ou não pelo episódio.

Então, assim, para mim, quando eu vi a primeira vez, eu me identifiquei muito, fui engajada pela narrativa do empoderamento feminino, pelo timing que eu assisti esse episódio, ver duas protagonistas femininas, através de duas atrizes que, para quem é fã de ficção já há muitos anos, como eu, marca o reencontro das irmãs Rachel e Jill Green, as irmãs de Friends, a Rachel e a Jill, elas finalmente se reencontram numa série.

Então, para quem é público de TV, essa série gerou grande expectativa. Era um Piloto muito aguardado. E eu vi a primeira vez como audiência já com algumas expectativas, digamos assim. Principalmente por causa do histórico comercial mesmo dessa série. Porque a gente pode falar disso depois, mas houve uma mudança completa na criação, na autoria dessa série, devido a questões internas da Apple.

Então, assim, sabendo disso, pra mim, como público, a primeira vez que eu vi esse episódio, foi muito impactante ver duas atrizes muito grandes ali contracenando, e ao contrário do que eu esperava, na minha percepção, elas não foram mostradas como antagonistas naquele viés de mulheres fortes competindo. Muito pelo contrário, eu acho que elas se complementam ali. Então, eu acho que o episódio mostra duas mulheres coexistindo, na verdade, isso me surpreendeu e me engajou, eu terminei o episódio querendo ver mais sobre como elas se relacionariam e querendo embarcar naquele universo, inclusive dos morning shows, que é um formato de variedades jornalístico interessantíssimo, super consumido nos Estados Unidos e que, eu particularmente acho os bastidores divertidíssimos.

Então, quando foi anunciado o bid dessa premissa, que a Jennifer Anniston e a Reese [Witherspoon] estavam produzindo juntas, basicamente o que ficou-se sabendo era apenas esse logline, que seriam as duas nos bastidores de programas matinais dos Estados Unidos naquele estilo do Today Show e do Good Morning America, principalmente, que é a referência principal.

Então, só aí eu já tinha gostado, só aí eu já tinha achado divertido. Então, independente do tema relevante, extremamente relevante, que a série como um todo, mas o Piloto, principalmente, traz pra gente, pra muito além disso, eu já tinha entendido que seria uma premissa gostosa, uma série que eu ia gostar de assistir. Fosse um drama impactante, conceitual, artístico, fosse uma novela, que foi o que eu achei quando eu vi o primeiro episódio.

Pra mim, foi uma novelinha gostosinha, com momentos altos, mas com um diálogo um pouquinho cafoninha em alguns momentos, principalmente da Reese. Algumas frases na boca da Reese ficaram, pra mim, extremamente novelescas, o que não é um problema. Eu adoro uma novela, novela que, principalmente, que no nosso país é extremamente consumida, então não tô criticando. Mas eu entendi algumas coisas dessa forma, mas gostei muito de assistir.

Foi um Piloto que pra mim seria talvez um 6,5. Isso da primeira vez que eu assisti, tá? Seria talvez um 6,5. Essa pra mim é uma série que engata no quarto episódio, pra te falar a verdade. Mas eu terminei daquela primeira vez, engajada, gostando daquela novelinha e impressionada com a relevância, a forma como eles abordaram a questão relevante do Me Too. Quando eu vi o episódio já da perspectiva de estudar pra gente estar aqui hoje, aí eu entendi outras coisas, porque eu fui pesquisar e vi as condições em que esse episódio foi escrito.

E eu entendi o seguinte, na verdade, essa série, ela é uma coprodução das produtoras, da Reese Witherspoon e da Jennifer Aniston. E elas lançaram essa premissa, mas a criação era do Jay Carson, que era secretário de comunicação da Hillary Clinton. E a premissa era basicamente essa, que eram os bastidores de programas como Good Morning America. E aí nesse meio caminho houve o Me Too, todo um movimento denunciando abusadores e assediadores, e aconteceu tudo aquilo com o Weinstein e os homens estabelecidos no mercado hollywoodiano foram caindo um atrás do outro, inclusive o Matt Lauer do Today Show.

E aí, a Apple, que já havia comprado com o maior lance, num valor bilionário essa série, ela reestruturou toda a parte criativa, trazendo a Kerry Ehrin, que é uma produtora que eu particularmente gosto muito, ela produziu Bates Motel, produziu, escreveu Parenthood, e ela simplesmente, por questões comerciais, teve apenas três semanas para escrever esse Piloto, então ela se trancou num quarto de hotel e escreveu tudo isso em três semanas.

A única pesquisa que ela conseguiu fazer foi ler o livro no qual a série inicialmente era baseada e continuou sendo baseada. Mas além disso, ela não conseguiu ter tempo hábil de fazer pesquisa de baixadores desse tipo de programa. Ela basicamente ficou ali trancada durante três semanas e escreveu um Piloto que aí já dessa perspectiva eu considero incrível.

Por quê? Ela estava recriando um projeto, reconceituando um projeto que até então estava falido, porque já não encaixava mais naquela era pós Me Too, e ela conseguiu criar um Piloto extremamente comercial, que pegou tudo que aquele momento estava vivendo. Que era aquela coisa… E é muito baseado no Matt Lauer, naquele sentido de trazer a figura do abusador sob aquela ótica do homem branco que se sente injustiçado. Mas ainda assim, respeitando o fato de que o foco são as protagonistas mulheres. Então, enfim, aí entram diversas questões narrativas de criação de personagem, mas o contexto do surgimento desse Piloto, ele é muito interessante quando você analisa esses fatos que antecederam a criação dele pela Kerry Ehrin, que eu acho um gênio.

Yann
Muito, muito foda saber essas informações. Eu não sabia do Jay Carson criando esse projeto, esse conceito, e alguém ligado à Hillary Clinton. Vai vendo o tamanho que as coisas têm, como elas vão passando entre as empresas. E é interessante que esse projeto também é foi o grande cartão de visitas da Apple, né? Como House of Cards foi o grande cartão de visitas da Netflix, e aí a gente vê como tem… Não sei se só é uma coincidência, dois projetos com tanto teor, conexões políticas de questões meio centrais americanas, assim, em termos de mídia e política.

Jessica
Inclusive, só um adendo aqui eu li, nessa pesquisa que eu fiz, eu li que a Kerry Ehrin recusou o projeto duas vezes antes de aceitar, justamente por conta das implicações que esse projeto tem, mas também principalmente por ser o carro-chefe do lançamento da plataforma de VOD da Apple e a primeira experiência de produção original nos estúdios da Apple. Então ela sabia que seria uma barra criar essa série com esse elenco gigantesco, né? Com Steve Carell, Razy Witherspoon, Jennifer Aniston, essas três enormes estrelas. Então, assim, ela quase recusou, mas aceitou. E, na minha opinião, fez uma série incrível que, a Season Finale, para mim, redime a série de todo e qualquer possível defeito no Piloto.

Yann
Quando eu assisti a primeira vez, com a Pati, foi bem no início da pandemia. A série é de 2019, a gente atrasou um pouquinho, e foi interessante que a gente estava muito naquele momento do escapismo. Cara, não aguento mais ver o que está acontecendo no mundo, chega o vírus. Estamos aqui um ano depois, estamos no mesmo tom, com as mesmas necessidades.

Jessica
“Nada mudou.”

Yann
Pois é, exatamente. Mas aí a gente foi ver o THE MORNING SHOW e foi interessante, a gente estava querendo escapar e viu uma parada total realidade, realidade, realidade.

Só que pelo menos dava para ficar com raiva, né, de raiva dos Homens Brancos Poderosos lá da série que estavam sendo escorraçados em algum nível com muita justiça. Então pelo menos dava para focar tanta raiva que a gente estava sentindo naquele momento. Pouco tempo depois, por exemplo, a gente foi assistir CHERNOBYL e aí foi muito mais pesado em tempos de pandemia assistir CHERNOBYL do que THE MORNING SHOW.

Jessica
Qualquer coisa relacionada a clima, meio ambiente, saúde, pra mim, ficou impossível durante muito tempo. Eu preferia escapar pra uma outra realidade tão ruim quanto, mas talvez não tão presente na minha vida.

Yann
THE MORNING SHOW pelo menos os sets são tão bonitos, está todo mundo arrumado, organizo, junto, pelo menos nisso dava pra dar uma escapada.

Jessica
Dava uma não sensação iminente de morte. CHERNOBYLé uma coisa que você assiste e pensa, meu Deus, vai todo mundo morrer. THE MORNING SHOW é uma coisa que você pensa, meu Deus, a gente deveria matar todo mundo, entendeu? É uma… Gente, eu estou totalmente contra a violência, tá? É só uma piada, pra quem não me conhece. Eu sou paz e amor, super zen.

Yann
Não, somos todos paz e amor, mas concordamos que todos os homens têm que morrer. Até puxando um GAME OF THRONES aí, Valar Morghulis.

Bloco 2

Yann
E aí foi interessante para mim assistir agora porque na primeira vez acabou que eu também fui muito pego pelo conteúdo, pelo tema do Me Too e como apresentava essas duas personagens mulheres tão importantes e fortes na série, mas ao mesmo tempo com tantas questões masculinas e de como as masculinidades, o que elas geram em todo mundo, em todo o sistema, em todos os negócios, acaba causando isso. E a série conseguir equilibrar isso, eu acho uma coisa muito interessante.

O Piloto já tem muito dessa estrutura. Ainda que possa ter alguns defeitos e algumas questões, eu concordo que na parte dos diálogos, especialmente na trama da Bradley, tem muita exposição ali, uma cara melodrama.

Jessica
Eu até destaquei um para trazer essa justificativa. “We are news people.”

Yann
E é uma trama mais focada na família, né? Demora para ela entrar na questão, na questão do próprio The Morning Show, porque ela precisa percorrer um caminho muito mais longo para isso. Depois a gente também comenta sobre isso, mas tinha uma trama do melodrama, focando na família, o problema do irmão, que nem é tão importante assim na temporada, que provavelmente estava assim, plantado no Piloto para depois ganhar destaque.

Jessica
Eu achei um erro trazer isso no Piloto, inclusive.

Yann
Pois é. E aí me chamou muito a atenção esse equilíbrio desse conteúdo com essa gama de personagens tão importantes que tinha ali. Vendo agora, eu acabei até mergulhando mais nisso para pensar na estrutura. Como é que você lidava com uma série que tem duas protagonistas e ainda tem tantas tramas importantes que não dependem só delas, que tem um certo mistério sobre quem que fez a denúncia, em cima do Mitch e tudo mais.

A série ainda traz esse tipo de mecanismo de recurso narrativo para conseguir levar a trama. E isso me chamou mais atenção no Piloto, revendo agora, de como eles estruturaram essa lógica. Eu achei bem interessante. Eu acho que seria um ponto forte que eu destacaria desse Piloto, a estrutura dele, apesar de questões no diálogo como essas e tramas caindo, tem uma trama muito mais profissional em termos de foco no The Morning Show, nos problemas que estão acontecendo ali por causa da demissão do Mitch, que é o Steve Carell, enquanto tem uma trama que vai desviando para questões familiares e depois meio que é pega de volta e tudo isso some. Mas ainda assim, acho uma estrutura muito interessante.

A partir disso, acho que a gente pode ir falando sobre as nossas impressões sobre o Piloto, o que você achar interessante. Se quiser destacar alguma coisa do roteiro ou da produção primeiro, fica à vontade também para trazer aí os pontos que te chamaram a atenção.

Jessica
Eu concordo com você. O ponto que você falou da estrutura, eu queria até apontar isso. É muito interessante, o Piloto cumpre, ele é redondinho no ponto em que cumpre o seu papel em termos de estrutura. Ele apresenta muito bem a premissa, já deixa muito claro qual é a premissa da série. A Kerry Ehrin, eu acho que quando ela ficou ali trancada naquele quarto durante três semanas escrevendo aquilo, ela tinha muito em mente qual era a proposta desse Piloto que ela iria apresentar pra Apple.

Eu acho que ela consegue trazer muito bem essa premissa, deixando claro que a série vai abordar o Me Too e tudo que estava acontecendo no mundo, e ela já abre o episódio, tem uma frase, que se eu não me engano é o Chip que fala, estamos arruinados, os homens estão arruinados.

Aquilo deixa muito claro que a premissa do episódio, mas enfim, da série como um todo, é mostrar que aquele patriarcado, aquele castelo ali construído, principalmente no meio da TV norte-americana, totalmente composto por homens brancos, e que com o escândalo do Harvey Weinstein eles vieram caindo, então a série já abre com os homens, apesar das protagonistas serem as mulheres, a série começa em uma cena com homens.

Isso é muito interessante, porque a Kerry deixa claro desde o início que vocês eram os protagonistas até agora, daqui para frente não serão mais, porque vocês caíram. A denúncia, sim, é um plot interessante, é um suspense legal que vai construindo a trama, mas o Piloto cumpre muito com o seu papel, que é apresentar a premissa, estabelecer qual vai ser o foco ali, que na verdade é a relação entre as protagonistas. A gente está ali, apesar de existir esse pano de fundo, que é quem está por trás da denúncia, retomando aquela primeira cena ali, que é o que a gente vai descobrir lá no final.

Mas apesar de existir esse suspense, a gente sabe que a série é basicamente sobre a relação entre a personagem da Reese e a personagem da Jennifer. E o Piloto cumpre muito bem com o seu papel, que é o de trazer o background de uma, estabelecer essas personagens, e é engraçado que, apesar de serem duas protagonistas femininas, o Piloto estabelece muito bem a diferença entre as duas, porque são duas mulheres fortes em momentos completamente diferentes da vida e da carreira.

Enquanto você tem uma Alex Levi como uma executiva já bem sucedida na frente das câmeras, uma âncora de um jornal, uma figura importante no audiovisual norte-americano, e que, por ventura, é uma mulher que tem que esconder e silenciar a própria raiva, é uma mulher que tem que reagir como a emissora espera, é uma mulher que apesar de estar ali na iminência de ser traída e trocada, sem nem saber que ela seria substituída, ela é uma mulher que precisa se calar, ela precisa engolir a própria raiva, porque ela acaba, apesar de não concordar moralmente com a questão do assédio, para ela ali, na posição de poder dela, não é tanto sobre o assédio em si, é sobre o que significa ele ter assediado aquelas mulheres sem ter pensado nela, no que aquilo impactaria na carreira dela. Ela se sente traída por ele, não porque ele estuprou e assediou as assistentes da televisão, mas porque ele tornou impossível que ela prosseguisse na carreira dela. Ela fala, inclusive, que ele é o TV Husband dela. Então ali é mais um casamento dela que está sendo terminado. Ela se sente passando pelo segundo divórcio. E o Piloto é brilhante quando ele deixa o encontro, o confronto dos dois, do personagem da Jennifer Aniston e do personagem do Steve Carell, pro final, são os últimos minutos do episódio, que é o primeiro momento inclusive em que a personagem da Jennifer Aniston se desconstrói completamente, chega na casa dele devastada, molhada e ali ela coloca tudo pra fora, ali ela mostra que cara, você acabou comigo, quem deu a você o direito sobre a minha vida dessa forma.

Então ali e muito por causa do estímulo da personagem da Reese, que é necessário pra ela conseguir acessar essa raiva porque a Reese é o contraponto. É a mulher naquele outro momento, já em um outro momento da carreira, que é um momento mais inicial, que é um momento da mulher que sente demais.

É até interessante que no início do Piloto existe esse contraponto. Elas chegam a falar… Quando eu falo que é novelesco é porque o roteiro se torna expositivo no ponto em que a personagem da Reese chega a falar que sente demais para conseguir ficar calada diante das câmeras Existe uma cena em que eles estão indo na van, indo para aquela filmagem lá na mina de carvão, lá no protesto. Alguém está aconselhando ela falando “se controla mais”, e ela chega a falar que sente demais para isso.

Em um outro momento a personagem da Jennifer Aniston chega a falar que não consegue sentir nada, que não sente nada. É um contraponto interessante de que, sim, são duas mulheres protagonistas femininas muito fortes, mas que estão em momentos completamente diferentes. Enquanto uma coloca toda a sua raiva pra fora em busca da verdade, a outra entende que a verdade é uma questão de percepção. E ela tá no momento da vida dela de já não ter mais força pra ser a mulher complacente com a vontade dos homens.

Então, aquele final ali dela confrontando o Mitch é muito interessante, e mais interessante ainda quando ela vai embora. Mesmo quando ele implora, ela rompe ali com ele, ela rompe com o patriarcado, ela decide tomar as rédeas da situação. É lindo quando mais para frente ela anuncia a Bradley como coâncora e ela assume a decisão. Ela toma as rédeas da vida dela ali contra a vontade da emissora

Yann
Sim. É até curioso essa questão da cena dela com o Mitch no final, que quando ela está saindo da casa, “tenho que sair daqui, tenho que ir embora”, o Mitch revela como ela seria trocada pela emissora, que a emissora estava atrasando as negociações dela porque queriam substituí-la. E ela fica bolada, você está mentindo, está querendo ferrar a minha cabeça.

Ela continua indo embora e ele fala, “eu tenho uma arma”… É até meio estranho esse diálogo, acho, não sei se ele foi tão bem revisado assim. Mas não deixo de pensar também nesse lado da masculinidade, ele traz um símbolo fálico assim para tentar prendê-la ali, sabe? Eu tenho uma arma e ela fala, foda-se que você tem uma arma. Brinca com a sua arma aí, eu vou embora.

Por que ele traz isso para prendê-la, sabe? Não sei se talvez teriam outras formas de simbolizar a mesma coisa, mas eu também não deixo de ver como esse símbolo fálico que ele estava usando ali como último recurso para manter essa relação, manter esse apego com a personagem da Alex, que tinha ido até a casa dele. Porque ele também está destroçado, vendo a vida dele ruir.

Jessica
Eu já vejo a arma como apelativa no sentido da questão do machismo em que a mulher é sempre responsável por cuidar do homem. Eu acho que a arma ali ela representa… Logo antes, ele pega a arma antes, na verdade de ela entrar na casa dele. Eu acho que ele fala aquilo pra querer indicar que ele poderia se suicidar, na verdade. Então, como assim você tá indo embora e me deixando sozinho sendo que eu poderia fazer algo contra mim mesmo?

Yann
É, verdade.

Jessica
Como assim você não vai cuidar de mim? Como você vai escolher você e não a mim? Eu acho que a história do personagem do Mitch é interessante porque ele é o homem branco que se vê gradativamente abandonado por quem ele achava que antes estava do lado dele. Ela indo embora representa muito isso.

Yann
Sendo que essas pessoas que estão indo embora são exatamente as que ele traiu.

Jessica
Exatamente.

Yann
Eu não fiz essa relação de cara porque ele pega a arma porque ele acha que tem alguém invadindo a casa, e de fato tem, mas ele não sabe quem era mas eu acho muito interessante, acho que faz todo o sentido ele falar nesse sentido também de “eu posso fazer uma besteira comigo mesmo”, porque ele pede para ela ficar mais tempo.

Jessica
Exato, e eu acho que ela entende isso porque quando ela responde “Have fun with it”, ela quer dizer que “cara, eu tô escolhendo a mim, se você quiser tirar sua própria vida não é mais uma responsabilidade minha”.

Yann
Eu queria voltar na primeira cena, até saindo um pouco da questão do roteiro, misturando um pouco de roteiro e direção, a série começa, como você falou, ela começa retratando homens com o Chip, que é o produtor executivo do programa, mas ela começa com o som de trem, que é uma coisa meio estranha, o que isso tem a ver com The Morning Show, um programa de televisão matutino.

Talvez tenha um pouquinho de Nova York ali. Eu estou completamente na conjuntura aqui, só para deixar claro. Mas pode ter alguma coisa a ver com Nova York, o metrô é um símbolo da cidade de alguma forma. Mas eles estão ali, 3 da manhã, no meio de uma emissora, vem um som de trem passando, aquele chiado dos trilhos. Começa a mostrar a tela, uma tela de TV sem nenhuma exibição, com aquelas faixas coloridas e a câmera vai aos poucos até chegar no Chip que está deitado do lado do celular.

Eu acho interessante pela forma como os sons foram sendo trabalhados e a imagem até chegar no Chip, se a gente for pensar ele é o protagonista daquela cena. Então todos esses efeitos que estavam sendo usados eles são pensados para indicar o estado emocional pelo qual ele está passando. Isso já é uma indicação na primeira imagem do episódio, no primeiro som do episódio, ou seja, da série inteira, já está indicando até uma resposta sobre o mistério, que é uma questão do roteiro, que a série tem pra colocar.

Aqui não tem essa de spoiler, porque estamos estudando o roteiro, tem que falar mesmo. Já está lá nos avisos também, então, sinto muito pra quem ainda não assistiu, corre pra assistir. Mas a gente vê na primeira cena o Chip recebendo essa ligação e falando “fudeu”, basicamente, “estamos arrasados”, porque ele está recebendo a notícia da demissão do Mitch, mas na verdade foi ele que fez o vazamento.

A gente está passando pelo estado emocional dele porque ele sabe que ele fez aquilo e ele não faz a menor ideia do que isso vai dar, o que isso vai causar para a Alex, que é quem ele queria defender com a decisão que ele tomou de vazar [a informação do assédio do Mitch], o que isso vai causar para a emissora, o que isso vai causar para o emprego dele. Então tudo pode ruir ali, de fato.

Eu acho interessante isso como escolha narrativa, porque já bota a gente na origem do mistério que vai ser traçado na temporada para a gente poder acompanhar e ficar instigado, engajado. Os últimos episódios do podcast eu até vim falando sobre tensão, e tinha muito a ver com isso de jogar perguntas que você vai querer que o público vai querer resposta, promessas de coisas que vão aparecer. Mas também acho interessante nesse sentido do tema do machismo, do patriarcado que vai sendo ruído para mulheres tomarem esse espaço e assumirem o protagonismo, mas é um homem que faz esse movimento, é um homem que dá o peteleco nos dominós que vão ruindo ali na peça.

Precisou de um homem nesse papel, pelo menos dentro dessa narrativa, para que esse castelo de cartas pudesse cair e a Alex e depois a Bradley aparecendo no The Morning Show, elas pudessem tomar esse espaço e dominar esse ambiente. Então, eu acho interessante isso porque mesmo que isso não seja a única forma de fazer isso acontecer, não deixa de ser uma das, e mostra um papel que homens podem ter também no mundo nesse sentido, de fazer parte desse desabamento necessário de poder concentrado na mão de homens brancos.

Jessica
Com certeza. Eu particularmente gosto muito dessa estrutura de roteiro, independente da questão do feminismo, do machismo, do patriarcado, eu gosto muito dessa estrutura, que é de você já apresentar um indicativo do que vai ser a sua trama, do que você vai fechar lá no final da sua primeira temporada. Eu acho muito interessante esse formato que a gente pode ver brilhantemente em algumas outras séries como referência. Por exemplo, DAMAGES faz isso muito bem, em que você tem ali uma abertura de um episódio em que você tá mostrando uma cena em flash-forward de uma narrativa que você vai construir até chegar nela novamente e entender o que estava por trás daquele suspense ali que na verdade vai ser a sua trama central da temporada.

Você tem também uma pegada já numa série mais comercial você tem HOW TO GET AWAY WITH MURDER que faz isso que abrindo o primeiro episódio de Pilot, se não me engano, é a cena deles enterrando o corpo do Sam, e aí você tem essa volta para construir todo arco da temporada até chegar nesse momento.

Eu acho que THE MORNING SHOW usa esse recurso também de uma forma muito interessante, que é da gente descobrir depois que, na verdade, quem mobilizou tudo aquilo, deu início a tudo aquilo, foi o próprio Chip, que estava ali deitado, já esperando aquela ligação que ele sabia que viria, porque quem fez a denúncia foi ele. Eu acho isso muito interessante para a gente realmente refletir sobre o papel dos homens, e aí já retomando o que você falou, do papel dos homens nessa questão.

Interessante você ver que a série, não sei se foi proposital ou não, mostra de um jeito muito brilhante no simbolismo de que quem denuncia é um homem, quem faz a besteira é um homem, quem decide… E aí a gente tem o personagem do ator, que eu esqueci o nome, que é o executivo…

Yann
O Cory?

Jessica
É, o Cory, que é o executivo da emissora, que, no final das contas, é ele que está sendo beneficiado com tudo aquilo ali, é ele que decide quem fica, quem sai, como é que o The Morning Show continua. Então é interessante você ver que no final das contas, todos os catalizadores são homens, então por mais que você esteja fazendo uma série numa era pós-Me Too, com duas protagonistas femininas enormes e gigantes, ainda assim você precisa de homens cedendo esse espaço para que as coisas realmente mudem de alguma forma.

Yann
E voltando para a questão estrutural, uma coisa que eu acho interessante também, nessa lógica do mistério plantado. Já é apresentada uma pergunta que a gente vai querer saber a resposta nessa primeira cena, porque a gente não sabe o que aconteceu. A gente só sabe que o cara falou “fudeu”. Aí logo depois, ele liga pro personagem do Steve Carell, o Mitch, e ele já pergunta assim, “É melhor alguém ter morrido”, pra ele estar ligando antes das 3 e meia da manhã. Basicamente, ele próprio que está morrendo, que está sendo demitido. Mas a gente ainda não sabe o que é isso. Só sabe que ele fica com uma cara de tacho, tipo “o meu mundo caiu”.

Depois o Chip liga ainda para Alex, aí a gente começa a ver a protagonista, de fato. Já fica bem claro como as cenas vão sendo construídas, que ela vai ser a protagonista desse episódio, porque ela já vai ganhando muito mais destaque, atenção. A gente vai vendo o dia a dia dela com um nível de detalhe muito diferente de como estava vendo dos outros que apareceram só para aquele beat narrativo necessário que precisava ser passado. Mas é interessante que ela nega a ligação do Chip.

Então, isso tudo vai guardando a informação. A gente não descobre ainda o que é esse primeiro mistério. O que é que “fudeu”, que a gente não sabe, o que está ruindo. A gente vai demorar cerca de seis minutos para descobrir que é só quando ela chega na porta da emissora, que o Chip está lá na porta e aí ela fala a mesma coisa: “O quê? Alguém morreu?”

Ele está com aquela cara e logo depois a gente descobre que o Mitch foi demitido. Isso de certa forma emula na apresentação do incidente incitante o próprio funcionamento da estrutura da série. A gente tem um mistério que é quem fez o vazamento da demissão do Mitch. Mas antes de apresentar esse mistério, a série apresentou um mini mistério, que durou seis minutos, para chegar no incidente incitante que é, o que é que aconteceu? E a gente descobre que é essa demissão.

A gente já fica construindo ali a partir de uma pergunta, e eu acho interessante como isso deixa um espaço para a série respirar. A gente fica um tempo com o personagem da Alex, a Jennifer Aniston se preparando, vendo toda aquela maquiagem, todos os exercícios e coisas de preparação que ela faz antes de ir para o trabalho, porque nisso a gente está vendo o custo que tem para ela… A carreira que ela tem, a vida de uma âncora num canal, num programa tão importante.

Jessica
A gente já estabelece o que significa para ela arruinar tudo aquilo antes mesmo de a gente saber que aquilo tudo foi arruinado. Nesse aspecto, eu acho brilhante a forma como a personagem da Alex é introduzida.

Yann
Tem um detalhe que eu acho muito interessante, que é como a última coisa que ela pega no processo todo de se arrumar, fazer a maquiagem, roupa, estar na casa, ela vai arruma a bolsa dela, e a última coisa que ela pega é a aliança, e ela bota a aliança de volta na mão, que ela estava sem. E aí ela entra no elevador e está pronta para ir.

Então já mostra… Também acho que esse plot não é tão trabalhado, essa questão familiar assim dela, porque… E de fato é muito mais interessante o que está se passando com ela no programa do que na vida familiar dela. Mas não deixa de mostrar já esse lado do custo, o custo na vida pessoal, porque ela já tem que esconder o fato de que ela está divorciada. Ela tem uma imagem a zelar, ela tem uma máscara a projetar, que não é só para os colegas de trabalho dela, é para os Estados Unidos inteiro, porque eles têm esse papel também nesse casal, par Alex e Mitch, de um casamento como âncora do programa, eles são pais do povo americano.

Jessica
Eles são o nosso William Bonner e Fátima Bernardes.

Yann
Exatamente, eles eram ali pai e mãe da manhã dos Estados Unidos.

Jessica
Olha como a gente sofreu quando eles se divorciaram.

Yann
Exatamente. E aqui no ENCONTRO COM FÁTIMA BERNARDES, a gente tem a Fátima Bernardes liderando um programa de destaque matutino brasileiro, sozinha. A Alex passando por isso também.

Jessica
Eu queria saber o que Fátima Bernardes achou dessa série, dessa personagem. Será que ela se identifica?

Eu acho realmente muito interessante. Eu não tinha prestado atenção nesse recurso narrativo que é feito para introduzir a personagem da Alex e alguns outros personagens e inclusive o estado emocional do personagem do Chip que já é introduzido muito ali com aquela mixagem que você mencionou do trem da cidade de Nova York, também sendo introduzido como personagem, claro, isso eu acho muito interessante.

E realmente a gente conseguiu segurar ali, você falou, seis minutos, um suspense que, quando é revelado a gente já entende a magnitude do incidente incitante. Não deixa de servir como um contexto muito bem feito em relação ao incidente incitante, muito legal isso, não tinha percebido.

Yann
Até ficando ainda nessa questão do trem já virando aquela parte bem nerd, me lembrou um pouco, não faço a menor ideia se foi de propósito isso, mas quem está fazendo esse tipo de trabalho dessa magnitude é completamente lotado e dominante das referências que estão em disposição. Então não duvido que tenha sido de propósito, mas aquele trem me lembrou uma cena icônica do O PODEROSO CHEFÃO, que é a cena do Michael Corleone decidindo que vai matar o policial e o Solozzo, que foi o cara mandante do atentado contra o Dom Corleone, o Marlon Brando. Naquela cena, quando ele está no restaurante, depois de ele pegar a arma já no banheiro, ele ele fica pensando ali se ele vai fazer aquilo ou não. A gente vai focando na cara do Michael e vem exatamente o som de um trem.

Eles também estão longe de uma linha de trem, a princípio. Não foi mostrado no cenário, nada do tipo. Eles estão dentro de um restaurante. Mas esse som do trem no trilho, passando como se fosse um metrô, mostra pra gente o processo do Michael Corleone de tomar aquela decisão.

Como essa cena vai passando pelas coisas, até chegar no Chip, vai focando na cara do Chip até ele atender o telefone, e teve esse mesmo recurso sonoro, me vem assim, talvez tenham se inspirado nisso, seja uma referência, um paralelo que tenham feito.

Jessica
Me faz pensar que isso foi inserido propositalmente. E se foi, né, aí não sei se a direção levou isso em consideração, mas se isso foi inserido propositalmente, faria sentido o símbolo dele estar ali decidindo matar com essa carreira ou o patriarcado de alguma forma.

Bloco 3

Yann
Uma outra coisa que eu acho interessante nesse episódio, eu gosto muito do início e do final dele, basicamente, que é a parte que não está tanto com essa parte mais melodramática. Como você falou, não é um problema em si, mas em relação à proposta da própria história, eu fiquei mais engajado nesse início que tinha esse tom de mistério sobre o que a gente tem que entender ali, e no final que a gente tem os grandes embates, que é a Alex com a própria Bradley, quando a Bradley é entrevistada no The Morning Show por causa do vídeo dela que viralizou no protesto lá de carvão, e quando a Alex vai para o encontro com o Mitch. Para ela, como você falou, desabar ali e colocar todos os sentimentos dela por conta do que o Mitch provoca na vida dela, tudo que ele está arruinando ali.

Nesse início, eles têm muita coisa a entregar, muita coisa a mostrar. E eu acho interessante como nesses primeiro seis minutos, eles ainda estavam nessa lógica do incidente incitante, de revelar para a gente o que é a trama principal, o que a gente precisa entender, que a gente vai ver ali ao longo da temporada. Mas dali para frente, em mais oito minutos, ou seja, no tempo mais ou menos de 14, 15 minutos do episódio, a gente já tinha cerca de seis histórias sendo mostradas.

A gente já tem o objetivo da Alex de sobreviver no The Morning Show, dominar ali o que vai acontecer no primeiro programa sem o Mitch, mas que já se transforma num objetivo também do programa em geral. O que vai ser o The Morning Show daqui para frente? Isso já vai motivar uma série de personagens.

A gente tem a Bradley querendo trazer a verdade para o jornalismo dentro da forma dela que, de início, está dentro da lógica do protesto do carvão, que ela quer conseguir trazer a verdade de toda a nuance e complexidade daquele protesto, mas que depois entra no embate dela com a Alex, porque a Alex duvida da veracidade dela.

A gente tem a Alex querendo renovar com a emissora e a emissora está enrolando. Isso já se cruza com toda a questão de como vai continuar o The Morning Show. Tem os secundários, âncoras de, por exemplo, o Homem do Tempo. Mas tem pelo menos três âncoras secundários ali que querem essa vaga que surgiu. Tem até uma cena que é o Daniel e eu me esqueci o nome da outra personagem, que eles estão na fila de uma exibição de teatro, uma peça de GILMORE GIRLS, e o Daniel, que é o âncora negro, ele fica falando mal do Gilmore Girls. “Tipo, que nome é esse?” Ele meio que está protagonizando esse ponto, esse núcleo, isso até é uma coisa noveleca também, esse núcleo de personagens que estão interessados nessa vaga.

A gente tem esse lado da Bradley, familiar, que tem o irmão e que acaba depois não tendo tanta relevância na temporada. E o próprio Mitch. Porque o Mitch vai lutar contra essas acusações, então ele também é um personagem com um objetivo próprio. Ele também é protagonista de uma trama dele própria.

Então a gente vê aí pelo menos cinco, seis tramas que já são apresentadas no Piloto, isso não é algo trivial de se fazer. Tem uma complexidade de se conseguir apresentar tantos personagens e tantas tramas ali. Acho também um pouco mais comum nesses projetos mais “premium” que a gente vai vendo de uma hora, dos VODs, com grande elenco, que tem uma complexidade estrutura de ter várias tramas. Alguns dramas que a gente veria com quatro, cinco histórias já seria muito, e a gente consegue ver até com seis. Eu acho interessante como eles conseguem demonstrar isso tudo em 15 minutos de episódio. A partir daí, eles vão evoluindo essas tramas. Algumas melhor, algumas pior, algumas com diálogos com um pouco mais de rugas, digamos assim, um pouco mais de questões que a gente teria para falar.

Jessica
Eu, particularmente, tenho uma certa dificuldade em encaixar essa série no nicho ao qual ela pertence, porque, como você falou, é uma série que é construída com episódios longos, porém, poucos episódios por temporada, para um formato de VOD, que seria ali o primeiro grande projeto de lançamento da Apple TV.

Só que ela tem uma abordagem novelesca e um tom dos diálogos que não é compatível com, por exemplo, a fotografia já um pouco mais conceitual em alguns momentos. Eu sinto que existem algumas contradições na produção mesmo dessa série que me faz ficar um pouco na dúvida sobre o público-alvo dela, sabe?

Como você falou, até 15 minutos do episódio a gente tem seis tramas diferentes sendo apresentadas. Eu, particularmente, acho que o season finale dessa série é muito interessante, mas eu acho que ela abre muitas frentes. Eu acho que ela entra num formato de série que talvez queira focar menos, até para ter uma continuidade, porque o projeto foi fechado já com duas temporadas. Então, talvez para ter uma continuidade eles se aproveitaram da criação de outros núcleos. E aí acabou ficando numa pegada um pouco novelesca, que eu acho uma contradição com alguns outros aspectos técnicos da série.

Como você falou, a gente tem diversos núcleos nessa série sendo construídos, e na minha opinião, apesar de ter, talvez, eles terem aberto núcleos demais, eu acho que essa série tivesse focado mais nessa trama principal, nessa premissa, e mais na relação das protagonistas e da decadência do Mitch, e daquela coisa dos bastidores mesmo, do programa matinal, eu acho que talvez a série seria um pouco mais redonda, um pouco mais, na minha opinião, um pouco mais interessante.

Mas uma coisa muito interessante é que dentro desses núcleos a gente tem o personagem do Mitch, que é um catalisador de tudo isso que acontece, um homem importantíssimo na série, e eu acho muito engraçado que tem até um episódio aqui do Além do Roteiro, acho que é o segundo episódio, que você faz a análise do Michael Scott, que é o personagem do Steve Carell na série THE OFFICE.

Na série THE OFFICE, o Michael Scott fazia aquele homem branco executivo que era um babaca. E você usa essa palavra “babaca”. E hoje a gente tem o mesmo Steve Carell fazendo o Mitch, que já é um personagem abusador.

E aí eu coloco um questionamento. Você vê que THE OFFICE foi há anos atrás, agora THE MORNING SHOW muito mais atualizada. Será que o que mudou, na verdade, não foi a nossa percepção sobre o que é aceitável e o que não é? Será que o nosso tão amado personagem do Michael Scott também não era problemático? Será que ele não era muito mais do que um babaca e jamais deveria ter sido tão idolatrado dessa forma? Então fica aqui essa provocação, porque eu vi inclusive, quando eu estava pesquisando um pouquinho sobre THE MORNING SHOW, eu vi uma matéria falando que fãs pararam de assistir THE MORNING SHOW, porque não queriam perder a imagem do Michael Scott, porque o Mitch estragava aquilo.

E aí, eu coloco esse questionamento. Será que a gente deveria realmente não pensar nesses executivos e como as coisas são?

Yann
Acho muito interessante isso, porque é difícil se desassociar da imagem do Michael Scott com o Steve Carell. É muito marcante esse personagem. E é até curioso isso, como as pessoas desistiram para proteger o cristalzinho da imagem que fizeram do Michael Scott.

Mas, cara, eu concordo completamente com você, é bom a gente rever que no início ele era um completo babaca. Não à toa a série teve um trabalho de fazer uma redenção para ele, de suavizar aos poucos e depois criar um arco de redenção, que aí, de fato, dá para ter um carinho, uma empatia com Michael Scott ao longo de THE OFFICE. Acho que ainda dá para ter ainda hoje, até porque eu assisti a série só em 2019, então eu não estava com a cabeça lá de 2005, mas ainda assim, no início da série, eu tinha certa dificuldade.

Jessica
É que, inclusive, acho que eu cheguei a ler rapidamente que faz parte, inclusive, do processo comercial da série, quando a audiência começou a cair, eles fizeram uma reconcituação do Michael Scott para que ele fosse mais querido, que ele passasse a ser mais querido mesmo.

Yann
E eu acho interessante que até a própria carreira do Steve Carell também tem essa coisa… Ele se destacou muito na comédia, começou na comédia, estourou com THE OFFICE, com O VIRGEM DE 40 ANOS. Mas nos últimos anos, ele foi caminhando para o drama, e isso vai potencialmente desfazendo um pouco essa imagem tão marcante que ficou do Michael Scott com essas escolhas de trabalho. Mas eu acho muito legal ele topar, fazer esse tipo de personagem.

Eu só espero que não seja como o Kevin Spacey de fazer um personagem que, na verdade estava dizendo muito sobre ele… Eu espero que no caso dele seja só uma busca de desafio mesmo, e de acreditar na mensagem da série, do projeto.

Jessica
Eu espero, porque o Steve Carell é um dos poucos homens que eu ainda acredito, confio e gosto, viu? Acho que ele é um excelente ator. E gosto muito daqueles filmes mais… Qualquer filme que ele faz, eu gosto muito, inclusive. Sou grande fã.

Yann
Agora eu me lembrei de uma coisa que eu queria voltar, que nessa lógica que a gente falou de serem duas protagonistas fortes, e você até falou no início como elas não são exatamente antagonistas uma da outra, o que é uma coisa importante em todas as discussões relacionadas ao feminismo, mas existe um antagonismo em termos de conflito, existe um conflito entre elas, especialmente nesse episódio Piloto. Isso eu acho muito legal até pro funcionamento de serem duas protagonistas, porque se o momento mais importante do episódio é entre a Alex e o Mitchell, entre a Bradley e o Cory, como é que a gente justifica que são essas duas protagonistas?

Mas não, existe um momento de clímax entre as duas, já direcionado ali no final do episódio.

Jessica
Que é aquela entrevista, né?

Yann
Pois é, aquela entrevista, e ali há de fato um embate, um conflito, porque a Alex duvida da veracidade, da autenticidade da Bradley naquele vídeo, enquanto a Bradley carrega com muita força essa questão da autenticidade. E nesse conflito ela acaba dizendo muito, como um espelho, sobre as questões da própria Alex. Como é que ela não sabia sobre o Mitch? Como é que ela vai vender para os Estados Unidos que ela é honesta se ela estava 15 anos com ele? Então eu acho isso muito bem costurado nesse episódio.

Jessica
Eu acho muito interessante porque eu até li uma entrevista da criadora da série falando que não queria construir nem antagonistas, nem melhores amigas. Ela queria construir mulheres fortes que trabalhassem juntas, mas claro que elas são protagonistas, é claro que o conflito mais importante é aquele momento da entrevista, é o embate das duas, aquilo que a gente vai o episódio inteiro esperando para acontecer.

E aquilo, para mim, fica muito claro como naturalmente elas se provocam, e isso pode ser de um jeito positivo ou negativo, vai depender de como elas vão desenvolver essa relação entre elas, mas é interessantíssimo entender que a personagem da Jennifer Aniston, a Alex, está num momento muito diferente da vida dela, a personagem da Reese, a Bradley, está num outro momento da vida dela, e a forma como foi construída, nessa narrativa, a criação dessas personagens, para que uma se entrelasse com a outra, é muito interessante, porque fica muito claro que enquanto uma sente demais e a outra sente de menos, é interessante ver como a Alex se sente desestabilizada por alguém ainda tão idealista, ainda mais jovem, ainda com aquela sede de mostrar a verdade, e se posicionando e confrontando, de uma certa forma, ainda que indiretamente, a própria postura que ela tem com essa situação do Mitch e com as denúncias que foram feitas.

Então, eu acho que é interessante ver como as duas personagens não necessariamente são antagonistas, mas elas se complementam positivamente. Eu acho que a Alex, naquele momento, ela vê retratado ali um idealismo que ela perdeu. Eu acho que ali, naquele silêncio, tem um momento muito interessante que a Reese fala que ainda existem pessoas não cínicas que acreditam na verdade, que precisam, querem ver a verdade. Ela para e fala, “like you”, como você. A Jennifer Aniston, a Alex, pausa. Naquele momento a expressão facial, a Jennifer Aniston tá atuando maravilhosamente bem, você consegue ver na expressão facial dela que ela se questiona se ela ainda é uma dessas pessoas que busca a verdade, que valoriza a verdade. E ali eu acho que ela começa a ter uma virada. Eu acho que a personagem da Reese faz com que ela consiga ter essa virada, e conseguir trabalhar essa raiva dela e colocar isso para fora. Eu acho que esse arco da personagem só se torna possível a partir da personagem da Reese.

Então eu acho que em vez de antagonistas, elas são mulheres que aprenderam a não competir numa sociedade que foi feita para que elas competissem, se odiassem, elas aprenderam a somar. E o Piloto deixa isso muito claro, que apesar daquele momento da entrevista, do embate entre elas, ser o conflito principal, da narrativa do Piloto, você entende qual é a dinâmica entre as duas. Eu acho isso brilhantemente construído, principalmente considerando que ela escreveu isso em três semanas.

Yann
E com mais tempo para desenvolver o resto da temporada, muito legal como isso se reflete no final, que a última decisão, a última cena, vem da Alex. E com a Bradley como esse suporte, como uma aliada que ajudou a Alex a fazer o seu arco de personagem, a sua jornada.

Assim como a própria Alex também ajuda o da Bradley, mas essa chamada que a Bradley dá nela vai refletir na decisão final que a Alex toma, que é uma decisão sobre a verdade, sobre a autenticidade, depois de tudo que acontece na temporada.

Jessica
E sobre também ter uma mulher numa figura de poder dentro de uma história como essa. A gente teve recentemente no Brasil, inclusive, casos, como o caso do Marcius Melhem, por exemplo, que envolveu pessoas, mulheres executivas de alto escalão da Rede Globo, que, enfim, tiveram que se posicionar dessa forma.

Então, assim, é totalmente real. As mulheres são cobradas a se posicionar o tempo inteiro. E elas têm um momento da tomada de decisão delas que eu particularmente não julgo, porque o machismo, ele afeta todas nós de formas diferentes. E eu entendo a mulher que, apesar de tudo, conseguiu vencer, chegou lá e se tornou uma executiva de sucesso, e, de repente, ela se vê numa posição em que ela muito possivelmente vai ter que arruinar tudo pra corroborar uma denúncia contra alguém… Enfim, são questões, é complicado você julgar as decisões que uma outra mulher que também sofre com isso toma, sabe?

Bloco 4

Yann
Ainda ficando nesse embate, a construção de personagem delas, especialmente da Bradley, no caso, acho que é uma coisa interessante nesse Piloto, com essa informação de que ela teve três semanas para escrever esse Piloto, eu acho que isso reflete muito inclusive, porque ela é uma personagem mais jovem, mas ela não é tão mais jovem, ela não chega a ser uma novata, ela é uma pessoa com muita experiência, mas que se ferrou na carreira. Alguns dos diálogos que eu acho mais fracos, com menos revisão no episódio vem até disso, na hora que tentam justificar por que ela não é uma pessoa tão bem na carreira quanto a Alex, por que ela não tem sucesso.

Falam do “Two Fucks Jackson”, que ela falou dois “fucks” ao vivo na TV, e ela ficou na geladeira no mercado, já tem 15 anos de experiência, mas ficou na geladeira, e isso é bem aquele momento que tem dois personagens falando uma informação que os dois conhecem. Por que eles estão falando se os dois já sabem da mesma coisa?

Jessica
Sim, porque o diálogo bem expositivo, meio preguiçoso, né?

Yann
Mas aí uma coisa que isso me faz pensar, a Bradley não consegue ser uma personagem muito ativa nesse episódio Piloto. Ela vai ter vários momentos muito ativos, muito fodas na temporada, mas ela precisa alcançar o The Morning Show. Ela está numa posição mais distante. Enquanto a Alex está ali dentro do meio do núcleo, do furacão, ela vai tentar dominar como que o The Morning Show vai acontecer dali pra frente, enquanto a Bradley está no meio da Virgínia, um estado longe de Nova York. A Alex até brinca com isso, errando o nome da cidade de propósito logo depois da entrevista.

A Bradley está lá com os probleminhas de família dela, são problemões na verdade, mas dentro do núcleo da série, probleminhas no sentido de que são distantes, e com a questão do protesto ela só está focada naquilo e de repente ela vai ser jogada no The Morning Show. Então eu fico pensando como é o desafio de construir essa personagem da Bradley, sabendo que ela parte de um lugar tão distante de onde está o núcleo da história e sabendo que você precisa carregá-la para lá.

É quase que inevitável que ela seja um pouco mais passiva. E aí eu fico pensando, será que ela conseguiria carregar uma série, conseguiria carregar uma história, pelo menos um primeiro episódio, sendo uma protagonista única? Porque a Alex toma o protagonismo do episódio, e ela é superativa e ela está no centro da coisa, e eu sinto que isso dá o espaço para a Bradley ser passiva, como ela é no primeiro episódio. Depois ela pode começar a tomar mais ação da própria trama dela.

Isso foi uma coisa que eu fiquei pensando na estrutura, e eu não sei o quanto é algo que eles conseguiram arquitetar e o quanto veio também de uma impossibilidade de prazo, e foi o que eles conseguiram fazer ali. Mas eu acho interessante essa dinâmica entre as duas. São duas protagonistas da série, mas uma claramente é muito protagonista do episódio, enquanto a outra, quase que… A própria construção de personagem forçou ela a uma postura um pouco mais passiva, até que ela esteja no centro do furacão e aí, beleza, segundo episódio, agora ela vai poder tomar decisões, vai poder influenciar o que acontece dentro do The Morning Show.

Jessica
Eu, particularmente, acho que a construção, a introdução do personagem da Reese foi um pouco mal feita. Depois de saber que ela escreveu isso nesse tempo recorde de três semanas, eu já entendo um pouco melhor, mas eu acho que realmente foi um pouco mal feita essa jornada da personagem, daquela coisa do underdog, que vai subindo na vida, a menininha do interior que vai ser âncora no jornal da cidade grande e vai subindo.

Eu acho que esse plot é muito legal, a gente gosta de torcer por uma personagem como a Bradley, mas ela se torna boba e superficial no momento em que você não constrói tão bem esse contexto dela. Justamente naquela cena que você citou, que eles mencionam o que aconteceu, você não constrói muito bem, você não vê ela sendo talvez ali a jornalista fracassada, entre aspas, da cidade dela, sabe? Você não vê ela passando por isso.

Eu acho que o Piloto se apressa um pouco pra jogar a Bradley já em Nova York. Eu acho que acaba não construindo tão bem isso, por isso eu até fico um pouco novelesco, eu acho que peca um pouco pra mim nesse sentido. Acho que, não é que a Bradley seja passiva, acho que você vê o tempo inteiro que ela não é, muito pelo contrário, ela quer o tempo inteiro a verdade e mostrar raivosamente a verdade, tanto que ela arruma aquela confusão no vídeo que viraliza, e ela não deita pra Alex, mesmo que a Alex seja aquela âncora mulher executiva, experiente, que ela admira, quando a Alex, naquela entrevista final, interpela ela, questionando ela ter se equivocado na profissão dela sobre mostrar a verdade, ela não abaixa a cabeça, ela devolve para a Alex de uma forma que a Alex para para pensar.

Ali ela consegue mostrar que ela não vai ser aquela personagem do underdog, ela consegue mostrar que ela é uma personagem que vai crescer na série e que a gente vai ver muito mais. Só que até ali ela fica rasa, porque, mesmo quando eles mostram ali o conflito do irmão, da mãe, é quase uma barriga no roteiro. Aquilo ficou tão superficial que você não entende a nuance da profundidade do quanto a Bradley quer se tornar bem sucedida, uma jornalista respeitada, e do que ela tá abrindo mão. Não, muito pelo contrário.

Da Alex, você vê perfeitamente tudo isso. Agora, da Bradley, você não tem tempo, não tem espaço no roteiro.

Yann
No caso da Bradley, fica muito essa questão dela estar exausta, então eles ficam jogando como a vida dela causa exaustão com essas coisas de problemas de família e tudo mais, mas que não cruzam exatamente com essa questão do objetivo da personagem. Fica essa ideia que está no diálogo, inclusive, ela fala diretamente para o irmão dela, o que é uma cena até meio doída para mim, que ela fala para o irmão dela que ela teve que abrir mão de tudo na vida dela para poder cuidar do irmão e da família, sendo que era um momento que o irmão estava sendo o aliado dela na conversa com a mãe dentro da casa.

E aí eu fico tipo, cara ele está te ajudando, ele está concordando com você na verdade. E aí você está jogando toda essa raiva nele. Nesse momento fica até um pouquinho difícil de torcer por ela.

Acho legal notar como Personalidade é diferente de Função na trama, ela não tem agência na trama nesse episódio, praticamente. Ela é levada para o The Morning Show, ela está indo cobrir um protesto que é o trabalho, as coisas acontecem ali, ela estoura. A única agência que ela tem é pedir demissão, e esse pedido de demissão não ressoa, não causa impactos, porque ela já é chamada para o The Morning Show e já vai receber um convite de trabalho no episódio seguinte. Então não chega a gerar um drama do fato de ela ter pedido demissão e ficar sem trabalho ali.

Agora, em termos de personalidade, visivelmente ela é muito ativa, não tem nada de passiva. Mas essa personalidade não traduz na agência.

Jessica
Mas eu acho que até o fato de ela ter arrumado a confusão lá no vídeo que viralizou foi uma escolha da personagem. Eu acho que uma pessoa que não toma atitude não teria jamais interpelado aquele cara daquela forma. A forma como ela fica perguntando repetidas vezes sobre as informações acerca do carvão, aquilo ali é ela decidindo que ela não vai ficar calada, que ela não vai aceitar um cara falando coisas incorretas para ela e ainda dizendo que ela estava proferindo fake news. “Aqui não, pelo amor de Deus, eu cansei. Se fosse ontem eu até aceitava, mas agora não.” (risos).

Conclusão

Yann
Eu tô amando esse papo, mas daqui a pouco tem Karol Conká sendo eliminada no Big Brother. Por isso a gente também precisa começar a se encaminhar. Isso já dá uma dica, né? Estamos gravando na terça-feira aqui do Big Brother. Exatamente no dia de Karol Conká no Paredão.

Pra gente poder se encaminhar pro final, eu queria perguntar pra você, nesse processo de rever o episódio, estudar, pesquisar, o que você tira de principal lição desse Piloto de THE MORNING SHOW?

Jessica
Olha, eu acho esse episódio um acerto. Interessantíssimo pra introduzir uma plataforma pro mundo. Acho que é um elencão. Acho que a Kerry Ehrin, que foi chamada super em cima pra substituir o Jay Carson e fazer um episódio de roteiro em três semanas, eu acho que ela fez um excelente trabalho. Eu acho que o final, inclusive, da primeira temporada é brilhante. E de lição pra mim, fica o quanto a empresa, o canal, no caso a Apple, foi inteligente, foi estratégica em reconceituar a série a partir do momento pós-Me Too que a gente viveu. Fica a lição de como o mercado precisa parar para entender o que o mundo está vivendo, o que o mundo precisa e quer assistir. Então acho que de lição fica aí essa estratégia muito bem feita da Apple em transformar THE MORNING SHOW numa série falando diretamente sobre isso.

Yann
Como o meu viés de ficar estudando a teoria de roteiro, fica mais destacado pra mim como como funciona bem a estrutura desse episódio, apesar das questões que a gente falou de trama e de diálogo, principalmente em relacionadas à Bradley, que para a gente não funcionou tanto, mas ainda assim, acho que é uma estrutura que funciona muito bem, que consegue usar uma lógica de mistério numa história que não é de suspense, mas é o mistério no sentido de manter o engajamento do público, manter perguntas. E isso dentro de uma estrutura que poderia ser muito complexa pela quantidade de personagens importantes, por ter duas protagonistas geograficamente separadas e que precisam se unir, e ainda assim, conseguem fazer isso de uma forma que é convincente. Ainda que tenha esses percalços na parte mais da Bradley, que era um desafio de fato, na minha opinião, mas pra mim conseguiu funcionar de uma forma muito convincente

E eu acho muito, muito, muito boas as últimas cenas do episódio, como termina, por exemplo, apesar de a Alex ser a grande protagonista do episódio, termina numa cena da Bradley, pra já dar uma dividida nesse destaque, mostrar como a Bradley também é importante pra história, então eu gosto muito da estrutura e acho uma lição muito interessante de tirar.

Fechando THE MORNING SHOW, antes da gente partir para o que está parando o Brasil nesse momento você tem alguma outra coisa que não seja o Big Brother e o Paredão da Karol Conká pra indicar pra galera que você tem assistido, que você está curtindo, que as pessoas deveriam ver?

Jessica
Ó, eu vou confessar que meu guilty pleasure atual, eu tô vendo a nova série da Katherine Heigl, AMIGAS PARA SEMPRE, na Netflix. É uma novelinha.

Eu acho que inclusive, nessa temática de bastidores de telejornal, tem uma série que eu gosto muito da HBO, chamada THE NEWSROOM, e é uma série assim, roteiro brilhante. Acho que são três temporadas, é uma série muito legal. É interessante ter visto essa série e ver THE MORNING SHOW depois.

Yann
THE NEWSROOM do Aaron Sorkin, né? Talvez a grande celebridade dos roteiristas que são só roteiristas. Apesar de que ele começou a dirigir também agora, mais recentemente, mas que tem o destaque apenas como roteirista. Ele é brilhante mesmo.

Jessica
É. Essa série é brilhante, ela mostra muito os bastidores junto a jornal de notícias sendo feita ali. E trás muito aquela coisa da dinastia, do império da emissora de broadcast. Então é bem interessante. Apesar de THE MORNING SHOW já ser um pouco mais focada na questão do feminismo e do Me Too, THE NEWSROOM é uma série de antes disso, de 2013, se eu não me engano, mas que eu acho brilhante e tem tudo a ver. Muito legal.

Yann
O que eu tenho para recomendar, que eu terminei de ver recentemente, graças a deus terminei, que eu e a Pati, a gente já estava sofrendo, THE AMERICANS, que a gente viu as seis temporadas na Amazon.

Jessica
Ah é, vocês viram né? Eu ainda não terminei de ver.

Yann
Nossa, é fantástico, só que é muito sofrido Tem um site que eu acompanho, eu até recomendei no episódio sobre THE NIGHT OFF ou não. Acho que foi no episódio 3 do podcast sobre leituras de roteiro e uma rotina para estudos de roteiro. Eu falei no final do episódio sobre um site chamado Script Shadow e o Carson Reeves que é o dono do site que faz vários artigos sobre roteiro, ele tem muito uma visão comercial de cinema e de narrativa, e ele tem uma sigla que é a GSU, que são Goals, Stakes and Urgency. Objetivos, o Risco, a aposta, o peso das questões na narrativa, Stakes é uma palavra difícil de traduzir nesse sentido de narrativa.

Jessica
Dificílima, eu estava pensando nisso agora. É difícil de explicar o que é que significa Stakes.

Yann
E Urgency que é a urgência. THE AMERICANS pra mim é uma série que consegue ter uma forma, uma narrativa que é majoritariamente lenta, ela vai fazendo as coisas de forma muito gradual, construindo aos poucos, mas eu acho que ela consegue fazer isso com muita parcimônia e ainda gerar muita tensão na gente, porque ela está no ápice do que é: objetivos e riscos e urgência. Dois espiões russos no meio da Guerra Fria, vivendo nos Estados Unidos, com uma família com filhos americanos, e se infiltrando em várias questões do FBI. O que é mais perigoso do que isso?

Não é possível que tenha algo mais perigoso, com um objetivo mais megalomaníaco, as missões e os riscos maiores. Então quando eles vão fazendo as coisas com uma construção lenta, aquela coisa que chamam de Slow Burn, eu acho que eles têm combustível para fazer isso, porque só as premissas já são tão fortes que você já fica na ponta do sofá assistindo.

As últimas duas temporadas então, nossa, foi um sofrimento. Eu e a Pati ficamos arrasados, mas maravilhosa a série, recomendo pra todo mundo.

Jessica
Falam que o series finale dessa série, é um dos melhores da vida.

Yann
Achei incrível, incrível, incrível. Perfeito pro que é a série, faz todo sentido, não tem nada daquelas coisas HOW I MET YOUR MOTHER tipo, o que que vocês estão fazendo? Apagando tudo que fizeram até aqui? Pelo contrário, construiu e entregou muito alinhado à construção de tudo que aconteceu.

Jessica
Legal, porque é difícil para uma série de seis temporadas.

Yann
Jessica, muito, muito obrigado por ter vindo para esse episódio. E para todo mundo que está ouvindo, até breve no próximo episódio. Espero que tenham gostado. Um beijão.

Jessica
Tchau, um beijo.


Yann Rodrigues

Editor e podcaster do Além do Roteiro. Roteirista - Turma da Mônica: Origens | Assistente de Roteiro - Turma da Mônica - A Série | Roteirista BFF Girls - Nossa Voz