Originalidade

Como as distopias resolvem o problema da originalidade

Tempo médio de leitura: 6 minutos

Se você procura um desafio para 2017, ser original pode ser o maior deles.

É só olhar na direção de Hollywood que conseguimos entender essa realidade. Já não é possível chamar de tendência o fato de que a indústria cinematográfica mais forte do mundo aposta em não apostar, realizando remakes e reboots e universos conectados aparentemente sem fim.

Na verdade, torço pela tendência contrária, uma descentralização desse modelo. Os números de bilheteria vêm mostrando que essa torcida ainda existe em vão.

Em um mercado onde a força está na remasterização de títulos, onde fica o espaço para a originalidade?

A dificuldade em ser original

Quando se aprende um conceito como o da Jornada do Herói, uma certa desesperança pode tomar conta da mente.

Se os marcos das histórias de Jesus, Buda, Rá ou de deuses de tribos indígenas são os mesmos de hoje — os famosos arquétipos —, será que é possível inovar? Quando O Hobbit ou Mulher Maravilha são construídos sobre pilares que duram milhares de anos, estaria a originalidade fadada à extinção?

Quando o primeiro hominídeo descobriu o fogo, podemos dizer que o ineditismo não era só fácil, era inescapável. Cozinhar, criar ferramentas, fazer fogueiras, tudo foi original em algum momento.

Originalidade
Descrição da imagem: 4 pintores desenhando em épocas diferentes. Meio digital, papel e lápis, quadro e pincel, pintura das cavernas. Dizem, respectivamente: “Serei algum dia tão bom quanto os antigos mestres?”. No último quadro, da pintura nas cavernas, a pessoa diz “Sou a melhor”

À medida em que essas primeiras atividades deixaram de ser originais, abriram espaço para evoluções tecnológicas ou do pensamento que permitiram novas originalidades. A escrita, a agricultura, a manipulação do ferro. Em milhares de anos, a prensa, a máquina à vapor, a computação.

A mesma avaliação pode ser feita sobre as artes. Música e dança, pintura, escultura, teatro, literatura e cinema surgiram conforme as inovações de cada época, desde o próprio corpo até a filmagem.

Cada obra explora os limites de sua arte e, por vezes, a interseção entre muitas artes. Outras formas também surgiram como a fotografia ou os videogames.

Quando olhamos para tudo isso em 2017, parece impossível que algo totalmente novo surja.

Talvez seja mesmo impossível. O cinema, por exemplo, converge literatura, música, teatro e fotografia em basicamente qualquer obra, podendo ir além com as ideias de cada produção. Portanto, ele enfrenta o histórico de cada uma dessas formas de arte se quiser ser totalmente novo.

O que é original?

A dificuldade, no entanto, pode residir na nossa própria definição. Quando tentamos buscar algo 100% novo, podemos nos frustrar à toa com a dificuldade de alcançar esse número.

O diretor Alejandro Iñárritu, famoso por Birdman e O Regresso, está produzindo um curta em Realidade Virtual. Não seria essa uma obra original, ao explorar um aspecto tecnológico ainda por vir?

Matrix aproveita conceitos de “Ghost in the Shell”, mas as inovações em filmagem que permitiram cenas icônicas não tornariam a obra original?

Quando olhamos ponto a ponto, existem muitos aspectos que refrescam histórias que poderiam soar batidas. Nada disso é roubo.

No livro “O Efeito Medici”, o guru da inovação Frans Johansson mostra como a originalidade é uma construção de descobertas e novidades anteriores.

A cada novo aparelho tecnológico, novo modelo de trabalho ou novo paradigma, novas combinações surgem. É nessa exploração de novas combinações que oportunidades de inovação, ao invés de serem reduzidas, explodem.

Mas por que trazer a ideia de um livro corporativo para essa discussão no meio artístico?

A pergunta que as distopias respondem

De Aldous Huxley a George Orwell, de Isaac Asimov a Charlie Brooker, distopias representam algumas das histórias mais conceituadas em termos de criatividade. Afinal, as pessoas que criam distopias criam mundos vastos reinterpretando o nosso, com variados desfechos doídos e agridoces, gerando histórias tão complexas quanto as fantasias.

Porém, todas as distopias respondem a uma pergunta comum:

E se?

E se animais tivessem a inteligência e fala humanas? — Premissa básica de “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell.
E se avaliações fossem a principal moeda da sociedade? — Ideia chave de “Nosedive”, primeiro episódio da terceira temporada de “Black Mirror”, de Charlie Brooker.

E se uma inteligência artificial alcançasse a inteligência humana? — Inúmeras obras, como “Eu, Robô”, de Isaac Asimov.

E se crianças parassem de nascer?  — Origem de “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, obra basilar para a série “The Handmaid’s Tale” da plataforma Hulu.

São centenas de exemplos.

Vamos olhar com calma para o último caso. Eu relacionei a premissa do não nascimento a “O Conto da Aia”. A mesma premissa aparece no filme “Filhos da Esperança”, de 2006. A repetição da premissa tornaria impossível chamar a segunda obra de original?

Não é bem assim. Pois a premissa é uma mera centelha. Se a pergunta for difícil o suficiente, a variação das possíveis respostas pode gerar infinitas formas de se contar uma nova história.

Margaret Atwood respondeu sua pergunta com a tomada de poder de um grupo cristão extremista e a sociedade teocrática resultante.

P. D. James, escritor do romance “The Children of Men” que deu origem ao filme “Filhos da Esperança” de Alfonso Cuarón, respondeu sua pergunta colocando o nascimento da primeira criança em dezoito anos no centro de uma sociedade colapsada.

As duas histórias são absolutamente originais, mesmo partindo da mesma fagulha. Pois pessoas diferentes pensam em formas distintas de responder à mesma pergunta.

“E se? ” não é fórmula

Talvez você esteja com a impressão de que vendi uma fórmula acima.

Não existem fórmulas para a criação de histórias originais, qualquer guru dirá. Existem arquétipos, referências e, por que não, ferramentas.

A pergunta que permeia as distopias é uma dessas ferramentas. Ela não extingue o trabalho insano de criar uma história complexa como “As Crônicas de Gelo e Fogo”. A originalidade depende de como você responde aos desafios que o tema apresenta, do quão bem responde.

Perguntar “e se existissem dragões e outros elementos mágicos na Idade Média? ” soa clichê. Com razão. Contudo, a maioria das histórias que explora esse tema se foca nesses elementos extraordinários, simplificando seus mundos e tramas a uma visão de bem e mal.

George R. R. Martin projetou a pergunta no nosso mundo real e conseguiu respondê-la de um modo inteiramente novo. “Game of Thrones” não é original?

Veja o caso da pergunta “E se uma inteligência artificial alcançasse a inteligência humana? ”. Dezenas de histórias exploraram esse conceito. Podemos falar de “Westworld”, “Ex-Machina”, “Matrix”, “Ghost in the Shell”, “Blade Runner”, “Eu, Robô”.

As histórias acima respondem a mesma pergunta e trocam referências entre si e com outras obras. Ainda assim, alguma dessas histórias não é original?

A diversão do “E se? ” não é uma fórmula, mas o exercício de pensar em coisas absurdas, típicas das distopias.
Você pode pegar um ônibus e pensar “E se não houvesse mais cobrador de ônibus? ”, e isso não te levar a lugar algum.
Ou você pode pegar o ônibus e pensar “E se não existissem mais carros? ”.

Então você começará a visualizar um mundo louco de estradas vazias e começará a mexer aqui e ali para transformar esse cenário fantástico em algo crível. Outro modelo de planejamento urbano. Ou automóveis existirão, mas serão autônomos, gerando um conflito social pela perda em massa de empregos. Ou você mostrará a época em que a decisão de não fabricar mais carros foi tomada e por quê.

Voltando ao cenário de um mundo onde crianças não nascem, como fica a previdência? Qual significado a morte passa a ter? Será que a pena de morte seria extinguida? A ciência buscaria uma forma de imortalidade?

Histórias e mais histórias podem ser contadas se questionarmos os elementos mais básicos do nosso dia-a-dia. E se não existissem paredes?

A série “Black Mirror” evidencia bem como o “Efeito Médici”, citado lá em cima, se liga a isso. Tecnologias novas permitem perguntas diferentes, que se combinam a outras invenções, gerando inúmeras possibilidades. Um seriado inteiro montado com uma distopia por episódio, e já tivemos treze deles. Com mais uma temporada vindo pela frente.

Há espaço para a originalidade. E se você questionar o que está à sua volta agora? O que vê todos os dias?
Aguardo ansioso pela nova história que você terá para me contar.


Você também pode ler nossas análises de filmes e séries aqui.

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Foto de capa por James Pond


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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.

  • Cinema Tormenta

    Excelente texto! As distopias são interessantes porque quando aceitas como possíveis, movimentam a inteligência coletiva num sentido de dar ao espectador, a chance de juntar peças para que tal panorama futuro se complete com o que vivemos hoje, através do mesmo questionamento do “e se…” usado pelo escritor. Não revelando a verdade ao espectador, deixando-o descobrir por si só. Um jogo interessante.

  • Eisenberg

    Gostei muito do texto. E o “se” é uma maneira muito eficaz de se imaginar novos contextos.
    E “originalidade” é algo não humano. Nós, por natureza, não somos capazes de criar algo do zero, tudo que fazemos é um eterno processo de evolução. Mas já pensou “se” tivéssemos essa capacidade?

    Obrigado pelo texto.

    • Grande Lavoisier. Tem um anime japonês chamado Bleach com um personagem com esse poder. Ele é capaz de criar absolutamente qualquer coisa com a própria imaginação. É um poder bem difícil de dar a um personagem, pois a quantidade de opções infinita por vezes até dificulta a criatividade.

      Obrigado pelo comentário!

  • Eu escrevi uma distopia, mas ela não é focada exatamente no colapso da sociedade em si, mas sim nas consequências deste colapso nas relações humanas. Por isso, eu decidi colocar este colapso de uma maneira bastante vaga, para não ficar parecendo uma coisa como presságio de fim do mundo. Mas eu deveria inserir uma causa mais específica para este colapso, como meteoro, alienígenas, aquecimento global, qualquer coisa que seja?

    • Clare, acho que “dever” é muito forte. A construção do mundo ficcional é uma moda forte atual, com As Crônicas de Gelo e Fogo como um grande exemplo. Se você deseja aumentar a complexidade desse ambiente que envolve a história, deve acabar precisando detalhar melhor esses eventos. É bom frisar que esses colapsos não dependem de causas naturais como precursores. O Homem do Castelo Alto, por exemplo, de Phillip K Dick é uma distopia cuja premissa é a vitória dos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

      Nessa história mesmo, por exemplo, o autor não se preocupa em explicar como a Alemanha ganhou. Ele simplesmente parte daí.

      Outro exemplo ainda mais desconectado de uma explicação de origem é o recente filme “O Lagosta”. Tenho um texto analisando alguns aspectos desse filme, se interessar:
      http://alemdoroteiro.com/2017/06/30/o-lagosta-e-o-uso-de-narracao/

      Nesse filme, nunca é explicado como ou o quê aconteceu para que a sociedade esteja daquela forma tão diferente. É uma distopia focada no amor, nas relações amorosas, e não depende d qualquer causa de colapso.

      Portanto, acho que a resposta é, você não tem essa obrigação. Vai avaliando com o andar da sua própria história 🙂

      Muito obrigado pela pergunta! Bons ventos.

      • Isso respondeu muito bem a minha pergunta, obrigada!

    • Não acho que precise necessáriamente, pois como você mesma mencionou, seu enfoque está na consequência de um colapso. Há exemplos, como o filme A Estrada que fazem o mesmo.