Laranja Mecânica capa

Laranja Mecânica – O Protagonista como ferramenta do tema

Tempo médio de leitura: 8 minutos

Nas análises de construção de personagens, é lugar-comum determinar que o protagonista representa o tema da história. O seu arco, seu desenvolvimento, entregm o significado por trás do filme ou série que acompanhamos.

Na média, ansiamos por mudanças em tela que inspirem mudanças em nossas vidas. A estabilidade é chata, é a maior parte do tempo no cotidiano. Histórias se baseiam em transformações profundas, mudanças radicais. Aquelas que tememos ou a que aspiramos.

Essa visão sobre as histórias dá a impressão de que todo filme ou livro precisa fazer seu protagonista passar por uma grande transformação interior. Ainda que esse seja o caminho mais intuitivo, não é obrigatório. É possível criar histórias em que o protagonista não é transformado. Nem deseja ser transformado. Nesse texto sobre o episódio 4×02 de Black Mirror, por exemplo, vimos como as tragédias se encaixam nesse perfil.

Esses casos de não transformação, no entanto, não mudam a relação entre protagonista e tema. Na verdade, evidenciam com mais força que o protagonista é uma ferramenta para entendermos o tema da história.

É o caso de Laranja Mecânica.

Alex DeLarge (Malcolm McDowell) não se transforma. E o filme não é uma tragédia. Não quer dizer que não haja uma trama que o afeta. Ou que não haja conflitos. Tudo isso existe.

Mas não há um arco tradicional. Não há um desejo inconsciente a revelar, uma mentira interna a destruir. Alex DeLarge é o que é desde o início e está muito bem assim.

É raro esse tipo de personagem funcionar. Vai contra o que indicam todos os gurus de roteiro ou técnicas narrativas. Contra os desejos do público para 99 entre 100 executivos de cinema.

Se você for um gênio como Stanley Kubrick, pode tirar esse tipo de coelho da cartola. Como eu não sou, a opção é aprofundar a relação entre protagonista e tema para compreender como uma escolha tão rara e não indicada resulta em uma história tão clássica.

Primeira pergunta: quem protagoniza a história?

Pelo tempo de tela, pelo ponto de vista dominante em Laranja Mecânica, pela posição central na trama, Alex DeLarge. Não há mistério aí.

No entanto, lá atrás aprendemos uma diferença sobre personagem principal e protagonista. Protagonistas agem. Suas ações dão movimento à história, através de uma cadeia de ação e reação.

Lá no texto sobre o protagonismo em Garota Exemplar, vimos que Nick (Ben Affleck) tem ações até a primeira metade da história. Contudo, quando descobrimos as ações de Amy (Rosamund Pike), percebemos que a motivação para o incidente incitante acontece a ela: a descoberta da traição. Descobrimos que a reação dela a esse evento gera a energia para o início da história: forjar o próprio sequesto. Na trama de Amy, Nick é o antagonista.

Resgatando os conceitos:

Protagonista

É o personagem que toma decisões importantes, e sofre as consequências dessas decisões. O protagonista também influencia as circunstâncias dos outros personagens, e move a história para frente.

Personagem Principal

Da forma mais simples possível, são os olhos pelos quais vemos a história.

Vamos aplicar essa visão de Garota Exemplar à Laranja Mecânica. Alex movimenta a história em seu início. Pela forma como decide agredir um senhor morador de rua, submeter seu bando à força, atacar duas casas, agredindo sexualmente as mulheres e atacando o senhor de cadeira de rodas de uma delas. Ele acaba preso na última invasão.

Laranja Mecânica cena 1
Alex e o bando atacando o morador de rua

Por volta da metade do filme, ele consegue entrar em um programa de extinção da violência para sair da prisão mais cedo.

Repare: essa é a sua última ação no filme. Todo o resto é reação. Ele é submetido a experimentos, a demonstrações da eficiência do programa. Suas reclamações não são ouvidas, seus gritos ignorados. Ao sair, com a violência extinta de sua natureza, ele é espancado por um grupo após ser visto pelo mesmo senhor morador de rua do início. Seus colegas do antigo bando o encontram, agora policiais, e o torturam.

Laranja Mecânica cena 2
Alex atacando seu bando após demonstrarem insubordinação. No futuro, eles se vingarão do líder.

Por fim, ele chega moribundo à casa do senhor de cadeira de rodas, que perdera a esposa por culpa de Alex. O senhor aplica uma nova tortura até que Alex não resiste e tenta o suicídio. No hospital, ele percebe que o bloqueio imposto de sua violência foi extinto e pode voltar à sua natureza original.

Portanto, Alex age até a metade de Laranja Mecânica. Após isso, ele apenas reage. O que o desqualifica, aparentemente, da posição de protagonista. Mas se não ele, quem seria? Nenhum dos personagens além de Alex recebe foco o suficiente para experimentar essa posição de protagonismo. Além disso, suas ações espelham características similares: violentar Alex, aquele que os violentou. Essa é uma dica que vamos guardar por ora.

Laranja Mecânica cena 3
O senhor de cadeira de rodas atacado por Alex. Sua vingança levou o protagonista a tentar o suicídio.

O segundo argumento que costuma ser usado para definir o protagonismo é a transformação. Alex não sofre uma transformação porque toda a mudança que ocorreu a ele – a extinção de sua violência – foi um bloqueio imposto externamente.

Quem muda? O senhor moribundo, violentado no início e que se torna praticante dessa violência. Assim como os dois ex-colegas de bando que se tornaram policiais. Assim como o senhor de cadeira de rodas que o tortura no final.

Mas essas mudanças são transformações? Eles mudam do mesmo estado inicial – sofrer violência de Alex – para o mesmo estado final – violentar Alex.

Mais uma vez, nenhum dos personagens secundários recebe destaque suficiente para ocupar o protagonismo, e todos compartilham as mesmas características.

Essa repetição de ações e reações pode muito bem ser entendida como uma repetição de assuntos. De temas.

Laranja Mecânica cena 4
Alex no experimento para extinguir seus impulsos violentos.

Se Alex é o protagonista da história, então, em algumas histórias o seu papel não é agir tão somente. Movimentar a história. Mas ser o elo de conexão temático entre todas as partes. Alex é o fator que unifica as ações, reações e mudanças dos personagens coadjuvantes. Portanto, ele é a ferramenta para compreensão do tema.

Quando uma história soa “clássica” demais, “complicada” demais, “sem sentido”, uma forma de aprofundar o entendimento sobre ela é partir dessa pergunta – quem protagoniza? – e andar pelo caminho necessário para respondê-la, passando pelas capacidades de ação, reação e transformação dos personagens da história.

Agora vamos para a segunda pergunta: qual o tema de Laranja Mecânica?

Sendo Alex o protagonista, a ferramenta, o tema deriva das interações que ele vive na história.

De início, o filme nos posiciona. Quem é Alex? Um adolescente, em um mundo relativamente distópico, de pouca impunidade e muita violência. Ele é líder de um bando, adora música clássica, aparenta ter um senso estético mais refinado do que o daqueles à sua volta.

Todas as ações de Alex até a metade do filme são necessárias para nos levar ao ponto de inflexão da história. Ao ponto em que a pergunta crucial é feita:

É possível extinguir a violência de uma pessoa? O que leva a pergunta mais genérica: é possível acabar com a violência?

Essa primeira questão é apresentada no período de Alex na prisão, mas é logo respondida. No universo do filme, sim. O experimento funciona, o protagonista se torna incapaz de ser violento. Mas a segunda questão não parece acompanhar a primeira.

Alex, inofensivo, se torna alvo da violência vingativa de todos que ele atacou anteriormente. O sistema – governo, seus pais, sociedade – o substituíram ou ignoraram do momento em que ele saiu da prisão. Chegando ao ponto de dois de seus agressores serem policiais, representantes do governo que deveriam protegê-lo.

Portanto, Laranja Mecânica faz pelo menos dois questionamentos principais. O primeiro é um estudo sobre a violência. Cada personagem violentado por Alex retorna para violentá-lo ciclicamente. A história mostra que até as pessoas mais inofensivas, como os pais bananas, um morador de rua idoso ou um homem em cadeira de rodas, são capazes de violência, se o estímulo suficiente for dado.

O segundo questionamento, oriundo desse estudo, é: deveríamos tentar acabar com a violência? Ou essa tentativa seria uma violência em si?

No caso de Alex, a ação do sistema – no caso, o governo – sobre ele foi violenta por ser imposta, por torná-lo indefeso e por não coibir a violência de outros sobre ele. Gerando um paradoxo, já que a ação visava extinguir a violência.

O filme revela uma grande hipocrisia social, que é escancarada no final, quando o governo faz de tudo para ajudar Alex na cama do hospital, pedindo que ele colabore com a opinião pública sobre o experimento. A segunda metade do filme culmina no pedido e em Alex descobrir que seu bloqueio foi embora. O protagonista é um par de olhos que nos permite ter acesso a essas facetas institucionais. Das manobras de governo aos impulsos violentos espalhados pela sociedade, acabar com a violência é uma opção que não parece possível, nem correta.


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Editor, também escreve em

Marido da Patrícia, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva e na Trendr.